CLARABOIA

JOS SARAMAGO


         Ficha Tcnica

         Ttulo: Claraboia

         Autor: Jos Saramago

         Capa: Rui Garrido

         Fonte utilizada na capa: Mrs. Eaves

         Preparao do original e reviso literria:

         Fundao Jos Saramago





         ISBN: 9789722124966



         Editorial Caminho, SA

         [Uma chancela do grupo Leya]

         Rua Cidade de Crdova, n. 2

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          Herdeiros de Jos Saramago  2011

         Todos os direitos reservados de acordo com a legislao em vigor

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         Claraboia, cuja redao Jos Saramago terminou

         a 5 de janeiro de 1953, consiste num datiloscrito

         de 319 pginas, assinado com o pseudnimo de Honorato.

         A presente edio reproduz fielmente o original.








          memria de

         Jernimo Hilrio,

         meu Av






         Em todas as almas, como em todas as casas,

         alm da fachada, h um interior escondido.

         Raul Brando






         I

         Por entre os vus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre comeou a ouvir rumores de loia
mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos vus. Ia aborrecer-se, mas
percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imvel,
enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rpido, sentou-se na cama. Espreguiou-se, 
fazendo estalar rijamente as articulaes dos braos. Por baixo da camisola, os msculos do dorso rolaram e 
estremeceram. Tinha o tronco forte, os braos grossos e duros, as omoplatas revestidas de msculos 
encordoados. Precisava desses msculos para o seu ofcio de sapateiro. As mos, tinha-as como petrificadas, a 
pele das palmas to espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.
         Num movimento mais lento de rotao, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as 
rtulas tornadas brancas pela frico das calas que lhe desbastavam os pelos entristeciam e desolavam 
profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dvida, mas tinha raiva das pernas, to enfezadas 
que nem pareciam pertencer-lhe.
         Contemplando com desalento os ps descalos assentes no tapete, Silvestre coou a cabea grisalha. 
Depois passou a mo pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De m vontade, levantou-se e deu alguns passos 
no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, 
a trunfa de cabelos manchados de sal-e-pimenta, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as 
pernas mal suportavam.
         Procurou as calas e no deu com elas. Estendendo o pescoo para o lado da porta, gritou:
          Mariana! Eh, Mariana! Onde esto as minhas calas?
         (Voz de dentro:)
          J l vai!
         Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que no poderia vir depressa. Silvestre 
teve que esperar um bom pedao e esperou com pacincia. A mulher apareceu  porta:
          Esto aqui.
         Trazia as calas dobradas no brao direito, um brao mais gordo que as pernas de Silvestre. E 
acrescentou:
 No sei que fazes aos botes das calas, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho 
que passar a preg-los com arame...
         A voz de Mariana era to gorda como a sua dona. E era to franca e bondosa como os olhos dela. 
Estava longe de pensar que dissera um gracejo, mas o marido sorriu com todas as rugas da cara e os poucos 
dentes que lhe restavam. Recebeu as calas, vestiu-as sob o olhar complacente da mulher e ficou satisfeito, 
agora que o vesturio lhe tornava o corpo mais proporcionado e regular. Silvestre era to vaidoso do seu 
corpo como Mariana desprendida do que a Natureza lhe dera. Nenhum deles se iludia a respeito do outro e 
bem sabiam que o fogo da juventude se apagara para nunca mais, mas amavam-se ternamente, hoje como h 
trinta anos, quando do casamento. Talvez agora o seu amor fosse maior, porque j no se alimentava de 
perfeies reais ou imaginadas.
         Silvestre foi atrs da mulher at  cozinha. Enfiou na casa de banho e voltou da a dez minutos, j 
lavado. No vinha penteado porque era impossvel domar a grenha que lhe dominava (dominava  o termo) a 
cabea  o lambaz do barco, como lhe chamava Mariana.
         As duas tigelas de caf fumegavam sobre a mesa, e havia na cozinha um cheiro bom e fresco de 
limpeza. As faces redondas de Mariana resplandeciam, e todo o seu corpo obeso estremecia e se agitava 
movendo-se na cozinha.
          Cada vez ests mais gorda, mulher!...
         E Silvestre riu. Mariana riu com ele. Duas crianas, sem tirar nem pr. Sentaram-se  mesa. Beberam 
o caf quente em longos sorvos assobiados, por brincadeira. Cada um queria vencer o outro no assobio.
          Ento, que resolvemos?
         Agora, Silvestre j no ria. Mariana tambm estava sisuda. At as faces pareciam menos coradas.
          Eu no sei. Tu  que resolves.
 J ontem te disse. A sola est cada vez mais cara. A freguesia queixa-se de que levo caro.  a 
sola... No posso  fazer milagres. Sempre queria que me dissessem quem  que trabalha mais barato que eu. 
E ainda se queixam...
         Mariana deteve-o no desabafo. Por este caminho no resolviam nada. O que era preciso era ver essa 
questo do hspede.
 Pois , fazia jeito. Ajudava-nos a pagar a renda e, se fosse um homem sozinho e tu quisesses 
encarregar-te da roupa, a gente equilibrava-se.
         Mariana escorripichou o caf adocicado do fundo da tigela e respondeu:
          C por mim, no me importo. Sempre  uma ajuda...
 Pois . Mas estarmos outra vez a meter hspedes, depois de nos vermos livres dessa cavalheira que 
se foi embora...
 Que remdio! Seja ele boa pessoa... Eu dou-me bem com toda a gente, se se derem bem comigo.
 Experimenta-se uma vez mais... Um homem s, que s venha dormir,  o que convm. Logo,  
tarde, vou pr o anncio.  Mastigando ainda o ltimo bocado de po, Silvestre levantou-se e declarou:  
Bom, vou trabalhar.
         Regressou ao quarto e caminhou para a janela. Afastou a cortina que formava um pequeno biombo 
que o isolava do quarto. Havia um estrado alto e sobre ele a banca de trabalho. Sovelas, formas, bocados de 
fio, latas de prego mido, retalhos de sela e pele. A um canto, a ona de tabaco francs e os fsforos.
         Silvestre abriu a janela e deitou uma vista de olhos para fora. Nada de novo. Pouca gente passava na 
rua. No muito longe, uma mulher apregoava fava-rica. Silvestre no chegava a perceber como vivia aquela 
mulher. Nenhum dos seus conhecidos comia fava-rica, ele prprio no a comia h mais de vinte anos. Outros 
tempos, outros costumes, outras comidas. Resumida a questo nestas palavras, sentou-se. Abriu a ona, 
pescou as mortalhas na barafunda de objetos que pejavam a banca, e fez um cigarro. Acendeu-o, saboreou 
uma fumaa e deitou mos ao trabalho. Tinha umas gspeas a pr, e a estava uma obra em que sempre 
aplicava todo o seu saber.
         De vez em quando, relanceava os olhos para a rua. A manh ia aclarando pouco a pouco, embora o 
cu estivesse coberto e houvesse na atmosfera um ligeiro vu de nvoa que esbatia os contornos das coisas e 
das pessoas.
         Na multido de rudos que j enchia o prdio, Silvestre comeou a distinguir um bater de saltos nos 
degraus da escada. Identificou-os imediatamente. Ouviu abrir a porta que dava para a rua e debruou-se:
          Bom dia, menina Adriana!
          Bom dia, senhor Silvestre.
         A rapariga parou debaixo da janela. Era baixinha e usava culos de lentes grossas que lhe 
transformavam os olhos em duas bolinhas minsculas e inquietas. Estava a meio do caminho dos trinta aos 
quarenta anos, e j um que outro cabelo branco lhe riscava o penteado simples.
          Ento, ao seu trabalho, heim?
           verdade. At logo, senhor Silvestre.
         Era assim todas as manhs. Quando Adriana saa de casa j o sapateiro estava  janela do rs do 
cho. Impossvel escapar sem ver aquela gaforina desgrenhada e sem ouvir e retribuir os inevitveis 
cumprimentos. Silvestre seguiu-a com os olhos. Assim, de longe, parecia, na comparao pitoresca do 
sapateiro, um saco mal atado. Chegada  esquina da rua, Adriana voltou-se e acenou um adeus para o 
segundo andar. Depois, desapareceu.
         Silvestre largou o sapato e torceu a cabea para fora da janela. No era bisbilhoteiro, mas gostava das 
vizinhas do segundo, boas freguesas e boas pessoas. Com a voz alterada pela toro do pescoo, saudou:
          Viva, menina Isaura! Que tal o dia, hoje?
         Do segundo andar, atenuada pela distncia, veio a resposta:
          No est mau, no. O nevoeiro...
         No se chegou a saber se o nevoeiro prejudicava, ou no, a beleza da manh. Isaura deixou morrer o 
dilogo e fechou a janela devagar. No desgostava do sapateiro, do seu ar a um tempo refletido e risonho, mas 
nessa manh no sentia nimo para conversar. Tinha um monte de camisas para acabar at ao fim da semana. 
Sbado tinha que entreg-las, desse l por onde desse. Por sua vontade, acabaria de ler o romance. S lhe 
faltavam umas cinquenta pginas e estava na passagem mais interessante. Aqueles amores clandestinos, 
sustentados atravs de mil peripcias e contrariedades, prendiam-na. Alm disso, o romance estava bem 
escrito. Isaura tinha experincia bastante de leitora para assim julgar. Hesitou. Mas bem via que nem sequer 
tinha o direito de hesitar. As camisas esperavam-na. Ouvia l dentro um rudo de vozes: a me e a tia falavam. 
Muito falavam aquelas mulheres. Que tinham elas a dizer todo o santo dia, que no estivesse j dito mil 
vezes?
         Atravessou o quarto onde dormia com a irm. O romance estava  cabeceira. Lanou-lhe os olhos 
vorazes, mas seguiu. Parou diante do espelho do guarda-vestidos que a refletia da cabea aos ps. Trazia uma 
bata caseira que lhe modelava o corpo esguio e magro, mas flexvel e elegante. Com as pontas dos dedos 
percorreu as faces plidas onde as primeiras rugas abriam sulcos finos, mais adivinhados que visveis. 
Suspirou para a imagem que o espelho lhe mostrava e fugiu dela.
         Na cozinha, as duas velhas continuavam a falar. Muito parecidas, os cabelos todos brancos, os olhos 
castanhos, os mesmos vestidos negros de corte simples, falavam com vozinhas agudas e rpidas, sem pausas e 
sem modulao:
 J te disse. O carvo  s terra.  preciso ir reclamar  carvoaria  dizia uma.
          Est bem  respondia a outra.
          Que esto a dizer?  perguntou Isaura, entrando.
         Uma das velhas, a de olhar mais vivo e de cabea mais ereta, respondeu:
           o carvo que  uma lstima. Tem que se reclamar.
          Est bem, tia.
         Tia Amlia era, por assim dizer, a ecnoma da casa. Era ela quem cozinhava, fazia contas e dividia 
as raes pelos pratos. Cndida, a me de Isaura e Adriana, tratava dos arranjos domsticos, das roupas, dos 
pequenos bordados que ornamentavam profusamente os mveis e dos solitrios com flores de papel que s 
eram substitudas por autnticas flores nos dias festivos. Cndida era a mais velha, e, tal como Amlia, viva. 
Vivas a que a velhice j tranquilizara.
         Isaura sentou-se  mquina de costura. Antes de comear o trabalho, olhou o rio que se estendia 
muito largo, com a outra margem oculta pelo nevoeiro. Parecia o oceano. Os telhados e as chamins 
estragavam a iluso mas, mesmo assim, fazendo fora para os no ver, o oceano surgia nos poucos 
quilmetros de gua. Uma alta chamin de fbrica,  esquerda, esborratava o cu branco com golfadas de 
fumo.
         Isaura sempre gostava daqueles momentos em que, antes de curvar a cabea sobre a mquina, 
deixava correr os olhos e o pensamento. A paisagem era sempre igual, mas s a achava montona nos dias de 
vero teimosamente azuis e luminosos em que tudo  evidente e definitivo. Uma manh de nevoeiro como 
esta, de nevoeiro delgado que no impedia de todo a viso, cobria a cidade de imprecises e de sonho. Isaura 
saboreava tudo isto. Prolongava o prazer. No rio ia passando uma fragata, to maciamente como se flutuasse 
numa nuvem. A vela vermelha tornava-se rosada atravs das gazes do nevoeiro. Sbito, mergulhou numa 
nuvem mais espessa que lambia a gua e, quando ia surdir de novo nos olhos de Isaura, desapareceu atrs da 
empena de um prdio.
         Isaura suspirou. Era o segundo suspiro nessa manh. Sacudiu a cabea como quem sai de um 
mergulho prolongado, e a mquina matraqueou com fria. O tecido corria debaixo da patilha e os dedos 
guiavam-no mecanicamente como se fizessem parte da engrenagem. Aturdida pelo barulho, pareceu a Isaura 
que algum lhe falava. Deteve a roda bruscamente e o silncio refluiu. Voltou-se para trs:
          O qu?
         A me repetiu:
          No achas que  um bocadinho cedo?
          Cedo? Porqu?
          Bem sabes... O vizinho...
 Mas, minha me, que hei de fazer? Que culpa tenho eu de que o vizinho de baixo trabalhe de noite 
e durma de dia?
 Ao menos, podias esperar at mais logo. No gosto nada de questes com a vizinhana...
         Isaura encolheu os ombros. Pedalou outra vez e disse, elevando a voz acima do rudo da mquina:
 E a me quer que eu v  loja pedir que esperem, no ?
         Cndida abanou devagar a cabea. Era uma criatura sempre perplexa e indecisa, que sofria o domnio 
da irm, mais nova que ela trs anos, e com a conscincia aguda de que vivia  custa das filhas. Desejava, 
acima de tudo, no incomodar ningum, passar despercebida, apagada como uma sombra na escurido. Ia 
responder mas, ao ouvir os passos de Amlia, calou-se e voltou  cozinha.
         Entretanto, Isaura, lanada no trabalho, enchia a casa de barulho. O cho vibrava. As faces 
empalidecidas coloriam-se-lhe pouco a pouco e uma gota de suor comeava a brotar-lhe da testa. Sentiu mais 
uma vez que algum se aproximava e abrandou.
           escusado trabalhares to depressa. Cansas-te.
         Tia Amlia nunca dizia palavras suprfluas. Apenas as necessrias e no mais que as indispensveis. 
Mas dizia-as de uma maneira que aqueles que a ouviam ficavam a apreciar o valor da conciso. As palavras 
pareciam nascer-lhe na boca no momento em que eram ditas: vinham ainda repletas de significao, pesadas 
de sentido, virgens. Por isso dominavam e convenciam. Isaura abrandou a velocidade.
         Da a poucos minutos, a campainha da porta tocou. Cndida foi abrir, demorou-se alguns instantes e 
regressou desorientada e aflita, murmurando:
          Eu no dizia?... Eu no dizia?...
         Amlia levantou a cabea:
          Que ?
  a vizinha de baixo que vem reclamar. Este barulho... Vai l tu, vai l tu...
         A irm deixou a loua que estava lavando, limpou as mos a um pano e dirigiu-se  porta. No 
patamar estava a vizinha de baixo.
          Bom dia, D. Justina. Que deseja?
         Amlia, em qualquer momento e em qualquer circunstncia, era a polidez em pessoa. Mas bastava-
lhe carregar na polidez para tornar-se terrivelmente fria. As pupilas pequenssimas cravavam-se no rosto que 
fitavam e provocavam uma impresso de mal-estar e de constrangimento impossveis de reprimir.
         A vizinha entendera-se bem com a irm de Amlia e estivera quase a concluir o que trazia para dizer. 
Aparecia-lhe agora um rosto menos tmido e um olhar mais direto. Articulou:
 Bom dia, D. Amlia.  o meu marido... Trabalha toda a noite no jornal, como sabe, e s de manh 
 que pode descansar... Fica sempre aborrecido quando o acordam e eu  que tenho que o ouvir. Se pudessem 
fazer menos barulho com a mquina eu agradecia...
          Bem sei. Mas a minha sobrinha precisa de trabalhar.
 Compreendo. Por mim, no me importaria, mas sabe como so os homens...
 Sei, sei. E tambm sei que o seu marido no se preocupa muito com o descanso dos vizinhos 
quando entra de madrugada.
 Que hei de eu fazer? J desisti de o convencer a subir a escada como gente.
         A figura longa e macilenta de Justina animava-se. Nos seus olhos comeava a brilhar uma pequena 
luz maligna. Amlia terminou a conversa:
          Esperaremos mais um bocado. V descansada.
          Muito obrigada, D. Amlia.
         Amlia murmurou um com licena! seco e breve e fechou a porta. Justina desceu a escada. Vestia 
luto carregado e, assim, muito alta e fnebre, com os cabelos pretos divididos ao meio por uma risca larga, 
parecia um boneco mal articulado, demasiado grande para mulher e sem o menor sinal de graa feminina. S 
os olhos negros, profundos nas olheiras maceradas de diabtica, eram paradoxalmente belos, mas to graves e 
srios que a graa no morava neles.
         Ao chegar ao patamar, parou junto da porta que ficava defronte da sua e aproximou o ouvido. De 
dentro no vinha qualquer rumor. Fez um trejeito de desprezo e afastou-se. Quando ia entrar, ouviu abrir-se 
uma porta no andar de cima e, logo a seguir, um rudo de vozes. Ajeitou o capacho para se dar um pretexto 
para no sair dali.
         De cima vinha um dilogo animado:
 Ela o que no quer  ir trabalhar!  dizia uma voz feminina com asperezas de irritao.
 Seja l o que for.  preciso cuidado com a pequena. Est na idade perigosa  respondeu uma voz 
de homem.  Nunca se sabe o que estas coisas do.
 Qual idade perigosa, qual qu? Hs de ser sempre o mesmo. Com dezanove anos, idade perigosa? 
Isso s teu!...
         Justina achou conveniente sacudir o capacho com fora, para anunciar a sua presena. A conversa, 
em cima, interrompeu-se. O homem comeou a descer a escada, ao mesmo tempo que dizia:
 No a obrigues a ir. Se houver alguma novidade telefona-me para o escritrio. At logo.
          At logo, Anselmo.
         Justina cumprimentou o vizinho com um sorriso sem amabilidade. Anselmo passou, fez um solene 
gesto na direo da aba do chapu e articulou com belo timbre uma saudao cerimoniosa. A porta da escada, 
em baixo, teve um bater cheio de personalidade, quando ele saiu. Justina cumprimentou para cima:
          Bom dia, D. Roslia.
          Bom dia, D. Justina.
          Que tem a Claudinha? Est doente?
          Como soube?
 Estava aqui a sacudir o capacho e ouvi o seu marido. Pareceu-me perceber...
 Aquilo  manha. O meu Anselmo  que no pode ouvir a filha queixar-se.  o ai-jesus... Diz ela 
que lhe di a cabea. Mndria  que ela tem. To grande  a dor de cabea que j est outra vez a dormir!
 Nunca se sabe, D. Roslia. Foi assim que eu fiquei sem a minha filha, que Deus haja. No era 
nada, no era nada, diziam, e l se foi com a meningite... Tirou um leno e assoou-se com fora. Depois, 
continuou:  Coitadinha... Com oito anos... No me esquece... Est agora a fazer dois anos, lembra-se, D. 
Roslia?
         Roslia lembrava-se e enxugou uma lgrima de circunstncia. Justina ia insistir, lembrar pormenores 
j sabidos, apoiada  compaixo aparente da vizinha, quando uma voz rouca lhe cortou as palavras:
          Justina!
         O rosto plido de Justina tornou-se de pedra. Continuou a conversar com Roslia at que a voz se 
ouviu mais alta e violenta:
          Justina!!!
          Que ?  perguntou.
 Faz favor de vir para dentro. No quero conversas na escada. Se estivesse to farta de trabalhar 
como eu, no tinha disposio para dar  lngua!
         Justina encolheu os ombros com indiferena e prosseguiu a conversa. Mas a outra, incomodada pela 
cena, despediu-se. Justina entrou em casa. Roslia desceu alguns degraus e apurou o ouvido. Atravs da porta 
passaram exclamaes speras. Depois, subitamente, o silncio.
         Era sempre assim. Ouvia-se o homem ralhar, depois a mulher pronunciava algumas poucas e 
inaudveis palavras e ele calava-se. Roslia achava isto muito esquisito. O marido de Justina tinha fama de 
brutamontes, com o seu corpanzil inchado e os seus modos grosseiros. Ainda no chegara aos quarenta anos e 
parecia mais velho, por causa do rosto flcido, de olhos papudos e beio reluzente sempre cado. Ningum 
percebia como e por que dois seres to diferentes se tinham casado. Verdade que tambm ningum se 
lembrava de os ter visto juntos na rua. E, ainda, ningum compreendia como de duas pessoas nada bonitas (os 
olhos de Justina eram belos e no bonitos) pudera nascer uma filha de tal maneira graciosa como fora a 
pequena Matilde. Dir-se-ia que a Natureza se enganara e que, depois, descobrindo o engano, se emendara 
fazendo desaparecer a criana.
         O certo  que o violento e spero Caetano Cunha, linotipista no Notcias do Dia, sempre a estalar de 
gordura, novidades e m criao, aps trs exclamaes agressivas calava-se a um murmrio da mulher, a 
diabtica e dbil Justina que um sopro bastaria para derrubar.
         Era um mistrio que no conseguia descobrir. Esperou ainda, mas o silncio era total. Recolheu a 
casa, cerrando a porta com cuidado para no acordar a filha que dormia.
         Que dormia ou fingia dormir. Roslia espreitou pela frincha da porta. Pareceu-lhe ver estremecerem 
as plpebras da filha. Abriu a porta completamente e avanou para a cama. Maria Cludia cerrava os olhos 
com fora demasiada e escusada. Rugas pequeninas, vincadas pelo esforo, assinalavam o lugar onde mais 
tarde viriam a aparecer os ps-de-galinha. A boca carnuda conservava ainda restos de bton do dia anterior. 
Os cabelos castanhos, cortados curtos, davam-lhe um ar de garoto rufio que lhe tornava a beleza picante e 
provocadora, quase equvoca.
         Roslia mirava a filha, um tanto desconfiada daquele sono profundo que tinha todo o ar de 
impostura. Deu um pequeno suspiro. Depois, num gesto de carinho maternal, aconchegou a roupa em volta do 
pescoo da filha. A reao foi imediata. Maria Cludia abriu os olhos. Riu muito, quis disfarar, mas j era 
tarde:
          Fez-me ccegas, mezinha!
         Furiosa porque fora lograda e, sobretudo, porque a filha a surpreendera em flagrante delito de amor 
maternal, Roslia respondeu de mau humor:
 Era assim que dormias, no era?! J no te di a cabea, pois no? O que tu no queres  trabalhar, 
preguiosa!
         Como a dar razo  me, a rapariga espreguiava-se devagar, saboreando o distender dos msculos. 
A camisinha enfeitada de rendas abria-se no movimento em que o peito alargava  e deixava ver dois seios 
pequenos e redondos. Embora incapaz de dizer por que entendia que aquele movimento descuidado a ofendia, 
Roslia no pde reprimir o seu desagrado e resmungou:
 V l se te tapas! Vocs, hoje, so de tal maneira que nem se envergonham na presena da vossa 
me!
         Maria Cludia esbugalhou os olhos. Tinha-os azuis, de um azul brilhante, mas frios, tal como as 
estrelas que esto longe e de que, por isso, s percebemos a luminosidade.
          Mas, que mal faz? Pronto! J estou tapada.
 No tempo em que eu tinha a tua idade, se aparecesse assim diante da minha me levava uma 
bofetada.
          Olhe que era bater por bem pouco...
          Achas? Pois era o que tu precisavas.
         Maria Cludia ergueu os braos num espreguiamento disfarado. Depois, bocejou:
          Os tempos so outros, me.
         Roslia respondeu, enquanto abria a janela:
 So outros, so. So piores.  Depois voltou  cama:  Vamos a saber: vais trabalhar ou no?
          Que horas so?
          Quase dez.
          Agora j  tarde.
          Mas h bocado no era.
          Doa-me a cabea.
         As frases curtas e rpidas denunciavam irritao de parte a parte. Roslia fervia de clera reprimida, 
Maria Cludia estava aborrecida com as observaes moralizadoras da me.
 Doa-te a cabea, doa-te a cabea! Fingida,  que tu s!...
 J disse que me doa a cabea. Que quer que lhe eu faa?
         Roslia explodiu:
  assim que se responde, menina? Olha que sou tua me, ouviste?
         A rapariga no se atemorizou. Encolheu os ombros, querendo significar com o gesto que aquele 
ponto no merecia discusso, e, de um salto, levantou-se. Ficou de p, descala, com a camisa de seda 
descendo-lhe pelo corpo macio e bem formado. Na fervura da irritao de Roslia caiu a frescura da beleza da 
filha e a irritao desapareceu como gua em areia seca. Roslia sentiu-se orgulhosa de Maria Cludia, do 
lindo corpo que ela tinha. As palavras que disse a seguir eram uma rendio:
          Tem que se avisar para o escritrio.
         Maria Cludia no mostrou ter apreciado a mudana de tom. Respondeu, indiferente:
          Vou l abaixo  D. Ldia, telefonar.
         Roslia irritou-se de novo, talvez porque a filha enfiara uma bata caseira e era, agora, discretamente 
vestida como estava, incapaz de encant-la.
          Sabes bem que no gosto que entres em casa da D. Ldia.
         Os olhos de Maria Cludia eram mais inocentes que nunca:
          Ora essa! Porqu? No percebo.
         Se a conversa continuasse, Roslia teria de dizer coisas que preferia calar. Sabia que a filha as no 
ignorava, mas entendia que h assuntos em que  prejudicial tocar diante de uma menina solteira. Da 
educao que recebera ficara com uma noo do respeito que deve existir entre pais e filhos  e aplicava-a. 
Simulou no ter percebido a pergunta e saiu do quarto.
         Maria Cludia, sozinha, sorriu. Diante do espelho desabotoou a bata, abriu a camisa e contemplou os 
seios. Estremeceu. Uma leve vermelhido lhe tingiu o rosto. Sorriu de novo, um pouco nervosa, mas contente. 
O que fizera provocara-lhe uma sensao agradvel, com um sabor a pecado. Depois, abotoou a bata, olhou 
uma vez mais o espelho e deixou o quarto.
         Na cozinha, aproximou-se da me, que torrava fatias de po, e beijou-a. Roslia no pde negar que 
gostara do beijo. No o retribuiu, mas o corao ficou-lhe batendo de contentamento:
          Vai-te lavar, filha, que as torradas esto quase prontas.
         Maria Cludia encerrou-se na casa de banho. Voltou fresqussima, a pele brilhante e limpa, os lbios 
sem pintura ligeiramente entumecidos pela gua fria. Os olhos da me cintilaram ao v-la. Sentou-se  mesa e 
comeou a comer com apetite.
 Sabe bem ficar em casa uma vez por outra, no ?  perguntou Roslia.
         A rapariga riu com gosto:
          Ora, v? Tenho, ou no tenho, razo?
         Roslia sentiu que se dera demasiadamente. Quis emendar, compor a frase:
          Est bem, mas sempre  bom no abusar.
          No escritrio no ralham comigo.
 Podem ralhar, filha. E  preciso conservar o emprego. O ordenado do teu pai no  grande, bem 
sabes.
          Esteja descansada. Eu sei fazer as coisas.
         Roslia gostaria de saber como, mas no quis perguntar. Acabaram de comer em silncio. Maria 
Cludia levantou-se e disse:
          Vou pedir  D. Ldia que me deixe telefonar.
         A me ainda abriu a boca para uma objeo, mas calou-se: a filha j ia no corredor.
          Escusas de fechar a porta, visto que no te demoras.
         Na cozinha, Roslia ouviu a porta fechar-se. No quis acreditar que a filha o tivesse feito de 
propsito para a contrariar. Encheu o alguidar e comeou a lavar a loua suja da refeio da manh.
         Maria Cludia no comparticipava dos escrpulos da me quanto  inconvenincia das relaes com 
a vizinha de baixo, e, pelo contrrio, achava D. Ldia muito simptica. Antes de tocar, ajeitou a gola da bata e 
passou as mos pelo cabelo. Lamentou no ter dado um poucochinho de cor aos lbios.
         A campainha deu um som estrdulo que ficou a ressoar no silncio da escada. Por um pequeno rudo 
que ouviu, Maria Cludia teve a certeza de que Justina a espreitava pelo ralo. Ia voltar-se, com um gesto de 
provocao, mas nesse momento a porta abriu-se e D. Ldia apareceu.
          Bom dia, senhora D. Ldia.
          Bom dia, Claudinha. Que a traz por c? No quer entrar?
          Se me d licena...
         No corredor penumbroso, a rapariga sentiu envolv-la a tepidez perfumada do ambiente.
          Ento, que h?
          Venho ma-la, mais uma vez, D. Ldia.
 Ora, ora, no maa nada. Bem sabe que gosto muito que venha a minha casa.
 Obrigada. Queria pedir-lhe se me deixava telefonar para o escritrio a dizer que no vou hoje.
           vontade, Claudinha.
         Empurrou-a docemente na direo do quarto. Maria Cludia nunca ali entrava sem se perturbar. O 
quarto de Ldia tinha uma atmosfera que a entontecia. Os mveis eram bonitos, como nunca vira, havia 
espelhos, cortinas, um sof vermelho, um tapete felpudo no cho, frascos de perfume no toucador, um cheiro 
de tabaco caro, mas nada disto, isoladamente, era responsvel pela sua perturbao. Talvez o conjunto, talvez 
a presena de Ldia, qualquer coisa impondervel e vaga, como um gs que passa atravs de todos os filtros e 
que corri e queima. Na atmosfera daquele quarto, perdia sempre o domnio de si mesma. Ficava tonta como 
se tivesse bebido champanhe, com uma irresistvel vontade de fazer tolices.
 Ali tem o telefone  disse Ldia.  Esteja  vontade.
         Fez um movimento para retirar-se, mas Maria Cludia disse, rapidamente:
 Ai, por minha causa, no, D. Ldia. Isto no tem importncia nenhuma...
         Disse a ltima frase com uma intonao e um sorriso que pareciam dizer que outras coisas teriam 
importncia e que D. Ldia bem sabia quais. Estava de p, e Ldia exclamou:
          Sente-se, Claudinha! A mesmo, na beira da cama.
         Com as pernas a tremer, sentou-se. Pousou a mo livre sobre o dredon forrado de cetim azul e, sem 
que desse por isso, ps-se a afagar o tecido acolchoado, quase com volpia. Ldia parecia desinteressada. 
Abrira uma caixa de cigarros e acendera um Camel. No fumava por vcio ou por necessidade, mas o cigarro 
fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos com o mesmo objetivo: impressionar. 
Isso, em si, j se transformara numa segunda natureza: desde que estivesse acompanhada, e fosse qual fosse a 
companhia, trataria de impressionar. O cigarro, o riscar lento do fsforo, a primeira baforada de fumo, longa e 
sonhadora, tudo eram cartas do jogo.
         Maria Cludia explicava ao telefone, com muitos gestos e exclamaes, a sua terrvel dor de 
cabea. Fazia boquinhas de mimo, boquinhas dolorosas de quem est muito doente. s furtadelas, Ldia 
observava-lhe a mmica. Por fim, a rapariga desligou e levantou-se:
          Pronto, D. Ldia. E muito obrigada.
          Ora essa! J sabe que est sempre s suas ordens.
          D-me licena? Aqui tem os cinco tostes da chamada.
 Patetinha. Guarde o dinheiro. Quando  que perde o hbito de me querer pagar os telefonemas?
         Sorriram ambas, olhando-se. Subitamente, Maria Cludia teve medo. No havia de que ter medo, ao 
menos daquele medo fsico e imediato, mas, de um momento para o outro, sentiu uma presena assustadora 
no quarto. Talvez a atmosfera, que h pouco apenas entontecia, se tivesse tornado, de repente, sufocante.
          Bem. Vou-me embora. E, mais uma vez, obrigada.
          No quer ficar mais um bocadinho?
          Tenho que fazer. A minha me est  minha espera.
          No a prendo, ento.
         Ldia trazia um roupo de tafet duro, vermelho, com os reflexos esverdeados dos litros de certos 
besouros, e deixava atrs de si um rasto de perfume intenso. Ouvindo o ruge-ruge do tecido e, sobretudo, 
aspirando o aroma quente e capitoso que se desprendia de Ldia, aroma que no era s o do perfume, que era, 
tambm, o do prprio corpo de Ldia, Maria Cludia sentia que estava a ponto de perder completamente a 
serenidade.
         Quando Claudinha, depois de repetir os agradecimentos, saiu, Ldia voltou ao quarto. O cigarro 
queimava-se lentamente no cinzeiro. Esmagou-lhe a ponta para o apagar. Depois, estendeu-se na cama. Uniu 
as mos atrs da nuca e acomodou-se melhor sobre o dredon macio que Maria Cludia acariciara. O telefone 
tocou. Com um gesto cheio de preguia, levantou o auscultador:
 Sim... Sou... Ah! sim. (...) Quero. Qual  a ementa, hoje? (...) Est bem. Serve. (...) No, isso no. 
(...) Uhm! Est bem. (...) E a fruta? (...) No gosto. (...)  escusado. No gosto. (...) Pode ser. (...) Bom. No 
mande tarde. (...) E no se esquea de mandar a conta do ms. (...) Bom dia.
         Pousou o auscultador e deixou-se cair outra vez na cama. Deu um amplo bocejo, com o -vontade de 
quem no teme observadores indiscretos, um bocejo que evidenciava a ausncia de um dos ltimos molares.
         Ldia no era bonita. Feio por feio, a anlise concluiria por aquele tipo de fisionomia que est 
to longe da beleza como da vulgaridade. Neste momento, prejudicava-a o no estar pintada. Tinha o rosto 
luzidio do creme da noite, e as sobrancelhas, nas extremidades, exigiam depilao. Ldia no era, de facto, 
bonita, sem contar com a circunstncia importante de que o calendrio j marcara o dia em que completara 
trinta e dois anos e que os trinta e trs no vinham longe. Mas de toda ela se desprendia uma seduo 
absorvente. Os olhos eram castanho-escuros, os cabelos pretos. O rosto tinha, em momentos de cansao, uma 
dureza masculina, especialmente ao redor da boca e nas asas do nariz, mas Ldia sabia, com uma ligeira 
transformao, torn-lo acariciante, sedutor. No pertencia ao tipo de mulheres que atraem pelas formas do 
corpo, mas, da cabea aos ps, irradiava sensualidade. Era bastante hbil para provocar em si prpria um 
frmito que deixava o amante sem raciocnio, impossibilitado de defender-se daquilo que supunha ser natural, 
daquela onda simulada em que se afogava julgando-a verdadeira. Ldia sabia. Tudo eram cartas do seu jogo  
e o seu corpo, delgado como um junco e vibrante como uma vara de ao, o seu maior trunfo.
         Hesitou entre o adormecer e o levantar-se. Pensava em Maria Cludia, na sua beleza fresca de 
adolescente, e, num instante, apesar de sentir indignas de si quaisquer comparaes com uma criana, teve um 
brusco apertar de corao, um movimento de inveja que lhe enrugou a testa. Quis arranjar-se, pintar-se, pr 
entre a juventude de Maria Cludia e a sua seduo de mulher experiente a maior distncia possvel. 
Levantou-se rapidamente. Ligara j o esquentador: a gua para o banho estava pronta. Num s movimento, 
despojou-se do roupo. Depois ergueu a camisa de dormir pela fmbria e despiu-a pela cabea. Ficou 
completamente nua. Experimentou a temperatura da gua e deixou-se escorregar para a banheira. Lavou-se 
devagar. Ldia conhecia o valor do asseio na sua situao.
         Limpa e refrescada, embrulhou-se no roupo de banho e saiu para a cozinha. Antes de voltar ao 
quarto acendeu o fogo de gs e ps uma cafeteira ao lume para o ch.
         No quarto, vestiu um vestido simples mas gracioso, que lhe vincava as formas e a tornava mais nova, 
arranjou sumariamente o rosto, contente de si mesma e do creme que vinha usando. Regressou  cozinha. A 
gua j fervia. Retirou a cafeteira. Quando abriu a caixa do ch verificou que estava vazia. Fez uma careta de 
aborrecimento. Deixou a lata e voltou ao quarto. Ia fazer uma ligao para a mercearia, chegou a levantar o 
auscultador, mas ao ouvir algum falar na rua abriu a janela.
         O nevoeiro levantara-se e o cu estava azul, de um azul aguado de comeo de primavera. O sol vinha 
mesmo de muito longe, to de longe que a atmosfera estimulava de frescura.
         Na janela do rs do cho esquerdo do prdio uma mulher dava, e tornava a dar, um recado a um 
garoto loiro que a olhava de baixo, com o narizito franzido pelo esforo de ateno que estava fazendo. 
Falava com acento espanhol e abundantemente. O garoto j percebera que a me queria dez tostes de 
pimenta, e estava pronto a partir, mas ela repetia a encomenda s pelo gosto de falar com o filho e de ouvir-se 
a si mesma. Parecia nada haver mais a recomendar. Ldia chamou:
          D. Carmen,  D. Carmen!
          Quien me llama? Ah, buenos das, D. Ldia!
 Bom dia. Dava licena que o Henriquinho me fizesse um recado da mercearia? Precisava de ch...
         Deu o recado e lanou uma nota de vinte escudos para o garoto. Henriquinho deitou a correr rua fora, 
como se o perseguissem ces. Ldia agradeceu a D. Carmen que respondia na sua lngua de trapos, alternando 
palavras espanholas com frases portuguesas e deixando estas a escorrer sangue na pronncia. Ldia, que no 
gostava de exibir-se  janela, despediu-se. Da a pouco chegou Henriquinho, muito vermelho da carreira, com 
o pacote do ch e o troco. Gratificou-o com dez tostes e um beijo  e o garoto foi-se embora.
         A chvena cheia, um prato de bolos secos ao lado, Ldia instalou-se de novo na cama. Enquanto 
comia ia lendo um livro que tirara de um pequeno armrio da casa de jantar. Preenchia o vazio dos seus dias 
desocupados com a leitura de romances e tinha alguns, de bons e maus autores. Neste momento estava 
interessadssima no mundo ftil e inconsequente de Os Maias. Ia bebendo o ch em pequenos goles, trincava 
um palito de la reine e lia um perodo, exatamente aquele em que Maria Eduarda lisonjeia Carlos com a 
declarao de que alm de ter o corao adormecido, o seu corpo permaneceu sempre frio, frio como um 
mrmore... Ldia gostou da frase. Procurou um lpis para marc-la, mas no encontrou. Ento, levantou-se 
com o livro na mo e foi ao toucador. Com o bton fez um sinal na margem da pgina, um risco vermelho que 
ficava sublinhando um drama ou uma farsa.
         Da escada veio um rumor de vassoura. Logo, a voz aguda de D. Carmen entoou uma cantilena 
melanclica. E, ao fundo, atrs desses rudos de primeiro plano, o zumbido perfurante de uma mquina de 
costura e as pancadas secas de um martelo sobre a sola.
         Com um bolo delicadamente apertado entre os dentes, Ldia recomeou a leitura.
 


         

         II

         O velho relgio da sala, que Justina herdara por morte dos pais, bateu nove pancadas fanhosas, 
depois um arquejo de maquinismo cansado. A casa, de to silenciosa, parecia desabitada. Justina usava 
sapatos de rasto de feltro e passava de um quarto para outro com a subtileza de um fantasma. Estavam to 
certas uma para a outra  ela e a casa  que, vendo-as, se compreendia imediatamente por que uma e outra 
eram assim e no de outro modo. Justina s podia existir naquela casa, e a casa, assim to nua e silenciosa, 
no poderia ser o que era sem a presena de Justina. Dos mveis, do cho, subiam emanaes de mofo. Havia 
no ar um cheiro a bafio. As janelas sempre fechadas produziam aquela atmosfera de tmulo  e Justina era to 
lenta e tardia que a limpeza da casa nunca se fazia completamente.
         O som do relgio, que expulsara o silncio, morria em vibraes cada vez mais tnues e distantes. 
Depois de apagar todas as luzes, Justina foi sentar-se numa cadeira, perto da janela que dava para a rua. 
Gostava de ali estar, imvel, desocupada, as mos abandonadas no regao, os olhos abertos para a escurido, 
 espera nem ela sabia de qu. A seus ps veio enroscar-se o gato, seu nico companheiro de seres. Era um 
animal tranquilo, de olhos interrogadores e andar sinuoso, que parecia ter perdido a faculdade de miar. 
Aprendera com a dona o silncio e, como ela, a ele se abandonava.
         O tempo flua lentamente. O tiquetaque do relgio empurrava o silncio, insistia em querer afast-lo, 
mas o silncio opunha-lhe a sua massa espessa e pesada, onde todos os sons se afogavam. Sem 
desfalecimento, um e outro lutavam, o som com a obstinao do desespero e a certeza da morte, o silncio 
com o desdm da eternidade.
         Depois, outro rudo maior se interps: pessoas descendo a escada. Se fosse dia, Justina no deixaria 
de espreitar, mais por no querer ou no ter outra coisa para fazer do que por curiosidade, mas a noite 
deixava-a sempre sem foras, muito cansada, com uma estpida vontade de chorar e de morrer. No entanto, 
apostaria sem hesitao que eram Roslia, o marido e a filha que iam ao cinema. Conhecia isso pelo modo de 
rir de Maria Cludia, que era louca por cinema.
         Cinema... H quanto tempo no ia Justina ao cinema? Sim, a morte da filha... Mas, j antes disso, h 
quanto tempo no ia ao cinema? Matilde ia com o pai, mas ela ficava sempre em casa. Porqu? Sabia l!... 
No ia. No gostava de andar na rua com o marido. Era muito alta e muito magra, e ele gordo e atarracado. 
No dia do casamento, os garotos da rua riram-se ao v-la sair da igreja. Nunca esquecera esse riso, como no 
podia esquecer aquela fotografia, com os padrinhos e os convidados dispostos nos degraus da igreja como 
espectadores de peo em campo de futebol. Ela, hirta, com o ramo de flores pendurado, os olhos negros 
embaciados de perplexidade; e ele, j gordo, comprimido na sobrecasaca e com o chapu alto emprestado. 
Enterrara essa fotografia ridcula no fundo duma gaveta e nunca mais a quisera ver.
         O dilogo do relgio e do silncio foi interrompido outra vez. Da rua veio o rolar surdo de rodas de 
borracha sobre o pavimento irregular. O automvel parou. Houve uma confuso de rudos na noite: a mola do 
travo de mo, o som caracterstico da porta ao abrir-se, a pancada seca ao fechar, um tilintar de chaves. 
Justina no precisou de levantar-se para saber quem chegava. D. Ldia recebia uma visita, a sua visita, o 
homem que a vinha ver trs vezes por semana. L pelas duas da madrugada, o visitante sairia. Nunca passava 
a noite ali. Era metdico, pontual, correto. Justina no gostava da vizinha do lado. Tinha-lhe raiva porque ela 
era bonita e, sobretudo, porque era uma dessas mulheres que esto por conta, e ainda porque tinha uma casa 
bem-posta, dinheiro para pagar  mulher a dias e para mandar vir as refeies de um restaurante, sair  rua 
carregada de joias e rescendente de perfumes. Mas estava-lhe grata porque lhe proporcionara o pretexto de 
romper com o marido para sempre. Graas a Ldia, juntara s suas mil razes a razo maior.
         Num esforo lento e penoso, como se o corpo se recusasse ao movimento, levantou-se e acendeu a 
luz. A sala de jantar, onde se encontrava, era grande, e a lmpada que a iluminava to fraca que, da escurido 
afastada, ficaram penumbras nos cantos. As paredes nuas, as cadeiras de espaldar vertical, duras e repelentes, 
a mesa sem brilho e sem flores, os mveis baos e quase desguarnecidos  e Justina sozinha, no meio deste 
frio, muito alta e magra, o vestido preto, e os olhos negros, profundos e calados.
         O relgio desandou duas rodas e deu uma pancada tmida. Nove e um quarto. Justina bocejou com 
lentido. Depois apagou a luz e passou ao quarto de dormir. Sobre a cmoda, o retrato da filha abria um 
sorriso alegre, a nica claridade viva daquele quarto sombrio e bafiento. Com um suspiro resignado, Justina 
deitou-se.
         Dormia sempre mal. Levava a noite baralhando sonhos, confusos sonhos de que acordava exausta e 
perplexa. Apesar do esforo de memria que fazia, era-lhe impossvel reconstitu-los. S no podia esquecer  
e, mesmo assim, mais como um pressentimento, ou talvez a lembrana de um pressentimento, do que como 
uma certeza  a obsidiante presena de algum atrs de uma porta que nem todas as foras do mundo podiam 
abrir. Antes de adormecer martelava no crebro a recordao do rosto de Matilde, das inflexes da sua voz, 
dos gestos, das gargalhadas, e, at, da sua face morta, como se tudo isto pudesse, no sonho, despedaar aquela 
porta sempre fechada. Intil. Cerradas as plpebras, Matilde escondia-se, to escondidamente que Justina s 
vinha a encontr-la, sem mistrio, ao acordar no dia seguinte. Mas encontr-la sem mistrio era perd-la; v-la 
como em vida era ignor-la.
         As plpebras desceram devagar sob o peso das sombras e do silncio. Lentamente, o silncio e as 
sombras passavam para o crebro de Justina. Ia comear a lenta sarabanda dos sonhos, repetir-se a angustiosa 
presena estranha  e a porta fechada que guardava o mistrio. De repente, muito ao longe, ressoaram 
gemidos surdos e desesperados. A noite ficou arrepiada de sobrenatural. Os olhos j nublados de Justina 
abriram-se para a escurido. Rolando por montanhas e plancies, despertando ecos nas grutas sombrias e nas 
cavidades das rvores antigas, lanando na noite mil ressonncias trgicas, os gemidos aproximavam-se e o 
seu gemer j era chorar e cada lamento uma lgrima caindo como um punho cerrado, com a fora de um 
punho cerrado.
         Os olhos perdidos de Justina lutaram contra a angstia dos sons que lhe enchiam os ouvidos. Sentia 
que era arrastada para um abismo negro e fundo, e lutava para no se afundar. Na queda, apareceu o sorriso 
claro de Matilde. Agarrou-se-lhe com desespero e mergulhou no sonho.
         Atravessando as paredes e subindo at s estrelas, ficou a msica, o andamento lento da Heroica, 
clamando a dor, clamando a injustia da morte do homem.
 


         

         III

         Os ltimos compassos da Marcha Fnebre tombavam como violetas no tmulo do heri. Depois, 
uma pausa. Uma lgrima que desliza e morre. E, imediatamente, a vitalidade dionisaca do Scherzo, ainda 
pesado da sombra do Hades, mas fruindo j a alegria da vida e da vitria.
         Um estremecimento correu sobre as cabeas curvadas. O crculo encantado da luz que descia do teto 
unia as quatro mulheres na mesma fascinao. Os rostos graves tinham a expresso tensa dos que assistem  
celebrao de ritos misteriosos e impenetrveis. A msica, com o seu poder hipntico, levantava alapes no 
esprito das mulheres. No se fitavam. Tinham os olhos atentos ao trabalho, mas s as mos estavam 
presentes.
         A msica corria livremente no silncio e o silncio recebia-a nos seus lbios mudos. O tempo 
passou. A sinfonia, como um rio que desce da montanha, alaga a plancie e se afunda no mar, acabou na 
profundidade do silncio.
         Adriana estendeu o brao e desligou a telefonia. Um estalido seco como o correr de uma fechadura. 
Terminara o mistrio.
         Tia Amlia ergueu os olhos. As suas pupilas, habitualmente duras, tinham um brilho hmido. 
Cndida murmurou:
           to bonito!
         No era eloquente a tmida e irresoluta Cndida, mas os seus lbios descorados tremiam, como 
tremem os das raparigas quando recebem o primeiro beijo de amor. Tia Amlia no ficou satisfeita com a 
classificao:
 Bonito? Bonito  uma cantiguinha qualquer. Isto ... ...
         Hesitava. A palavra que queria pronunciar estava-lhe nos lbios, mas parecia-lhe que a profanaria 
dizendo-a. H palavras que se retraem, que se recusam  porque significam de mais para os nossos ouvidos 
cansados de palavras. Amlia perdera um pouco da sua firmeza de articulao. Foi Adriana quem, numa voz 
que tremia, numa voz de segredo que se trai, murmurou:
           belo, tia.
          Sim, Adriana.  assim mesmo.
         Adriana baixou os olhos para a meia que estava passajando. Uma tarefa prosaica, como a de Isaura 
que caseava uma camisa, como a da me que estava pormenorizando as malhas de um crochet, como a de tia 
Amlia que somava as despesas do dia. Tarefas de mulheres feias e apagadas, tarefas de uma vida miudinha, 
de uma vida de janelas sem horizonte. Mas a msica passara, a msica companheira dos seus seres, visita 
diria da casa, consoladora e estimuladora  e agora podiam falar de beleza.
 Por que ser que a palavra belo custa tanto a dizer?  perguntou Isaura, sorrindo.
 No sei  respondeu a irm.  O certo  que custa. E, vendo bem, devia ser como qualquer outra.  
fcil de dizer, so s quatro letras... Tambm no percebo.
         Tia Amlia, ainda chocada pela sua incapacidade de h pouco, quis esclarecer:
 Percebo eu.  como a palavra Deus para os que creem.  uma palavra sagrada.
         Sim. Tia Amlia dizia sempre a palavra necessria. Mas impedia a discusso. Ficava tudo dito. O 
silncio, um silncio sem msica, carregou a atmosfera. Cndida perguntou:
          No h mais nada?
 No. O resto do programa no interessa  respondeu Isaura.
         Adriana sonhava, a meia esquecida sobre o regao. Lembrava-se da mscara de Beethoven que vira 
na montra de uma loja de msicas, havia muitos anos. Tinha ainda nos olhos aquela face larga e poderosa, que 
at na inexpressividade do gesso mostrava a marca do gnio. Chorara um dia inteiro porque no tinha 
dinheiro para a comprar. Fora isso pouco tempo antes de perder o pai. A morte deste, a diminuio dos 
recursos econmicos, a necessidade de deixar a antiga residncia  e a mscara de Beethoven era hoje, mais 
do que ento, um sonho impossvel.
          Em que pensas tu, Adriana?  perguntou a irm.
         Adriana sorriu e encolheu os ombros:
          Tolices.
          Correu-te mal o dia?
 No.  sempre a mesma coisa: faturas a receber, faturas a pagar, dbitos e crditos de dinheiro que 
no  nosso...
         Riram ambas. Tia Amlia acabava as contas e ps uma pergunta:
          No se fala por l em aumentos?
         Adriana encolheu os ombros outra vez. No gostava que lhe fizessem esta pergunta. Parecia-lhe que 
os outros achavam pouco o que ela ganhava e isso ofendia-a. Respondeu, com secura:
          Dizem que no se faz negcio...
  sempre a mesma histria. Para uns, muito; para outros, pouco; e para outros, nada! Quando  que 
essa gente aprende a pagar aquilo de que precisamos para viver?
         Adriana suspirou. Tia Amlia era intratvel em assuntos de dinheiro, de patres e empregados. No 
que fosse invejosa, mas indignava-a o desperdcio que vai por esse mundo, quando milhes de pessoas 
sofrem fome e misria. Ali, em casa, no havia misria, e a mesa tinha comida a todas as refeies, mas havia 
a rigidez do oramento apertado, donde fora excludo todo o suprfluo, at aquele suprfluo necessrio sem o 
qual a vida do homem se processa quase ao nvel da dos animais. Tia Amlia insistiu:
  preciso falar, Adriana. H dois anos que ests na casa e o ordenado mal chega para os eltricos.
          Oh, tia, mas que hei de eu fazer?
 Que hs de fazer? Pe-te a olhar para mim, assim, com esses olhos espantados!
         A frase doeu a Adriana como uma pancada. Isaura olhou a tia com severidade:
          Tia!
         Amlia virou-se para ela. Olhou depois Adriana e disse:
          Desculpem.
         Levantou-se e deixou a sala. Adriana levantou-se tambm. A me f-la sentar-se:
 No faas caso, filha. Tu sabes que  ela que faz as compras. Mata a cabea para o dinheiro chegar 
e o dinheiro no chega. Vocs ganham, trabalham, mas ela, coitada,  que se rala. S eu  que sei.
         Tia Amlia apareceu  porta. Parecia comovida, mas nem por isso a voz foi menos brusca, ou talvez 
por isso mesmo no o pudesse deixar de ser:
          Querem uma chvena de caf?
         (Como nos antigos tempos... Uma chvena de caf! Venha, pois, a chvena de caf, tia Amlia! 
Sente-se aqui, ao p de ns, assim, com esse rosto de pedra e esse corao de cera. Beba uma chvena de caf 
e amanh refaa as suas contas, invente receitas, suprima despesas, suprima mesmo esta chvena de caf, esta 
intil chvena de caf!)
         O sero recomeou, agora mais arrastado e silencioso. Duas mulheres velhas e duas que j voltavam 
costas  mocidade. O passado para recordar, o presente para viver, o futuro para recear.
         Perto da meia-noite o sono introduziu-se na sala. Alguns bocejos. Cndida alvitrou (era sempre dela 
que vinha este alvitre):
          E se nos fssemos deitar?
         Levantaram-se, com um rumor de cadeiras arrastadas. Como de costume, s Adriana se deixou ficar 
para dar tempo a que as outras se deitassem. Depois, arrumou a costura e entrou no quarto. A irm lia o 
romance. Tirou da mala um molho de chaves e abriu uma gaveta da cmoda. Com outra chave mais pequena 
abriu uma caixa e retirou de dentro um caderno grosso. Isaura olhou por cima do livro e sorriu:
 L vai o dirio! Um dia hei de ver o que escreves nesse caderno.
 No tens esse direito!  respondeu a irm, de mau modo.
          Pronto! No te assanhes...
 s vezes, d-me vontade de to mostrar, s para no estares sempre a falar na mesma coisa!
          Aborreo-te?
 No, mas podias calar-te. Acho que  muito feio estares sempre com esses ditos. Ou no terei o 
direito de guardar o que me pertence?
         Os olhos de Adriana, por detrs das lentes espessas, rebrilhavam irritados. Com o caderno apertado 
contra o peito, enfrentava o sorriso irnico da irm.
 Pois sim  disse Isaura.  Vai l escrevendo. H de chegar o dia em que tu prpria hs de mostrar o 
caderno para eu ler.
          Vai esperando  respondeu Adriana.
         E saiu do quarto. Isaura acomodou-se melhor debaixo da roupa, colocou o livro em ngulo propcio 
para a leitura e esqueceu a irm. Esta, depois de passar pelo quarto, j s escuras, onde dormiam a me e a tia, 
fechou-se na casa de banho. S ali, protegida pelo local contra a curiosidade da famlia, se sentia bastante 
segura para escrever no caderno as suas impresses do dia. Comeara a escrever o seu dirio pouco tempo 
depois de se empregar. Escrevera j dezenas de pginas. Sacudiu a caneta e comeou:
Quarta-feira, 19/3/52,  meia-noite menos cinco. Tia Amlia est hoje mais rabugenta. Detesto que 
me falem no pouco que ganho. Ofendem-me. Estive quase para responder-lhe que ganho mais que ela. 
Arrependi-me antes de ter falado e ainda bem. Tia Amlia, coitada... Diz a me que se mata a fazer contas. 
Acredito.  o que se passa comigo. Esta noite ouvimos a 3. Sinfonia de Beethoven. A me disse que era 
bonito, eu disse que era belo e tia Amlia concordou comigo. Gosto da tia. Gosto da me. Gosto da Isaura. 
Mas o que elas no sabem  que eu no estava a pensar na sinfonia ou no Beethoven, quer dizer, no estava a 
pensar nisto s... Tambm pensava... At me lembrei da mscara de Beethoven e no meu desejo de a ter... 
Mas tambm pensava "nele". Estou contente, hoje. Falou-me muito bem. Quando me deu as faturas para eu 
conferir, tocou com a mo direita no meu ombro. Gostei tanto! Fiquei toda a tremer por dentro e senti-me 
corar at s orelhas. Tive que baixar a cabea para ningum ver. O pior foi depois. Julgou que eu no ouvia e 
comeou a falar com o Sarmento a respeito de uma rapariga loira. No chorei porque parecia mal e porque 
no quero comprometer-me. "Ele" brincou com a rapariga durante uns meses e depois deixou-a. Meu Deus, 
ser o mesmo comigo? Ainda bem que "ele" no sabe que gosto dele. Era capaz de fazer pouco de mim. Se 
assim fosse, matava-me!
         Aqui interrompeu-se, mordiscando a ponta da caneta. Tinha escrito que estava contente e agora j 
falava em matar-se. Achou que no estava bem. Pensou um pouco e fechou com esta frase:
         Gostei tanto que ele me tivesse tocado no ombro!
         Agora sim. Fechava como devia, com uma esperana, com uma pequena alegria. Fazia questo de 
no ser completamente sincera no seu dirio, quando os acontecimentos do dia a levassem ao desnimo e  
tristeza. Releu o que escrevera e fechou o caderno.
         Trouxera do quarto a camisa de dormir, uma camisa branca, afogada, sem decote, com as mangas 
compridas, porque as noites ainda estavam frescas. Despiu-se rapidamente. O seu corpo deselegante, liberto 
do constrangimento do vesturio, soltou-se e ficou mais pesado e irregular. O soutien-gorge vincava-lhe as 
costas. Quando o tirou, um vergo vermelho ficou a rodear-lhe o corpo como a marca de uma chicotada. 
Enfiou a camisa e, depois de completar o arranjo noturno, foi para o quarto.
         Isaura no largava o livro. Tinha o brao livre curvado sobre a cabea, e a posio deixava-lhe 
visvel a axila enegrecida e o comeo dos seios. Absorta na leitura, nem se mexeu quando a irm se deitou.
          J  tarde, Isaura. Deixa isso  murmurou Adriana.
 J vai!  respondeu, impaciente.  No tenho culpa de que no gostes de ler.
         Adriana encolheu os ombros, num movimento que lhe era peculiar. Voltou as costas  irm, puxou a 
roupa para cima de modo a evitar que a luz lhe batesse nos olhos e da a pouco adormecia.
         Isaura continuou a ler. Tinha que acabar o livro nessa noite porque o prazo do aluguer acabava no dia 
seguinte. Era perto da uma hora quando chegou ao fim. Ardiam-lhe os olhos e tinha o crebro excitado. Ps o 
livro na mesa de cabeceira e apagou a luz. A irm dormia. Ouvia-lhe a respirao ritmada e regular, e teve um 
movimento de mau humor. No seu entender, Adriana era de gelo  e aquele dirio uma criancice para fazer 
acreditar que tinha mistrios na sua vida. No quarto havia uma tnue luminosidade proveniente de um 
candeeiro da rua. Ouvia-se no escuro o roer de um inseto da madeira. Do quarto ao lado vieram vozes 
abafadas: tia Amlia sonhava alto.
         Todo o prdio dormia. De olhos abertos para a noite, as mos cruzadas atrs da cabea, Isaura 
pensava.
 


         

         IV

 No faam barulho. Bem sabem que no gosto de perturbar o sono da vizinhana  murmurou 
Anselmo.
         Subia a escada, levando atrs de si a mulher e a filha, e iluminava o caminho acendendo fsforos. 
Distrado com as recomendaes, deixou-se queimar. Soltou uma interjeio involuntria e riscou novo 
fsforo. Maria Cludia sufocava de riso. A me ralhou em voz baixa:
          Ento, menina, que propsitos so esses?
         Chegavam a casa. Entraram a furta-passo, como gatunos. Mal chegaram  cozinha, Roslia sentou-se 
num banco:
          Ai, que cansada!
         Descalou os sapatos e as meias e mostrou os ps inchados:
          Olhem para isto!...
          Tens albumina,  o que   declarou o marido.
 Credo!  sorriu Maria Cludia.  O pai no faz a coisa por menos.
 Se o teu pai diz que tenho albumina,  porque  verdade  replicou a me.
         Anselmo acenou a cabea com gravidade. Fixava atentamente os ps da mulher e da observao 
tirava novas razes para o diagnstico:
           o que eu digo...
         O pequeno rosto de Maria Cludia franziu-se de desgosto. Aquele espetculo dos ps da me a 
possvel doena aborreciam-na. Tudo que fosse feio a aborrecia.
         Mais para se furtar  conversa do que por amor do trabalho, tirou trs chvenas do armrio e encheu-
as de ch. Deixavam sempre o termo cheio, para o regresso. Aqueles cinco minutos dedicados  pequena 
refeio davam-lhes uma sensao toda particular, como se de repente tivessem deixado a mediocridade da 
sua vida para subir uns furos na escala do bem-estar econmico. A cozinha desaparecia para dar lugar a uma 
salinha ntima com mveis caros e quadros pelas paredes e um piano a um canto. Roslia deixava de ter 
albumina, Maria Cludia trazia um vestido da ltima moda. S Anselmo no mudava. Era sempre o mesmo 
homem. Distinto, alto, decorativo, um pouco curvado, calvo, e cofiando o pequeno bigode. O rosto parado e 
inexpressivo, produto de um esforo de anos orientado no sentido de represar as emoes para garantia da 
respeitabilidade.
         Infelizmente, eram apenas cinco minutos. Os ps descalos de Roslia acabaram por dominar a cena, 
e Maria Cludia foi a primeira a deitar-se.
         Na cozinha, marido e mulher comearam o dilogo-monlogo de quem est casado h mais de vinte 
anos. Banalidades, palavras ditas s por dizer, um simples preldio ao sono tranquilo da idade madura.
         Pouco a pouco, os rudos foram diminuindo, at que ficou aquele silncio de expectativa que 
antecede a chegada do sono. Depois o silncio tornou-se mais denso. Apenas Maria Cludia continuava 
acordada. Tinha sempre dificuldade em adormecer. Gostara da fita. No cinema, um rapaz olhara-a muito, 
durante os intervalos.  sada viera mesmo junto dela, a tal ponto que lhe sentira o hlito no pescoo. S no 
percebia por que o rapaz no a seguira. Mais valia no ter olhado tanto para ela. Esqueceu-se do cinema para 
se lembrar da visita que fizera a casa de D. Ldia. Que bonita era D. Ldia! Muito mais bonita que eu... 
Teve pena de no ser como D. Ldia. Subitamente, lembrou-se de que vira o automvel  porta. Ficou sobre 
brasas, j incapaz de adormecer. Ignorava que horas eram, mas calculou que no devia estar muito longe das 
duas. Sabia, como toda a gente no prdio, que o visitante noturno de D. Ldia saa por volta das duas da 
madrugada. Por efeito da fita, do rapaz ou da visita matinal, sentia-se cheia de curiosidade, embora achasse 
nessa curiosidade algo de censurvel e imprprio. Esperou. Minutos depois, ouviu no andar de baixo o rudo 
de uma lingueta que corre e duma porta que se abre. Um som indistinto de vozes e uns passos descendo a 
escada.
         Com cuidado, para no acordar os pais, a rapariga deixou-se escorregar da cama. Caminhando na 
ponta dos ps, chegou  janela e entreabriu a cortina. O automvel ficava sempre encostado ao passeio 
fronteiro. Viu o vulto pesado do homem atravessar a rua e entrar no automvel.
         O carro comeou a rolar e, rapidamente, desapareceu do campo de viso de Maria Cludia.
 


         

         V

         D. Carmen tinha um modo muito seu de saborear as manhs. No era pessoa que se deixasse ficar na 
cama at  hora do almoo e nem isso lhe era possvel porque tinha de tratar da refeio do marido e de 
arranjar o Henriquinho, mas no lhe falassem em lavar-se e pentear-se antes do meio-dia. Adorava andar pela 
casa fora, durante a manh, por arranjar, os cabelos soltos, toda ela descuidada e preguiosa. O marido 
detestava semelhantes hbitos, que implicavam com as suas normas de regularidade. Vezes sem conto tentara 
convencer a mulher a emendar-se, mas o tempo encarregara-se de fazer-lhe ver que era tempo perdido. 
Apesar de a sua profisso de caixeiro de praa no lhe impor um horrio rgido, escapava-se de manh cedo 
s para no ficar indisposto todo o dia. Carmen, por seu lado, desesperava-se quando o marido se demorava 
em casa depois do caf. No que se sentisse obrigada por tal a faltar aos seus queridos hbitos, mas a presena 
do marido diminua-lhe o prazer da manh. O resultado  que, para ambos, dia em que isso acontecesse era 
dia estragado.
         Nessa manh, Emlio Fonseca, no preparar o mostrurio para sair, verificou que algum tinha 
baralhado preos e amostras. Os colares estavam fora dos lugares, misturados com as pulseiras e os alfinetes 
de peito, e tudo isto a trouxe-mouxe com os brincos e os culos escuros. O responsvel pelo desalinho s 
podia ser o filho. Ainda pensou em interrog-lo, mas achou que no valia a pena. Se o filho negasse, 
desconfiaria de que estava mentindo, e isso era mau; se ele confessasse, teria de bater-lhe ou ralhar-lhe, o que 
seria pior. Sem contar que a mulher interviria logo, como uma fria, e a cena acabaria em zaragata. Ora, farto 
de zaragatas estava ele. Colocou a mala sobre a mesa da casa de jantar e, sem uma palavra, procurou pr 
ordem naquele desconcerto.
         Emlio Fonseca era um homem pequeno e seco. No era magro: era seco. Pouco mais de trinta anos. 
Louro, de um louro plido e distante, o cabelo ralo e a testa alta. Sempre se envaidecera da altura da sua testa. 
Agora que ela estava maior por causa da calvcie incipiente, preferiria t-la mais baixa. Aprendera, no 
entanto, a conformar-se com o inevitvel  e o inevitvel no era apenas a falta de cabelo mas tambm a 
necessidade de arrumar a mala. Aprendera a ficar tranquilo em oito anos de casamento falhado. A boca era 
firme, com uns vincos de amargura. Quando sorria entortava-a ligeiramente, o que lhe dava  fisionomia um 
ar sarcstico que as palavras no desmentiam.
         Henriquinho, com o ar embaraado do criminoso que volta ao local do crime, veio mirar o que o pai 
fazia. Tinha uma cara de anjo, louro como o pai, mas de um louro mais quente. Emlio nem o olhou. Pai e 
filho no se amavam, nem pouco, nem muito: apenas se viam todos os dias.
         No corredor ouvia-se o chinelar de Carmen, um chinelar agressivo, mais eloquente que todos os 
discursos. A arrumao estava quase completa. Carmen espreitou  porta da casa de jantar para calcular o 
tempo que o marido demoraria ainda. J lhe parecia demasiada a demora. Neste momento, a campainha 
retiniu. Carmen franziu o sobrecenho. No esperava ningum quela hora. O padeiro e o leiteiro j tinham 
vindo, e para o carteiro ainda era cedo. A campainha tocou outra vez. Com um j l vai! impaciente dirigiu-
se para a porta, levando o filho nos calcanhares. Apareceu-lhe uma mulherzinha de xaile, com um jornal na 
mo. Mirou-a, desconfiada, e perguntou:
 Qu desea? (Tinha momentos em que ainda que a matassem no falaria portugus.)
         A mulher sorriu com humildade:
 Bom dia, minha senhora.  aqui que est um quarto para alugar, no ? Podia v-lo?...
         Carmen ficou assombrada:
          Quarto para alugar? No hay aqu quarto para alugar.
          Mas o jornal traz um anncio...
          Um anncio? Deixe ver, se faz favor.
         A voz tremia-lhe de irritao mal reprimida. Respirou fundo para acalmar-se. A mulher indicou-lhe o 
anncio com um dedo espetado que tinha uma cicatriz de panarcio. L estava, na coluna dos quartos para 
alugar. No havia dvida. Batia tudo certo: o nome da rua, o nmero do prdio e a indicao clarssima de rs 
do cho esquerdo. Devolveu o jornal e declarou secamente:
          Aqui no h quartos para alugar!
          Mas, o jornal...
 J lhe disse. E, adems, o anncio  para caballero!...
          H tanta falta de quartos, que eu...
          Com licena!
         Fechou a porta na cara da mulher e foi ter com o marido. Sem passar da porta, perguntou:
          Puseste alguno anncio no jornal?
         Emlio Fonseca olhou para ela, com um colar de pedras coloridas em cada mo, e, erguendo uma 
sobrancelha, respondeu em tom calmo e irnico:
          Anncio? S se fosse para arranjar clientes...
          Anncio de um quarto para alugar...
 De um quarto? No, minha filha. Casei contigo em regime de comunho de bens e autoridade, e 
no me atreveria a dispor de um quarto sem te consultar.
          No seas gracioso.
 No estou a dizer graas. Quem se atreveria a ser engraado contigo?
         Carmen no respondeu. O seu incompleto conhecimento do portugus colocava-a sempre em 
inferioridade neste tiroteio de picuinhas. Preferiu esclarecer com uma voz mansa que ocultava uma inteno 
reservada:
 Era una mujer. Trazia o jornal e vinha l o anncio. Era para aqui, no haba confusin. E, como era 
una mujer, pensei que tivesses posto o anncio...
         Emlio Fonseca fechou a mala, de estalo. Apesar de a frase da mulher no ser bastante explcita, 
compreendeu-a. Levantou para ela os olhos claros e frios, e respondeu:
 Se fosse um homem teria de concluir que o anncio tinha sido posto por ti?
         Carmen corou, ofendida:
          Malcriado!
         Henriquinho, que ouvia a conversa sem pestanejar, fitou o pai para ver como ele reagia. Mas Emlio 
encolheu lentamente os ombros e murmurou apenas:
          Tens razo. Desculpa.
 No quiero que me peas desculpa  redarguiu Carmen, j exaltada.  Quando me pedes desculpa 
ests a fazer pouco de m. Antes quero que me batas!
          Nunca te bati.
          E no te atrevas!
 Descansa. s mais alta e mais forte que eu. Deixa-me conservar a iluso de que perteno ao sexo 
forte.  a ltima iluso que me resta. Acabemos com a discusso!
          Y si yo quisiera discutir?
 Fazes mal. Eu tenho sempre a ltima palavra. Ponho o chapu na cabea e saio. E s volto  noite. 
Ou nem volto mesmo...
         Carmen foi  cozinha buscar o porta-moedas. Deu dinheiro ao filho e mandou-o  mercearia comprar 
rebuados. Henriquinho quis resistir, mas o atrativo dos rebuados foi mais forte que a sua curiosidade e a sua 
coragem que lhe estava exigindo que tomasse o partido da me. Logo que a porta se fechou, Carmen voltou  
casa de jantar. O marido sentara-se na ponta da mesa e acendia um cigarro. A mulher caiu a fundo na 
discusso:
 No voltas, hem? J c sabia! Tens onde ficar, no? J sabia, j desconfiava! O santinho de pau 
carunchoso, viram?... Y aqu estoy yo, la moira, la esclava, a trabajar todo el dia para quando sua excelncia 
quisier vir a casa!...
         Emlio sorriu. A mulher ficou enfurecida:
          No te rias!
 Rio-me, pois claro que me rio. Por que no havia de rir? Tudo isso so pataratas. H muitas 
penses por essa cidade. Quem me impede de ficar numa delas?
          Yo!
 Tu? Ora, deixa-te de parvoces! Tenho que fazer. Deixemo-nos de parvoces.
          Emlio!
         Carmen barrava-lhe a passagem, vibrante. Um pouco mais alta que ele, a face esquadrada de queixo 
proeminente, duas rugas fundas das asas do nariz aos cantos da boca, havia ainda nela uns restos de beleza 
quase esmaecidos, uma recordao de tez luminosa e quente, de olhos de olhar lquido e aveludado, de 
mocidade. Por momentos, Emlio viu-a como ela fora oito anos atrs. Um lampejo  e a recordao apagou-
se.
          Emlio! Tu enganas-me!...
 Tolice. No te engano. At posso jurar, se quiseres... Mas, se te enganasse, em que podia isso 
importar-te? J  tarde para estas lamentaes. Estamos casados h oito anos e, somados todos estes dias, que 
felicidade tivemos? A lua de mel, ou talvez nem isso! Enganmo-nos, Carmen. Brincmos com a vida e 
estamos a pagar a brincadeira.  mau brincar com a vida, no achas? Que dizes tu, Carmen?
         A mulher sentara-se, a chorar. Entre lgrimas, exclamou:
          Soy una disgraciada!
         Emlio pegou na mala. Com a mo livre afagou a cabea da mulher com uma ternura esquecida, e 
murmurou:
 Somos dois desgraados. Cada um a seu modo, mas acredita que somos os dois. E talvez seja eu o 
maior. Tu, ao menos, tens o Henrique...  A voz afetuosa endureceu subitamente:  Acabou-se. Talvez no 
venha almoar, mas virei jantar, com certeza. At logo.
         No corredor, voltou-se para trs, e acrescentou, com uma prega irnica na voz:
 E quanto a essa histria do anncio, deve ser engano. Talvez seja aqui do lado...
         Abriu a porta e saiu, com a mala suspensa da mo direita, o ombro deste lado ligeiramente descado 
por causa do peso. Num gesto inconsciente ajustou o chapu, um chapu cinzento, de aba larga, que lhe 
tornava mais pequena a face e o corpo e lhe lanava uma sombra sobre os olhos plidos e distantes.
 


         

         VI

         D. Carmen recambiou ainda dois pretendentes ao quarto, antes de se decidir a comprovar o valor da 
sugesto do marido. E quando o fez, aquecida pela contenda domstica e pela disputa com os candidatos ao 
aluguer, no foi amvel para Silvestre. Mas este, que via, por fim, explicada a at a inexplicvel ausncia de 
pretendentes, respondeu-lhe no mesmo tom, e Carmen teve de retirar-se quando viu aparecer, atrs do 
sapateiro, o vulto redondo de Mariana que j se vinha chegando, de mangas arregaadas e mos nas ancas. 
Para evitar maiores perturbaes, Silvestre props que se colocasse na porta um letreiro remetendo para sua 
casa os candidatos ao quarto. Carmen redarguiu que no estava disposta a ter papis dependurados, ao que o 
sapateiro retrucou que o mal seria dela porque teria de atender quem aparecesse. De m vontade, acabou por 
consentir, e Silvestre, em meia folha de papel de carta, redigiu um aviso. Carmen no consentiu que fosse ele 
a colocar o papel: ela prpria o fixou  porta com uma lambuzadela de cola. O pior  que, ainda por uma vez, 
e porque o interessado no sabia ler, teve de enfrentar a pergunta j sabida e a viso do jornal comprovativo. 
O que ela pensou de Silvestre e da mulher estava muito alm do que disse, mas, o que disse, j estava, por sua 
vez, muito para l das convenincias e do que era justo. Fosse Silvestre pessoa conflituosa e ali teramos um 
conflito internacional. Mariana bem espumava de fria, mas o marido moderou-lhe os mpetos e as 
revivescncias da padeira de Aljubarrota.
         O sapateiro voltou ao seu lugar  janela, a matutar como se teria dado o engano. Demais sabia que 
no tinha uma caligrafia primorosa mas, para sapateiro, achava-a muito boa, comparando-a com a de certos 
doutores. No via outra explicao que no fosse a de um engano no jornal. Seu no era, tinha a certeza: 
parecia-lhe estar a ver o impresso que preenchera, e rs do cho  que l pusera. Enquanto pensava, mantinha-
se atento ao trabalho, sem se esquecer de deitar, de vez em quando, uma vista de olhos para a rua, com o fito 
de descobrir nos poucos transeuntes os que viessem  procura do quarto. A vantagem da observao estava 
em que quando chegasse  fala com o interessado j resolvera sobre a resposta a dar. Silvestre tinha-se na 
conta de bom fisionomista. Habituara-se, na mocidade, a olhar os outros a direito, para saber quem eram e o 
que pensavam, naquela poca em que confiar ou no era quase uma questo de vida ou de morte. Estes 
pensamentos, puxando-o para trs, pelo caminho j percorrido da sua vida, distraam-no da observao.
         A manh estava quase passada, o cheiro do almoo j invadia a casa e ningum aparecera que 
conviesse. Silvestre arrependia-se de ter sido to exigente. Gastara dinheiro no anncio, andara  bulha com a 
vizinha do lado (que, por felicidade, no era freguesa) e estava sem hspede.
         Comeava a pregar uns protetores numas botas quando viu aparecer no passeio fronteiro um homem 
que caminhava vagarosamente, com a cabea levantada, mirando os prdios e as caras das pessoas que 
passavam. No trazia jornal na mo, nem sequer, ao que parecia, na algibeira. Parou diante da janela de 
Silvestre a observar o prdio, andar por andar. Fingindo-se absorto no trabalho, o sapateiro olhava-o  
sorrelfa. Era de estatura mediana, moreno, e no aparentava mais que trinta anos. Vestia daquela maneira 
inconfundvel que mostra estar a pessoa a igual distncia da pobreza e da mediania. O fato era pouco cuidado, 
embora de boa fazenda. As calas, de to desvincadas, teriam provocado o desespero de Mariana. Vestia uma 
camisola de gola alta e vinha em cabelo. Parecia estar satisfeito com o resultado da inspeo, mas no dava 
um passo.
         Silvestre comeou a sentir-se inquieto. No tinha nada a recear, nunca fora incomodado desde que... 
desde que deixara aquelas coisas e agora j estava velho, mas a imobilidade e o -vontade do homem 
perturbavam-no. A mulher cantarolava na cozinha com aquela voz desafinada que era a alegria de Silvestre e 
constante motivo de gracejos. J incapaz de suportar a expectativa, o sapateiro ergueu a cabea e fitou o 
estranho personagem. Por sua vez, este, que acabara de inspecionar o prdio, chegava nesse momento com os 
olhos  janela de Silvestre. Ambos se fitaram, o sapateiro com um ligeiro ar de desafio, o outro com uma 
iniludvel expresso de curiosidade. Separados pela rua, os dois homens afrontavam os olhares. Silvestre 
desviou os olhos para no parecer provocador. O homem sorriu e atravessou a rua em passos vagarosos, mas 
firmes. Silvestre sentiu-se estremecer enquanto aguardava o som da campainha. No foi to depressa quanto 
esperava. O homem devia estar a ler o aviso. Por fim, a campainha tocou. A cantiga de Mariana interrompeu-
se no meio de uma lamentvel dissonncia. O corao de Silvestre precipitou as pulsaes, de tal modo que o 
sapateiro, brincando consigo mesmo, achou que era presuno da sua parte acreditar que o homem vinha por 
motivos que nada tinham a ver com o quarto e que se relacionavam com os acontecimentos remotos do tempo 
em que... O sobrado estremeceu sob o peso de Mariana que se aproximava. Silvestre entreabriu a cortina:
          Que ?
 Est ali um sujeito que vem por causa do quarto. Queres l ir?
         O que Silvestre sentiu no foi precisamente alvio. O seu pequeno suspiro foi de pena, como se uma 
iluso, a ltima, acabasse de morrer. No havia dvida de que fora presuno da sua parte...
         Foi com o pensamento de que estava velho e liquidado que chegou  porta. A mulher j informara do 
preo, mas, como o homem queria ver o quarto, Silvestre  que resolvia. Ao ver o sapateiro o rapaz sorriu, um 
sorriso to ligeiro que mal passava dos olhos. Tinha-os pequenos e brilhantes, muito pretos, sob as 
sobrancelhas espessas mas bem desenhadas. O rosto era moreno, conforme Silvestre j notara, de traos 
ntidos, sem brandura mas tambm sem dureza excessiva. Um rosto msculo, apenas adoado pela boca de 
curvas femininas. Silvestre gostou da cara que tinha diante de si:
          Ento, deseja ver o quarto?
 Se no vir inconveniente. O preo agrada-me, falta saber se o quarto me agradar.
          Faa favor de entrar.
         O rapaz (era assim que Silvestre o considerava) entrou sem acanhamento. Deu uma vista de olhos 
pelas paredes e pelo cho, sobressaltando a estimvel Mariana, sempre temerosa de que lhe apontassem faltas 
de asseio. O quarto tinha uma janela para o quintal onde Silvestre, nas poucas horas vagas, plantava umas 
vagas couves e criava uma ninhada de pintos. O rapaz olhou em volta e virou-se para Silvestre:
          Gosto do quarto. Mas no posso ficar com ele!
         O sapateiro perguntou, um pouco aborrecido:
          Porqu? Acha caro?
 No. O preo agrada-me, j lho disse. O pior  que o quarto no est mobilado...
          Ah, queria-o mobilado?
         Silvestre olhou para a mulher. Esta fez um sinal e o sapateiro acrescentou:
 Por isso no deixamos de fazer negcio. Tnhamos aqui uma cama e uma cmoda que tirmos, 
visto que no pensvamos em alugar o quarto com moblia... Compreende... Nunca se sabe o uso que os 
outros do s nossas coisas... Mas se o senhor est interessado...
          E o preo  o mesmo?
         Silvestre coou a grenha.
          No quero prejudic-lo  acrescentou o rapaz.
         Esta observao meteu Silvestre em brios. Quem o conhecesse bem, diria exatamente aquelas 
palavras para conseguir que o quarto mobilado ficasse pelo mesmo preo que ficaria sem moblia.
 Ora! Com moblia ou sem moblia  a mesma coisa  decidiu.  No fim de contas, at nos faz jeito. 
Escusamos de ter a casa atravancada. No , Mariana?
         Se Mariana pudesse dizer o que pensava, diria justamente  no . Mas no disse nada. Limitou-se 
a conjugar um encolher de ombros indiferente com um franzir de nariz desaprovador. O rapaz notou esta 
mmica e acudiu:
 No, isso no. Dou-lhe mais cinquenta escudos. Acha bem?
         Mariana exultou e ficou a gostar do rapaz. Silvestre, por sua vez, dava pulinhos de alegria 
interiormente. No pelo negcio, mas por ver que no se enganara. O hspede era pessoa direita. O rapaz foi 
at  janela, passeou os olhos pelo quintal, sorriu  ninhada que esgaravatava na terra solta e disse:
 Os senhores no sabem quem eu sou. Chamo-me Abel... Abel Nogueira. Podem ter informaes a 
meu respeito no local onde trabalho e na casa que vou deixar agora. Aqui esto os endereos.
         Sobre o parapeito da janela escreveu num papel duas moradas e entregou-o a Silvestre. Este fez um 
movimento de recusa, to certo estava de que no daria um passo para tirar informaes, mas acabou por 
receber o papel. No meio do quarto sem mveis, o rapaz olhava os dois velhos e os dois velhos olhavam o 
rapaz. Os trs estavam contentes, tinham aquele sorriso de olhos que vale por todos os sorrisos de dentes e 
lbios.
 Ento, ocuparei o quarto hoje. Trarei as minhas coisas esta tarde. E, a propsito, espero entender-
me com a senhora a respeito da roupa...
         Mariana respondeu:
          Tambm espero que sim. Escusa de mandar lavar fora.
          Claro. Querem que os ajude a mudar para aqui a moblia?
         Silvestre apressou-se:
 No, senhor, no vale a pena. Ns c trataremos disso.
          Vejam l...
          No vale a pena. A moblia no  pesada.
          Bom. Ento, at logo.
         Acompanharam-no  porta, sorridentes. J no patamar, o rapaz lembrou que precisaria de uma chave. 
Silvestre prometeu mandar faz-la nessa mesma tarde e ele retirou-se. Os dois velhos regressaram ao quarto. 
Silvestre tinha na mo o papel em que o hspede escrevera os endereos. Meteu-o na algibeira do colete e 
perguntou  mulher:
          Ento? Que tal achas o homem?
 C por mim, acho bem. Mas olha que tu, para fazeres negcios, s um alho...
         Silvestre sorriu:
          Ora! No ficvamos mais pobres...
 Pois sim, mas sempre so mais cinquenta escudos! No sei  quanto hei de levar pela lavagem da 
roupa...
         O sapateiro no ouvia. Tomara uma expresso aborrecida que lhe alongava o nariz.
          Que tens tu?  perguntou a mulher.
 Que tenho eu? Tenho que andamos a dormir. O rapaz disse o nome e ns ficmos calados, veio  
hora do almoo e ns no lho oferecemos... A est!
         Mariana no encontrou razo para tanto aborrecimento. Os nomes, era sempre tempo de diz-los, e, 
quanto ao almoo, Silvestre devia saber que, chegando para dois, talvez no bastasse para trs. Ciente pela 
cara da mulher de que, para esta, o assunto no tinha a menor importncia, Silvestre mudou de conversa:
          Vamos mudar os mveis?
          Vamos. O almoo ainda est demorado.
         A mudana foi rpida. A cama, a mesa de cabeceira, a cmoda e uma cadeira. Mariana ps lenis 
lavados e deu uma arrumao final. Puseram-se, ela e o marido, de parte, a olhar. No ficaram satisfeitos. O 
quarto parecia estar vazio. No  que o espao livre fosse grande. Pelo contrrio, entre a cama e a cmoda, 
por exemplo, era preciso passar de lado. Mas notava-se a ausncia de qualquer coisa que alegrasse o ambiente 
e o tornasse prprio para um ser vivo. Mariana saiu e voltou da a pouco com um napperon e uma jarra. 
Silvestre aprovou com um aceno de cabea. Os mveis, at a estatelados de desnimo, alegraram-se. Depois, 
um tapete ao lado da cama diminuiu a nudez do sobrado. Com mais isto e mais aquilo, o quarto ganhou um ar 
de conforto modesto. Mariana e Silvestre olharam-se, sorridentes, como quem se congratula pelo xito de 
uma empresa.
         E foram almoar.
 


         

         VII

         Todas as tardes, depois do almoo, Ldia deitava-se. Tinha uma certa tendncia para emagrecer e 
defendia-se dela repousando diariamente durante duas horas. Deitada na cama larga e macia, com o roupo 
desapertado, as mos cadas ao lado do corpo, fixava os olhos no teto, relaxava a tenso muscular e os nervos 
e abandonava-se ao tempo sem resistncia. Criava-se no crebro de Ldia e no quarto algo como o vcuo. O 
tempo deslizava, continuamente, com aquele rumor sedoso que tem a areia correndo na ampulheta.
         Os olhos semicerrados de Ldia seguiam o pensamento vago e indeciso. O fio quebrava-se, havia 
sombras interpostas como nuvens. Depois, aparecia ntido e claro, para logo se sumir entre vus e surdir mais 
longe. Era como a ave ferida que rasteja, esvoaa, aparece e desaparece, at cair morta. Incapaz de sustentar o 
pensamento acima das nuvens que o toldavam, Ldia adormeceu.
         Acordou ao toque violento da campainha da porta. Desorientada, os olhos ainda cobertos de sono, 
sentou-se na cama. A campainha retiniu outra vez. Ldia levantou-se, calou as pantufas e dirigiu-se ao 
corredor. Com cuidado, espreitou pelo ralo. Teve uma expresso de enfado e abriu a porta:
          Entre, me.
          Boa tarde, Ldia. Posso entrar?
          Entre, j lhe disse.
         A me entrou. Ldia conduziu-a para a cozinha.
          Parece que ficaste aborrecida.
          Eu? Que ideia! Sente-se.
         A me sentou-se num banco. Era uma mulher de pouco mais de sessenta anos, de cabelo grisalho 
coberto por uma mantilha preta, como preto era o vestido que trazia. Tinha a face mole, com poucas rugas, de 
um tom de marfim sujo. Os olhos pouco mveis e mortios, mal defendidos pelas plpebras quase sem 
pestanas. As sobrancelhas eram ralas e pequenas, desenhadas como um acento circunflexo. Todo o rosto tinha 
uma expresso pasmada e ausente.
          No a esperava hoje  disse Ldia.
 No  o meu dia, nem costumo vir a esta hora, bem sei  respondeu a me.  Tu ests boa?
          Como de costume. E a me?
          C vou indo. Se no fosse o reumatismo...
         Ldia procurou interessar-se pelo reumatismo da me, mas com to pouca convico que acabou por 
mudar de assunto:
          Estava a dormir, quando tocou. Acordei estremunhada.
          Ests com mau parecer  notou a me.
          Acha?  de ter dormido, com certeza.
          Talvez. Dormir de mais faz mal.
         Nenhuma delas se iludia com as banalidades que ouviam e diziam. Ldia conhecia bem a me para 
saber que ela no teria vindo s para notar-lhe o bom ou o mau aspeto; a me, por seu lado, se comeara a 
conversa daquela maneira fora apenas para no entrar de chofre no assunto que a trouxera. Mas Ldia 
lembrou-se, neste momento, de que eram quase quatro horas e de que tinha que sair.
          Ento, que a trouxe c hoje?
         A me ps-se a alisar uma prega da saia. Aplicava nesse trabalho a maior ateno e parecia no ter 
ouvido a pergunta.
          Precisava de dinheiro  murmurou, por fim.
         Ldia no ficou surpreendida. Esperava isto mesmo. No entanto, no pde reprimir o desagrado:
          De ms para ms, vai-me dizendo isso mais cedo...
          Tu sabes que a vida est difcil...
          Est bem, mas acho que a me devia poupar um bocadinho.
          Eu poupo, mas ele gasta-se.
         A voz da me era serena, como de quem est segura de alcanar aquilo que deseja. Ldia olhou-a. A 
me conservava os olhos baixos, fitos na prega da saia, acompanhando o movimento da mo. Ldia saiu da 
cozinha. Imediatamente a me deixou a saia e levantou a cabea. Tinha uma expresso de contentamento, a 
expresso de quem procurou e achou. Ao ouvir que a filha se aproximava, retomou a sua posio modesta.
 Aqui tem  disse Ldia, estendendo duas notas de cem escudos.  No lhe posso dar mais agora.
         A me recebeu o dinheiro e guardou-o no porta-moedas que sepultou no fundo da mala de mo:
          Obrigada. Vais, ento, sair?
 Vou at  Baixa. Estou farta de estar em casa. Vou lanchar e dar uma volta pelas montras.
         Os olhos pequenos da me, fixos e obstinados como os de um animal empalhado, no a deixavam:
 Na minha fraca opinio  disse  no devias sair muito.
          No saio muito. Saio quando me apetece.
          Pois . Mas o senhor Morais pode no gostar.
         As asas do nariz de Ldia palpitaram. Lentamente, articulou com sarcasmo:
 A me importa-se mais do que eu com o que o senhor Morais pensa...
           para teu bem. Agora que tens uma situao...
 Agradeo-lhe o cuidado, mas j tenho idade para no precisar de conselhos. Saio quando quero e 
fao o que quero. O mal ou o bem que eu faa so  minha conta.
 Digo-te isto porque sou tua me e quero o teu bem-estar...
         Ldia teve um sorriso brusco e incomodativo:
 O meu bem-estar!... S h trs anos  que a me se preocupa com o meu bem-estar. Antes disso 
dava-lhe pouca importncia.
 No ests a ser verdadeira  respondeu a me, novamente atenta  prega da saia.  Sempre me 
preocupei contigo.
 Seja como diz. Mas agora preocupa-se muito mais... Ah, descanse! No tenho prazer nenhum em 
voltar  vida antiga, quele tempo em que a me no se preocupava comigo... Quer dizer, quando no se 
preocupava tanto como hoje...
         A me levantou-se. Alcanara o que pretendia e a conversa estava tomando um rumo desagradvel: 
melhor era retirar-se. Ldia no a reteve. Sentia-se furiosa pela pequena explorao de que era vtima e porque 
a me se permitia dar-lhe conselhos. Tinha vontade de met-la num canto e de no a largar enquanto no lhe 
dissesse tudo o que pensava dela. Todos aqueles cuidados, aquelas suspeitas, aquele temor de desagradar ao 
senhor Morais, no eram por amor da filha, eram pela integridade da pensozinha mensal que dela recebia.
         Ainda com os lbios frementes de clera, Ldia voltou ao quarto para mudar de roupa e pintar-se. Ia 
lanchar, dar uma volta pela Baixa, como dissera  me. Nada mais inocente. Mas as insinuaes que acabara 
de ouvir quase lhe davam vontade de voltar a fazer o que durante tantos anos fizera: encontrar-se com um 
homem num quarto mobilado da cidade, um quarto para pequenas permanncias, com a inevitvel cama, o 
inevitvel biombo, os inevitveis mveis de gavetas vazias. Enquanto espalhava o creme pela cara, recordava 
o que se passara nessas tardes e noites, em quartos assim. E a recordao entristecia-a. No desejava 
recomear. No por gostar de Paulino Morais: engan-lo no lhe provocaria a sombra de um remorso, e se o 
no fazia era, sobretudo, por prezar a sua segurana. Conhecia de mais os homens para am-los. Recomear, 
no! Quantas vezes fora  procura de uma satisfao sempre recusada? Ia por dinheiro, claro, e esse era-lhe 
dado porque o merecia... Quantas vezes sara ansiosa, ofendida, lograda! Quantas vezes, tudo isto  quarto, 
homem e insatisfao  se repetiu! Depois, o homem podia ser outro, o quarto diferente, mas a insatisfao 
no desaparecia, no diminua sequer.
         Sobre o mrmore do toucador, entre os frascos e os boies, ao lado do retrato de Paulino Morais, 
estava o segundo volume de Os Maias. Folheou-o, procurou a passagem que assinalara a bton e releu-a. 
Deixou cair o livro lentamente e, de olhos fitos no espelho, onde a sua cara tinha, agora, uma expresso de 
espanto que recordava a me, recapitulou em segundos a sua vida  luz e sombra, farsa e tragdia, insatisfao 
e logro.
         Eram quase quatro e meia quando acabou de arranjar-se. Estava bonita. Tinha gosto para vestir-se, 
sem exageros. Pusera um tailleur cinzento, bem talhado, que lhe dava ao corpo o contorno sinuoso de uma 
plstica perfeita. Um corpo que obrigava os homens, na rua, a voltarem-se para trs. Milagres de modista. 
Instinto de mulher cujo corpo  o seu ganha-po.
         Desceu a escada naquele passo leve que evita o bater sonoro dos saltos dos sapatos nos degraus.  
porta de Silvestre havia gente. Os dois batentes estavam abertos e o sapateiro ajudava um rapaz a fazer entrar 
uma mala grande. No patamar, Mariana segurava outra mala mais pequena. Ldia cumprimentou:
          Boas tardes.
         Mariana correspondeu. Silvestre, para retribuir o cumprimento, parou e voltou-se. O olhar de Ldia 
passou por cima dele e fixou-se com curiosidade no rosto do rapaz. Abel olhou-a tambm. O sapateiro, ao 
notar a expresso interrogativa do hspede, sorriu e piscou-lhe um olho. Abel compreendeu.
 


         

         VIII

         J o dia se enfuscava e a noite se pressentia na quietao do crepsculo, que nem todos os rudos da 
cidade anulavam, quando Adriana apareceu na esquina, em passo rpido. Entrou na escada a correr e subiu os 
degraus dois a dois, embora o corao protestasse contra o esforo. Tocou a campainha com insistncia, 
impaciente pela demora. Apareceu-lhe a me:
 Boa tarde, mezinha. J comeou?  perguntou, beijando-a.
 Devagar, menina, devagar... Ainda no. Para que vieste a correr?
 Tive medo de chegar tarde. Demoraram-me no escritrio com umas cartas urgentes.
         Entraram na cozinha. As lmpadas j estavam acesas. A telefonia tocava baixinho. Isaura, na 
marquise, costurava, curvada sobre uma camisa cor-de-rosa. Adriana beijou a irm e a tia. Depois sentou-se a 
descansar:
 Uf! Que estafa! Oh, Isaura, que coisa to feia tu ests a fazer?!
         A irm levantou a cabea e sorriu:
 O homem que vestir esta camisa deve ser o mais acabado tipo de estpido. Estou mesmo a v-lo, 
na loja, de olho arregalado para esta lindeza, capaz de tirar a pele para a pagar!
         Riram ambas. Cndida observou:
          Vocs dizem mal de toda a gente!
         Amlia apoiou as sobrinhas:
 Ento, tu achas que ser prova de bom gosto vestir aquela camisa?
          Cada um veste do que gosta  atreveu-se Cndida.
          Ora! Isso no  opinio!
          Chiu!  fez Isaura.  Deixem ouvir.
         O locutor anunciava uma pea musical.
          Ainda no   disse Adriana.
         Ao lado da telefonia estava um embrulho. Pelo formato e pelo tamanho parecia um livro. Adriana 
pegou-lhe e perguntou:
          Que  isto? Outro livro?
          Sim  respondeu a irm.
          Como se chama?
          A Religiosa.
          Quem  o autor?
          Diderot. Nunca li nada dele.
         Adriana pousou o livro e da a pouco esquecia-o. No apreciava muito os livros. Como a irm, a me 
e a tia, adorava a msica, mas os livros achava-os maadores. Para contar uma histria enchiam-se pginas e 
pginas e, afinal, todas as histrias se podem dizer em poucas palavras. No compreendia que Isaura perdesse 
horas a ler, s vezes at de madrugada. L a msica, sim. Era capaz de estar uma noite inteira a ouvir, sem se 
cansar. E era uma felicidade que todas gostassem. Se no fosse assim, no faltariam zangas!
           agora  avisou Isaura.  Pe mais alto.
         Adriana girou um dos botes. A voz do locutor encheu a casa:
 ... a Dana dos Mortos, de Honegger. Texto de Paul Claudel. Interpretao de Jean-Louis Barrault. 
Ateno!
         Na cozinha, uma cafeteira chiava. Tia Amlia tirou-a do lume. Ouviu-se o riscar da agulha no disco, 
e logo a voz dramtica e vibrante de Jean-Louis Barrault fez estremecer as quatro mulheres. Nenhuma se 
mexia. Fitavam o olho luminoso do mostrador da telefonia, como se dali viesse a msica. No intervalo do 
primeiro disco para o segundo ouviu-se, vindo da habitao contgua, um estridor de metais num ragtime que 
dilacerava os ouvidos. Tia Amlia encrespou o sobrolho, Cndida suspirou, Isaura espetou com fora a agulha 
na camisa, Adriana fuzilou a parede com um olhar mortfero.
          Pe mais alto  disse a tia Amlia.
         Adriana aumentou o som. A voz de Jean-Louis bradou j'existe!, a msica torvelinhou na vaste plaine 
 e as notas trepidantes do ragtime misturaram-se hereticamente  dana sur le pont d'Avignon.
          Mais alto!
         O coro dos mortos, em mil gritos de desespero e lstima, clamou a sua dor e os seus remorsos, e o 
tema do dies irae sufocou, aniquilou os risinhos de um clarinete bulioso. Honegger, lanado atravs do alto-
falante, logrou vencer o annimo ragtime. Talvez Maria Cludia se tivesse aborrecido do seu programa de 
baile favorito, talvez se assustasse com o esbravejar do furor divino que a msica traduzia. Dissolvidas no ar 
as ltimas notas da Dana dos Mortos, Amlia lanou-se ao jantar, resmungando. Cndida afastou-se, receosa 
da tempestade, mas igualmente indignada. As duas irms, impressionadas pela msica, ferviam de sagrada 
clera.
 Isto parece impossvel  declarou, por fim, Amlia.  No  querer ser mais que os outros, mas 
parece impossvel que haja quem goste daquela msica de doidos!
          H quem goste, tia  disse Adriana.
          Isso vejo eu!
 Nem toda a gente foi habituada como ns  acrescentou Isaura.
 Tambm sei. Mas entendo que toda a gente devia ser capaz de separar o trigo do joio. O que  mau, 
de um lado; o que  bom, do outro.
         Cndida, que retirava os pratos do armrio, ousou contrapor:
 No pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se  
completamente bom ou completamente mau. Acho eu  acrescentou timidamente.
         Amlia virou-se para a irm, empunhando a colher com que provava a sopa:
 Essa no est m. Nesse caso, no tens a certeza de que  bom aquilo de que gostas?
          No, no tenho.
          Ento, por que gostas?
          Gosto porque acho que  bom, mas no sei se  bom.
         Amlia franziu os lbios, com desprezo. A tendncia da irm para no ter certezas acerca de coisa 
alguma, de fazer distines em tudo, irritava o seu sentido prtico, o seu modo de dividir verticalmente a vida. 
Cndida calara-se, arrependida de ter falado tanto. Aquele jeito subtil de raciocinar no era naturalmente seu: 
adquirira-o no convvio do marido, e o que dele havia de mais problemtico simplificara-se nela.
 Tudo isso  muito bonito  insistiu Amlia.  Mas quem sabe o que quer e o que tem arrisca-se a 
perder o que tem e a falhar o que pode querer.
          Que confuso  sorriu Cndida.
         A irm reconheceu que tinha sido obscura, o que ainda mais a irritou:
 No  confuso,  a verdade. H msica boa e msica m. H pessoas boas e pessoas ms. H o 
bem e o mal. Qualquer pode escolher...
 Era bom, se assim fosse. Muitas vezes no se sabe escolher, no se aprendeu a escolher...
 Diz  que h pessoas que s podem escolher o mal, porque so mal formadas por natureza!
         Cndida contraiu o rosto, como se tivesse sentido uma dor. Depois, respondeu:
 No sabes o que ests a dizer. Isso s pode acontecer quando as pessoas so doentes do esprito. 
Ora, ns estamos a falar de pessoas que, segundo o que dizes, podem escolher... Um doente assim no pode 
escolher!
 Queres atrapalhar-me, mas no consegues. Falemos, ento, das pessoas ss. Eu posso escolher 
entre o bem e o mal, entre a msica boa e a msica m!
         Cndida levantou as mos, como se fosse encetar um longo discurso, mas logo as baixou, com um 
sorriso fatigado:
 Ponhamos de parte a msica, que s est a a embaraar. Diz-me l, se sabes, o que  o bem e o 
mal. Onde acaba um e comea o outro?
 Isso no sei, nem  pergunta que se faa. O que sei  reconhecer o mal e o bem onde quer que 
estejam...
          De acordo com o que pensas a respeito deles...
 Nem podia ser de outra maneira. No  com as ideias dos outros que eu ajuzo!
 Pois  a que est o ponto difcil. Esqueces que os outros tambm tm as suas ideias acerca do bem 
e do mal. E que podem ser mais justas que as tuas...
 Se toda a gente pensasse como tu, ningum se entendia.  preciso regras,  preciso leis!
          E quem as fez? E quando? E com que fim?
         Calou-se, durante um breve segundo, e perguntou com um sorriso de malcia inocente:
 E, afinal, pensas com as tuas ideias ou com as regras e as leis que no fizeste?...
         A estas perguntas, Amlia no achou que responder. Virou costas  irm e rematou:
 Est bem. J devia saber que, contigo, no se pode conversar!
         Isaura e Adriana sorriram. A discusso era apenas a ltima de dezenas j ouvidas. Pobres velhas, 
agora limitadas aos arranjos domsticos, longe do tempo em que os seus interesses eram mais amplos, mais 
vivos, em que o desafogo econmico permitia esses interesses! Agora, enrugadas e dobradas, encanecidas e 
trmulas, o antigo fogo lanava as ltimas fagulhas, lutava contra a cinza que se acumulava. Isaura e Adriana 
olharam-se e sorriram. Sentiam-se novas, vibrantes, sonoras como a corda tensa de um piano  comparando-
se com aquela velhice que se esboroava.
         Depois, foi o jantar.  volta da mesa, quatro mulheres. Os pratos fumegantes, a toalha branca, o 
cerimonial da refeio. Para aqum  ou talvez para alm  dos rumores inevitveis, um silncio espesso, 
confrangedor, o silncio inquisitorial do passado que nos contempla e o silncio irnico do futuro que nos 
espera.
 


         

         IX

          Tu no vens bom, Anselmo!...
         Anselmo fez um esforo para sorrir, um esforo bem digno de melhor resultado. A preocupao era 
demasiada para ceder ao jogo dos msculos que comandam o sorriso. O que se viu foi uma careta que seria 
cmica se no fosse a aflio evidente que se lhe instalara nos olhos, onde no chegavam os trejeitos 
musculares da boca.
         Estavam na cozinha, a almoar. Sobre a mesa, o relgio de Anselmo indicava-lhe o tempo de que 
ainda podia dispor. O tiquetaque miudinho insinuou-se no silncio que se seguiu  exclamao de Roslia.
          Que tens tu?  insistiu ela.
          Ora... Chatices...
         A ss com a mulher, Anselmo no tinha grandes escrpulos de linguagem e nem lhe passava pela 
cabea que ela pudesse melindrar-se. E Roslia, diga-se, no se melindrava:
          Mas, que chatices?
 No me aceitaram o vale. E ainda faltam dez dias para o fim do ms...
 Pois faltam, e eu estou sem dinheiro. J hoje, na mercearia, tive de fingir que me tinha esquecido 
do porta-moedas.
         Anselmo pousou o garfo com violncia. A ltima frase da mulher fora como uma bofetada:
 Eu s gostava de saber por onde se some o dinheiro!  declarou.
 Com certeza no pensas que eu o estrago. Aprendi com a minha me a ser poupada e no acredito 
que haja outra como eu.
 Ningum diz que no s poupada, mas a verdade  que, com duas pessoas a ganhar, tnhamos 
obrigao de viver melhor.
 O que a Claudinha ganha, mal chega para ela. Filha minha no pode apresentar-se de qualquer 
maneira.
          Quando ela est, no falas assim...
 Se eu lhe fosse a dar asas, estava bem arranjada. Ou tu julgas que no sei o que fao?
         Anselmo mastigava o ltimo bocado. Mudou de posio, desapertou o cinto e estendeu as pernas. A 
luz cinzenta do dia chuvoso, que entrava pelos vidros da marquise, peneirava sombras na cozinha. Roslia, de 
cabea baixa, continuava a comer. Na extremidade livre da mesa, o prato de Maria Cludia esperava.
         Os olhos fitando longe, o rosto grave, ningum ousaria dizer que Anselmo no estava absorto em 
profundas reflexes. Sob a calva luzidia, ligeiramente enrubescida pelo trabalho digestivo que comeava, o 
crebro espremia ideias, todas elas com o mesmo objetivo: arranjar dinheiro que chegasse at ao fim do ms. 
Mas, talvez porque a digesto estivesse a complicar-se, o crebro de Anselmo no produzia ideias que 
valessem.
 No penses tanto. Tudo se h de arranjar  animou Roslia.
         O marido, que s esperava por aquela frase para deixar de pensar em assunto to incomodativo, 
olhou-a com irritao:
          Se eu no pensar, quem  que h de pensar?
 Mas faz-te mal essa preocupao, agora, depois do almoo...
         Anselmo teve um grande gesto de desalento e abanou a cabea, como quem no pode fugir  
fatalidade implacvel:
 Vocs, mulheres, nem sonham o que vai na cabea de um homem!
         Se Roslia proporcionasse a deixa necessria, Anselmo enveredaria por um longo solilquio em 
que exporia, uma vez mais, as suas definitivas ideias sobre a condio do homem em geral e dos empregados 
de escritrio em particular. No tinha muitas ideias, mas tinha-as definitivas. E a principal, da qual todas as 
outras eram satlites e consequentes, consistia na profunda convico de que o dinheiro  (palavras suas) a 
mola-real da vida. Que para o alcanar todos os processos so bons, desde que a dignidade no sofra com 
eles. Esta ressalva era muito importante, porque Anselmo tinha, como poucos, o culto da dignidade.
         Roslia no deu a deixa, no porque estivesse farta das teorias mil vezes expostas do marido, mas 
porque estava demasiadamente absorta na contemplao do seu rosto, aquele rosto que, visto de perfil, como 
agora, parecia o de um imperador romano. A pequena irritao de Anselmo por no lhe ter sido dada 
oportunidade de falar foi compensada pela ateno respeitosa com que se sentia observado. Considerava a 
mulher muito abaixo de si, mas saber-se assim adorado lisonjeava-o, de tal modo que, de bom grado, 
renunciava ao gosto de evidenciar por palavras essa superioridade quando via nos olhos de Roslia o respeito 
e o temor.
         Ouviu-se um suspiro: Roslia atingira o xtase, o intermdio lrico terminara. Das altas regies da 
adorao, desceu ao prosasmo terrestre.
          Sabes quem meteu hspede?
         Para Anselmo a comdia ainda no terminara. Simulou um sobressalto e perguntou:
          O qu?
          Se sabes quem meteu hspede?
         Com o sorriso benevolente dos seres olmpicos que acedem a descer s planuras, Anselmo 
perguntou:
          Quem foi?
 Foi o sapateiro. Desta vez  um rapaz novo. Bem mal-arranjado, por sinal...
          Tambor um, caixa de rufo outro!
         Era uma das frases prediletas de Anselmo. Queria ele dizer na sua que nada havia que estranhar no 
facto de um pelintra viver com outro pelintra. Mas a frase seguinte correspondia a uma preocupao:
          Um hspede  que nos fazia arranjo...
          Se tivssemos casa para isso...
         Como no tinham casa para isso, Anselmo pde dizer:
          Nem eu queria misturadas. Isto  s falar!...
         A campainha deu trs toques rpidos.
  a pequena  disse Anselmo.  Olhou o relgio e acrescentou:  E j vem atrasada.
         Quando Maria Cludia entrou, as sombras da cozinha saram. A rapariga lembrava a capa colorida de 
uma revista americana, dessas que mostram ao mundo que na Amrica no se fotografam pessoas ou coisas 
sem que, previamente, se lhes aplique uma demo de tinta fresca. Maria Cludia tinha um gosto infalvel para 
escolher as cores que melhor ajudavam a sua juventude. Sem hesitaes, quase por instinto, entre dois tons 
semelhantes escolhia o mais adequado. O resultado era um deslumbramento. Anselmo e Roslia, criaturas 
mazombas, de tez baa e fatos sombrios, no conseguiam furtar-se ao influxo de tanta frescura. E se no 
podiam imit-la, admiravam-na.
         Com o seu sexto sentido de atriz incipiente, a rapariga deixou-se ficar diante dos pais o tempo 
necessrio para os seduzir com a sua gentileza. Sabia que vinha atrasada e no queria dar explicaes. No 
momento exato e necessrio, deu uma corridinha de ave graciosa na direo do pai e beijou-o. Rodopiou e 
caiu nos braos da me. Tudo isto parecia to natural que nenhum deles, atores da comdia de enganos que 
era a sua vida, achou conveniente mostrar estranheza.
 Trago tanta fome!...  disse Maria Cludia. E, sem esperar, ainda com o impermevel, correu para 
o quarto.
 Despe-te aqui, Claudinha  disse a me.  Vais molhar tudo l dentro.
         No teve resposta, nem contava com ela. Fazia reparos e observaes sem a mais tnue esperana de 
os ver atendidos, mas o simples facto de faz-los dava-lhe uma iluso de autoridade maternal, grata aos seus 
princpios de educao. Nem as sucessivas derrotas que tal autoridade sofria lha destruam.
         O rosto satisfeito de Anselmo cobriu-se repentinamente de sombras. Uma chama de desconfiana se 
lhe acendeu nos olhos.
 Vai ver o que foi ela fazer l dentro  ordenou  mulher.
         Roslia foi e apanhou a filha a espreitar para a rua, por entre as cortinas. Ao sentir a me, Maria 
Cludia voltou-se com um sorriso meio atrevido, meio embaraado.
          Que ests a a fazer? Por que no te despes?
         Aproximou-se da janela e abriu-a. Na rua, mesmo em frente, estava um rapaz,  chuva. Roslia 
fechou a janela com estrondo. Ia ralhar, mas deu com os olhos da filha, postos em si, uns olhos frios onde 
parecia brilhar a malignidade do rancor. Atemorizou-se. Maria Cludia, sem pressas, tirava o impermevel. 
Algumas gotas de gua tinham molhado o tapete.
 Eu no te disse que tirasses a capa? Olha como est o cho!
         Anselmo apareceu  porta. Sentindo-se acompanhada, a mulher desabafou:
 Imagina tu que esta menina veio pr-se  janela, a ver um parvalho que estava ali defronte. Com 
certeza vieram os dois. Por isso  que ela chegou tarde!...
         Medindo o cho, como se estivesse num palco e obedecesse  marcao do encenador, Anselmo 
aproximou-se da filha. Claudinha tinha os olhos baixos, mas nada em si denunciava embarao. O rosto calmo 
parecia repelir. Demasiado interessado no que ia dizer para reparar na atitude da filha, Anselmo comeou:
 Ento, Claudinha, bem sabes que isso no  bonito. Uma menina nova, como tu, no pode andar 
assim acompanhada. O que diro os vizinhos? Essa gente, onde pe a lngua pe veneno. Alm disso, esses 
conhecimentos nunca do bom resultado e s comprometem. Quem  esse rapaz?
         Silncio de Maria Cludia. Roslia espumava de indignao, mas calava-se. Seguro de que o gesto 
era de efeito dramtico certo, Anselmo pousou a mo sobre o ombro da filha. E continuou, a voz um pouco 
trmula:
 Sabes que gostamos muito de ti e que queremos ver-te bem. No  qualquer rapazola sem 
importncia que deve interessar-te. Isso no  futuro. Compreendes?
         A rapariga resolveu levantar os olhos. Fez um movimento para libertar o ombro e respondeu:
          Sim, pai.
         Anselmo rejubilou: o seu mtodo pedaggico era infalvel.
         E foi nessa convico que saiu de casa, protegido contra a chuva que redobrava e disposto a insistir 
pelo adiantamento. Exigia-o a economia claudicante do lar e mereciam-no as suas qualidades de marido e pai.
 


         

         X

         Recostado em duas almofadas, um pouco entorpecido pelo despertar recente, Caetano Cunha 
esperava o almoo. A luz do candeeiro da mesa de cabeceira, dando-lhe de travs, deixava-lhe metade do 
rosto na penumbra e avivava o carmesim da face iluminada. Com um cigarro plantado no canto da boca, o 
olho desse lado semicerrado por causa do fumo, tinha um ar de vilo de filme de gangsters, esquecido pelo 
argumentista num quarto interior de casa sombria.  direita, sobre a cmoda, um retrato de criana sorria para 
Caetano Cunha, sorria fixamente, sorria com uma fixidez inquietante.
         Caetano no olhava para o retrato. No foi, portanto, por influncia do sorriso da filha que ele sorriu. 
Nem o sorriso do retrato se parecia com o seu. O do retrato era franco e alegre e se incomodava era apenas 
pela fixidez. O sorriso de Caetano era lbrico, quase repugnante. Quando os adultos sorriem deste modo no 
deviam estar presentes os sorrisos das crianas, mesmo os sorrisos fotografados.
         Ao sair do jornal, Caetano tivera uma aventura, uma aventura imunda, que eram essas as que mais 
apreciava. Por isso, sorria. Apreciava as coisas boas e regalava-se duas vezes com elas: quando as 
experimentava e quando as recordava.
         Justina veio estragar o segundo regalo. Entrou com o tabuleiro do almoo e pousou-o nos joelhos do 
marido. Caetano fitou-a com o olho iluminado, escarninhamente. Como o globo do candeeiro era vermelho, a 
esclertica parecia ensanguentada e reforava a maldade do olhar.
         A mulher no sentiu o olhar, como j no sentia a fixidez do sorriso da filha, to habituada estava a 
ambos. Regressou  cozinha, onde a esperava o seu almoo de diabtica, frugal e sem sabor. Comia s. Ao 
jantar, o marido no estava, salvo s teras-feiras, seu dia de folga; ao almoo, comiam separados: ele na 
cama, ela na cozinha.
         O gato saltou da sua almofada ao lado da chamin, onde estivera amodorrando sonhos. Arqueou a 
espinha e, com o rabo em bandeira, roou-se nas pernas de Justina. Caetano chamou-o. O animal subiu para a 
cama e ficou a olhar o dono, abanando lentamente a cauda. Os olhos verdes que a luz vermelha no conseguia 
tingir fixaram os pratos no tabuleiro. Esperava o prmio da sua condescendncia. De mais sabia que das mos 
de Caetano nunca recebia seno pancadas, mas persistia. Talvez no seu crebro de animal houvesse uma 
curiosidade, a curiosidade de saber quando o dono se cansaria de bater. Caetano ainda no estava cansado: 
apanhou um chinelo do cho e atirou-o. Mais rpido, o gato fugiu de um salto. Caetano riu.
         O silncio que enchia a casa de alto a baixo, como um bloco, estalou quele riso. To pouco 
habituados estavam a este rumor, que pareceu terem-se os mveis encolhido nos seus lugares. O gato, j 
esquecido da fome e atemorizado pela gargalhada, regressou ao esquecimento do sono. S Justina, como se 
nada tivesse ouvido, permaneceu tranquila. Em casa, apenas abria a boca para dizer as palavras 
indispensveis, e no considerava indispensvel tomar o partido do animal. Vivia dentro de si mesma, como 
se estivesse sonhando um sonho sem princpio nem fim, um sonho sem assunto de que no queria acordar, um 
sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um cu de que j se esquecera.
 


         

         XI

         A doena do filho transtornara as doces e preguiosas manhs de Carmen. Henriquinho estava de 
cama h dois dias, com uma angina benigna. Por vontade da me ter-se-ia chamado o mdico, mas Emlio, 
com o pensamento na despesa consequente, declarou que no valia a pena. Que a doena era insignificante. 
Com uns gargarejos, umas zaragatoas de mercurocromo, e mimos a dobrar, no tardaria que o filho se 
levantasse. Isto foi pretexto para que a mulher o acusasse de indiferena pela criana, e como entrara no 
caminho das acusaes despejou o saco das suas inumerveis queixas. Emlio ouviu-a, sem responder, durante 
todo um sero. Por fim, para evitar que a questo azedasse e se prolongasse pela noite dentro, concordou com 
a ideia da mulher. Antes das censuras, a concordncia no teria espicaado o permanente desejo de 
contradio de Carmen. Aceit-la agora seria tornar impossvel o desabafo. Mal ouviu o marido, mudou de 
posio e passou a atacar, com a mesma ou maior veemncia, o que at a defendera. Cansado e aturdido, 
Emlio abandonou a luta, deixando a mulher senhora de tomar a deciso que entendesse. No foi pequeno 
embarao para ela: por um lado, desejaria satisfazer a sua primeira vontade; por outro lado, no podia resistir 
ao desejo de contrariar o marido, e sabia que o faria, agora, no chamando o mdico. Henriquinho, alheio a 
toda esta disputa, resolveu o problema da maneira mais fcil: melhorou. Como boa me, Carmen ficou 
contente, embora, muito no fundo de si mesma, no lhe desagradasse um agravamento da doena (desde que 
no correspondesse a um perigo real) para que o marido visse que pessoa razovel ela era.
         Como quer que fosse, enquanto Henriquinho estivesse na cama, adeus preguiar matinal. Carmen 
tinha de ir s compras antes de o marido sair e no podia demorar-se muito para no lhe prejudicar o trabalho. 
Se tal prejuzo no fosse suscetvel de prejudicar, por sua vez, os rendimentos do lar, no perderia a ocasio 
de pregar uma partida ao marido, mas a vida j era bastante difcil para a agravar pelo simples satisfazer de 
vinganas mesquinhas. At nisto Carmen se reconhecia uma mulher razovel. A ss, quando podia, chorando, 
dar vazo ao desespero, lamentava-se porque o marido no sabia reconhecer-lhe as qualidades, ele, que s 
tinha defeitos, gastador, leviano, desinteressado do lar e do filho, criatura impossvel de aturar com aquele 
permanente ar de vtima, de pessoa deslocada e indesejada. Muitas vezes, nos primeiros tempos, Carmen 
perguntara a si mesma onde estavam as razes do desentendimento constante entre ela e o marido. Tinham 
namorado como toda a gente, tinham gostado um do outro, e, de repente, tudo acabara. Comearam as cenas, 
as discusses, as palavras sarcsticas  e aquele ar de vtima que era, de tudo, o que mais a irritava. Agora 
estava convencida de que o marido tinha uma amante, uma amiga. Na sua opinio, todas as desavenas 
conjugais eram provocadas pela existncia das amigas... Os homens so como os galos, que quando esto 
sobre uma galinha j tm escolhida a que h de seguir-se.
         Nessa manh, muito a contragosto porque chovia, Carmen saiu s compras. A casa ficou tranquila, 
isolada pelo sossego dos vizinhos e pelo rumor sossegado da chuva. O prdio vivia uma daquelas horas 
maravilhosas de silncio e paz, como se no tivesse dentro de si criaturas de carne e osso, mas sim coisas, 
coisas definitivamente inanimadas.
         Para Emlio Fonseca, o silncio e a paz que o rodeavam nada tinham de tranquilizador. Sentia 
mesmo uma opresso, como se o ar se tivesse tornado denso e asfixiante. Era-lhe agradvel esta pausa, a 
ausncia da mulher e o silncio do filho, mas pesava-lhe a certeza de que se tratava apenas de uma pausa, de 
um apaziguamento provisrio que adiava e no resolvia. Encostado  janela que dava para a rua, vendo a 
chuva que caa de manso, fumava, as mais das vezes esquecido o cigarro entre os dedos nervosos.
         Do quarto contguo, o filho chamou. Pousou o cigarro num cinzeiro e foi atend-lo:
          Que queres?
          Tenho sede...
         Sobre a mesa de cabeceira estava um copo de gua fervida. Soergueu o filho e deu-lha a beber. 
Henrique engolia devagar, o rosto crispado pelas dores. Parecia to frgil, enfraquecido como estava pelo 
jejum forado, que Emlio sentiu o corao apertar-se-lhe numa angstia sbita. Que culpa tem esta 
criana?, perguntou a si mesmo. E que culpa tenho eu? J saciado, o filho deixou-se recair na cama e 
agradeceu com um sorriso. Emlio no voltou  janela. Sentou-se na beira da cama, silencioso, a olhar o filho. 
Ao princpio, Henrique retribuiu o olhar do pai e parecia contente por v-lo ali. Da a momentos, porm, 
Emlio percebeu que o estava constrangendo. Desviou os olhos e fez um movimento para levantar-se. No 
mesmo instante, alguma coisa o deteve. Um pensamento novo se lhe propusera no crebro. (E seria novo? 
No teria sido mil vezes afastado, por importuno?) Por que se sentia to pouco  vontade junto do filho? Por 
que razo o filho no parecia, decididamente no parecia, estar  vontade junto dele? Que  que os afastava? 
Tirou o mao de cigarros. Tornou a guard-lo porque se lembrou de que o fumo faria mal  garganta de 
Henrique. Podia ir fumar para outro lado, mas no saiu dali. Olhou, de novo, a criana. Bruscamente, 
perguntou:
          Gostas de mim, Henrique?
         A pergunta era to inslita que a criana respondeu, sem convico:
          Gosto...
          Muito?
          Muito.
Palavras, pensou Emlio. Tudo isto so palavras. Se eu morresse agora, daqui por um ano j no 
se lembraria de mim.
         Os ps de Henrique erguiam a roupa da cama junto de si. Apertou-os num gesto carinhoso mas 
distrado. A criana achou graa e riu, um riso cuidadoso para no magoar a garganta. O aperto tornou-se 
mais violento. Como o pai parecia estar contente, Henrique no se queixou, mas ficou aliviado quando ele 
tirou a mo.
          Se eu me fosse embora, tinhas pena?
          Tinha...  murmurou o filho, perplexo.
          Depois, esquecias-te de mim...
          No sei.
         Que outra resposta devia esperar? Claro que a criana no sabia se viria a esquecer. Ningum sabe se 
esquece antes de esquecer. Se fosse possvel sab-lo antes, muitas coisas de soluo difcil a teriam fcil. De 
novo as mos de Emlio se moveram na direo da algibeira onde guardava o tabaco. A meio do movimento, 
porm, retraram-se, perderam-se  como que se esqueceram do que iam fazer. E no s as mos 
denunciavam perplexidade. O rosto era o de algum que chega a uma encruzilhada onde no h indicaes de 
direo ou onde os letreiros esto escritos numa lngua desconhecida. Ao redor, o deserto, ningum que nos 
diga: por aqui.
         Henrique mirava o pai com olhos curiosos. Nunca o vira assim. Nunca lhe ouvira aquelas perguntas.
         As mos de Emlio ergueram-se devagar, firmes e decididas. Abertas, as palmas para cima, 
confirmavam o que a boca comeava a pronunciar:
          Esquecias-te, com certeza...
         Deteve-se um segundo, mas uma vontade irreprimvel de falar afastou a hesitao. No tinha a 
certeza de que o filho o entendesse, nem isso importava. Desejava mesmo que ele no compreendesse. No 
escolheria palavras que estivessem ao alcance da compreenso da criana. O que era indispensvel era falar, 
falar, at dizer tudo ou no saber que mais dizer:
 Esquecias-te, sim. Tenho a certeza. Daqui por um ano j no te lembrarias de mim. At antes. 
Trezentos e sessenta e cinco dias de ausncia e a minha cara seria, para ti, uma coisa passada. Mais tarde, 
ainda que visses o meu retrato no te lembrarias da minha cara. E se mais tempo passasse, no me 
reconhecerias ainda que me visses diante de ti. Nada te diria que sou teu pai. Para ti, sou um homem que vs 
todos os dias, que te d gua quando ests doente e tens sede, um homem a quem a me trata por tu, um 
homem com quem a me dorme. Gostas de mim porque me vs todos os dias. No gostas de mim pelo que 
sou, gostas pelo que fao ou no fao. No sabes quem sou. Se me tivessem trocado por outro quando 
nasceste, no darias pela troca e havias de gostar dele como gostas de mim. E, se eu um dia voltasse, 
precisarias de muito tempo para te habituares a mim, ou, talvez, apesar de eu ser teu pai, preferisses o outro. 
Tambm o verias todos os dias, tambm ele te levaria ao cinema...
         Emlio falara quase sem pausas, os olhos afastados do rosto do filho. Incapaz de resistir agora ao 
desejo de fumar, acendeu um cigarro. De relance, olhou o filho. Viu-o com cara de pasmo e teve pena dele. 
Mas ainda no tinha acabado:
 No sabes quem eu sou e nunca sabers. Ningum sabe... Tambm no sei quem s. No nos 
conhecemos... Podia ir-me embora, que s perderias o po que ganho...
         O que queria dizer no era, afinal, isto. Aspirou profundamente o fumo e continuou a falar. Enquanto 
proferia as palavras, o fumo ia saindo misturado com elas, em jatos, conforme as articulava. Henrique 
observava, com ateno, a sada do fumo, completamente alheio ao que o pai dizia:
 Quando fores crescido, hs de querer ser feliz. Por enquanto no pensas nisso e  por isso mesmo 
que o s. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixars de s-lo. Para nunca mais! Talvez para nunca 
mais!... Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz sers. A 
felicidade no  coisa que se conquiste. Ho de dizer-te que sim. No acredites. A felicidade  ou no .
         Tambm isto o levava para longe do seu objetivo. Voltou a olhar para o filho. As plpebras estavam 
cerradas, o rosto tranquilo, a respirao calma e igual. Adormecera. Ento, em voz muito baixa, os olhos 
pregados no rosto da criana, murmurou:
 Sou infeliz, Henrique, sou muito infeliz. Vou-me embora um dia destes. No sei quando, mas sei 
que irei. A felicidade no se conquista, mas quero conquist-la. Aqui j no posso. Morreu tudo... A minha 
vida falhou. Vivo nesta casa como um estranho. Gosto de ti e da tua me, talvez, mas falta-me qualquer coisa. 
Vivo como numa priso. Depois, estas cenas, esta... Tudo isto, enfim... Vou-me embora qualquer dia...
         Henrique dormia profundamente. Uma madeixa dos seus louros cabelos caa-lhe para a testa. Pela 
boca entreaberta espreitava o brilho dos dentes pequeninos. Em toda a face havia a sombra de um sorriso.
         Subitamente, Emlio sentiu os olhos inundados de lgrimas. No sabia por que chorava. O cigarro 
queimou-lhe os dedos e distraiu-o. Voltou  janela. A chuva persistia, montona e sossegada. Pensando no 
que dissera, achou-se ridculo. E imprudente, tambm. O filho percebera, sem dvida, alguma coisa. Podia 
dizer  me. No tinha medo, evidentemente, mas no desejava cenas. Mais ralhos, mais lgrimas, mais 
protestos  no! Estava cansado. Cansado, ouviste, Carmen?
         Na rua, rente  janela, passou o vulto da mulher, mal encoberto pelo guarda-chuva. Emlio repetiu, 
em voz alta:
          Cansado, ouviste, Carmen?
         Foi  sala de jantar buscar a mala. Carmen entrou. Despediram-se com frieza. Pareceu a ela que o 
marido sara com rapidez suspeita. E desconfiou de que alguma coisa se passara. No quarto do filho nada lhe 
feriu a ateno. Passou ao outro quarto  e descobriu imediatamente. Sobre o toucador, ao lado do cinzeiro, 
estava o morro de um cigarro. Afastando a cinza, viu a mancha negra da madeira carbonizada. A sua 
indignao foi to forte que lhe brotou dos lbios em palavras violentas. O desgosto extravasou. Lamentou o 
mvel, a sua sorte, a sua negra vida. Tudo isto foi j murmurado entre pequenos soluos e fungadelas. Olhou 
em volta, temerosa de mais estragos. Depois, demorando no toucador um olhar de amor e desalento, voltou  
cozinha.
         Enquanto procedia aos preparativos do almoo, ia tecendo as frases que diria ao marido. Que ele no 
cuidasse que o caso ficava assim! Havia de ouvir o que o diabo nunca ouviu. Se queria estragar, estragasse o 
que lhe pertencia, no a moblia de quarto que fora comprada com o dinheiro dos pais dela. To bem 
agradecia, o ingrato!
 Estragar, estragar, estragar tudo...  murmurava, da chamin para a mesa e da mesa para a 
chamin.   s o que sabe fazer!
         E vinha, ento, o senhor Emlio Fonseca, com grandes palavreados!... Razo tinha o pai, que 
desaprovara aquele casamento. Por que no casara antes com o primo Manolo que tinha a fbrica de escovas 
em Vigo? Podia ser agora uma senhora, dona de fbrica, com criadas s ordens!... Parva, parva! Maldita a 
hora em que se lembrara de vir a Portugal, passar uma temporada em casa da tia Micaela! Fora um sucesso no 
bairro! Eram todos a ver quem namorava a espanhola!... Isso  que a perdera. Gostara de saber-se requestada, 
mais requestada que na sua terra, e ali tinha as consequncias da sua cegueira. O pai bem avisara: Carmen, 
eso no es hombre bueno!... Fechara os ouvidos aos conselhos, fizera finca-p, recusara o primo Manolo e a 
fbrica de escovas...
         Parou no meio da cozinha para enxugar uma lgrima. J no via o primo Manolo h quase seis anos 
e sentiu saudades. Chorou o bem que perdera. Seria agora dona de fbrica: Manolo sempre gostara muito 
dela. Ah, disgraciada, disgraciada!...
         Henrique chamou do quarto. Acordara subitamente. Carmen acorreu:
          Qu tienes, qu tienes?
          O paizinho foi-se embora?
          Foi.
         Os lbios de Henrique comearam a tremer, a tremer, e um choro lento e sumido se ergueu, ante o 
pasmo da me, ao mesmo tempo despeitada e aflita.
 


         

         XII

         Sobre a banca estavam uns sapatos desventrados que clamavam por conserto, mas Silvestre fez vista 
grossa e pegou no jornal. Lia-o de fio a pavio, desde o artigo de fundo s desordens e agresses. Andava 
sempre em dia com os acontecimentos internacionais, acompanhava-lhes a evoluo e tinha os seus palpites. 
Quando se enganava, quando, tendo previsto branco, saa preto, atribua as culpas ao jornal, que nunca 
publica o mais importante, que troca ou esquece notcias, sabe l o diabo com que intenes! Hoje, o jornal 
no vinha pior nem melhor que o costume, mas Silvestre no pde suport-lo. De vez em quando, olhava para 
o relgio, impaciente. Fazia galhofa consigo mesmo e voltava ao jornal. Procurou interessar-se pela situao 
poltica da Frana e pela guerra da Indochina, mas os olhos deslizavam pelas linhas impressas e o crebro no 
apreendia o sentido das palavras. Baixou o jornal, de repelo, e chamou a mulher.
         Mariana apareceu  porta, quase a tapando com o seu vulto espesso. Vinha limpando as mos, 
acabara de lavar a loia.
          Aquele relgio est certo?  perguntou o marido.
         Com um vagar enervante, Mariana apreciou a posio dos ponteiros:
          Acho que sim...
          Uhm...
         A mulher esperou que ele dissesse alguma coisa, visto aquele resmungo no ter significao 
aparente. Silvestre deitou mos ao jornal, desta vez com raiva. Sentia-se observado e reconhecia que a sua 
ansiedade tinha alguma coisa de ridculo ou, pelo menos, de infantil:
          Deixa l, que o rapaz vem...  sorriu Mariana.
         Silvestre levantou a cabea, bruscamente:
          Qual rapaz? Ora essa! O que menos importa  o rapaz!...
          Ento, por que ests assim nervoso?
          Nervoso, eu?  boa!
         O sorriso de Mariana era maior e mais divertido. Silvestre caiu em si, notou que a sua indignao era 
excessiva e sem nada que a justificasse, e sorriu tambm:
          O diabo do rapaz!... Embruxou-me!
 Ora, embruxou-te!... Apanhou-te o fraco, o joguinho de damas... Ests perdido!  e voltou  
cozinha, para engomar alguma roupa.
         O sapateiro encolheu os ombros, bem-disposto, olhou uma vez mais o relgio e enrolou um cigarro 
para entreter a espera. Passou meia hora. Eram quase dez horas. Silvestre j pensava que no teria outro 
remdio seno pegar nos sapatos, quando a campainha tocou. A porta da sala de jantar, onde se encontrava, 
dava para o corredor. Pegou no jornal, deu ao rosto uma expresso atenta, fingiu-se alheado de quem entrava. 
Mas, interiormente, sorria de contentamento. Abel passou no corredor:
 Boa noite, senhor Silvestre  e seguiu corredor fora, para o quarto.
 Boa noite, senhor Abel  respondeu Silvestre, e imediatamente largou, uma vez mais, o fatigado 
jornal, e correu a preparar o velho tabuleiro de damas.
         Abel, logo que entrou no quarto, ps-se  vontade. Enfiou umas calas velhas, substituiu os sapatos 
por umas alpargatas e despiu o casaco. Abriu a mala onde guardava os livros, escolheu um que colocou em 
cima da cama e preparou-se para trabalhar. Outro qualquer no chamaria quilo trabalho, mas Abel assim o 
considerava. Tinha diante de si o segundo volume de uma traduo francesa de Os Irmos Karamazov, que 
estava relendo para esclarecer alguns juzos resultantes da primeira leitura. Antes de sentar-se, procurou o 
tabaco. No encontrou. Tinha fumado tudo e esquecera-se de comprar. Saiu do quarto, disposto a molhar-se 
outra vez para no ficar sem tabaco. Ao passar diante da porta da casa de jantar, ouviu Silvestre perguntar:
          Vai sair, senhor Abel?
         Sorriu e explicou:
          Estou sem tabaco. Vou ali  taberna ver se h.
          Eu tenho aqui. No sei  se gosta.  de ona...
         Abel no fez cerimnia:
          Para mim, qualquer coisa serve. Estou habituado a tudo.
 Sirva-se, sirva-se!  exclamou Silvestre, estendendo-lhe a ona e o livro das mortalhas.
         No movimento que fez deixou ver o tabuleiro que at a ocultara. Abel olhou rapidamente para o 
sapateiro e surpreendeu-lhe nos olhos uma expresso de mgoa. Com presteza, enrolou um cigarro ante o 
olhar crtico de Silvestre, e acendeu-o. Por orgulho, o sapateiro procurava, agora, esconder o tabuleiro de 
damas com o corpo. Abel viu que a fruteira de vidro, que habitualmente estava ao centro da mesa, fora 
desviada para um lado e que defronte do lugar de Silvestre havia uma cadeira vazia. Compreendeu que a 
cadeira lhe era destinada. Murmurou:
 Estava a apetecer-me um joguinho. Est disposto, senhor Silvestre?
         O sapateiro sentiu um formigueiro na ponta do nariz, sinal certo de comoo. Naquele momento, 
teve a certeza de que se tornara muito amigo de Abel, sem bem saber o motivo. Respondeu:
          Eu at estava para lhe falar nisso...
         Abel foi ao quarto, guardou o livro e regressou a Silvestre.
         O sapateiro j dispusera as pedras, colocara o cinzeiro em boa posio para Abel lhe chegar, fora at 
ao ponto de deslocar a mesa de modo que a luz, vinda do teto, no achasse no seu caminho obstculos que 
lanassem sombras no tabuleiro.
         Comearam a jogar. Silvestre estava radiante. Abel, menos demonstrativo, refletia o contentamento 
do outro, mas no deixava de observ-lo com ateno.
         Mariana acabou o seu trabalho e foi-se deitar. Os dois ficaram. Perto da meia-noite, ao terminar um 
jogo em que fora particularmente infeliz, Abel declarou:
 Por hoje, basta! O senhor Silvestre joga muito melhor que eu. Para lio, j chega!...
         Silvestre fez um trejeito de deceo, mas no foi alm disso. Reconheceu que j tinham jogado 
muito, que era boa ideia pararem. Abel deitou mo ao tabaco, preparou novo cigarro e perguntou, enquanto 
mirava a sala onde estavam:
          J mora aqui h muito tempo, senhor Silvestre?
 H uns bons vinte anos. Sou o inquilino mais antigo do prdio.
          Conhece os outros inquilinos todos, claro?!...
          Conheo, conheo.
           boa gente?
 Uns melhores, outros piores. Como em toda a parte, no fim de contas...
          Sim. Como em toda a parte.
         Distraidamente, Abel comeou a empilhar as pedras do jogo, alternando as brancas com as pretas. 
Em seguida, desmanchou a pilha e perguntou:
          Este aqui do lado, pelos vistos, no  dos melhores?
 Ele no  mau homem. Calado... No gosto dos homens calados, mas este no  mau. Ela  que  
uma vbora. E galega, ainda por cima...
          Galega? Mas que tem isso?
         Silvestre arrependeu-se do modo depreciativo como pronunciara a palavra:
 Isto  um modo de dizer. Mas bem conhece o ditado: De Espanha, nem bom vento, nem bom 
casamento...
 Ah, sim! Parece-lhe, ento, que eles no se do bem?...
 Tenho a certeza. Ele mal se ouve, mas ela berra como uma cab..., quer dizer, fala muito alto...
         O rapaz sorriu ao embarao de Silvestre e ao seu cuidado na escolha do vocabulrio:
          E os outros?
 No primeiro esquerdo mora uma gente que eu no percebo. Ele trabalha no Notcias e  um 
brutamontes. Desculpe, mas  mesmo assim. Ela, coitada, desde que a conheo parece que est para morrer. 
De dia para dia se v mais chupada...
           doente?
  diabtica. Foi o que ela disse  minha Mariana. Mas ali, ou eu me engano muito, ou anda 
tuberculose garantida. J a filha morreu com uma meningite. Desde a, a me parece que envelheceu trinta 
anos. Deve ser gente infeliz, no meu entender. Ela... Quanto a ele, j o disse,  uma besta. Arranjo-lhe os 
sapatos porque preciso de ganhar a vida, mas a minha vontade...
          E ao lado?
         Silvestre teve um sorriso malicioso: julgou compreender que o interesse do hspede pelos vizinhos 
era um pretexto para saber coisas da vizinha de cima. Mas ficou atrapalhado ao ouvi-lo acrescentar:
          Bom. Essa j eu sei. E os do ltimo andar?
         O sapateiro achou que era excessiva curiosidade. No entanto, Abel, embora fazendo perguntas, no 
parecia muito interessado.
 No ltimo andar... No lado direito mora um sujeito com que eu embirro. Virado de pernas para o ar 
no deitaria um tosto, mas quem o v julga ver um... um capitalista...
 Parece que o senhor Silvestre no gosta dos capitalistas  sorriu Abel.
         A desconfiana fez recuar Silvestre. Articulou, devagar:
          No gosto... nem desgosto...  um modo de falar...
         Abel no deu mostras de ter ouvido:
          E o resto da famlia?
 A mulher  uma parva. O seu Anselmo para aqui, o seu Anselmo para acol... A filha, c no meu 
fraco entender, tem um saco cheio de dores de cabea para dar aos pais. E como eles so uns babosos por ela, 
pior...
          Que idade tem ela?
 Deve andar pelos vinte. C no prdio chamam-lhe Claudinha. Oxal eu me engane...
          E no outro lado?
 No outro lado moram quatro senhoras. Gente de muito respeito. Em tempos, parece que viveram 
bem. Depois, uns azares...  gente educada. No andam a pelos patamares a dizer mal dos outros, e isso j  
de admirar. Metidas consigo...
         Abel entretinha-se agora a dispor as pedras em quadrado. Como o sapateiro se calara, levantou os 
olhos para ele,  espera. Mas Silvestre no estava disposto a falar mais. Parecia-lhe haver uma inteno 
reservada nas perguntas do hspede e, embora no que dissera nada houvesse de comprometedor, j estava 
arrependido de ter falado tanto. Vinham-lhe  lembrana as suas primeiras suspeitas e censurava-se pela sua 
boa-f. A observao de Abel acerca dos capitalistas parecia-lhe capciosa e cheia de armadilhas.
         O silncio incomodava Silvestre e isso perturbava-o, tanto mais que o hspede mostrava um perfeito 
-vontade. As pedras alinhavam-se agora a todo o comprimento da mesa, como alpondras na corrente de um 
rio. A infantilidade do entretenimento irritava Silvestre. Quando o silncio j era insuportvel, Abel reuniu as 
pedras no tabuleiro com um cuidado enervante e, subitamente, deixou cair uma pergunta:
 Por que  que o senhor Silvestre no foi informar-se a meu respeito?
         A pergunta vinha to completamente ao encontro dos pensamentos de Silvestre, que este ficou 
aturdido nos primeiros segundos e sem resposta pronta. Para ganhar tempo no encontrou nada melhor que 
tirar dois copos e uma garrafa de um armrio, e perguntar:
          Gosta de ginja?
          Gosto.
          Com elas ou sem elas?
          Com elas.
         Enquanto matutava na resposta, ia enchendo os copos, mas como a extrao das ginjas lhe absorvia a 
ateno chegou ao fim sem saber que responder. Abel cheirou a aguardente e disse com inocncia:
          Ainda no respondeu  minha pergunta...
 Ah! A sua pergunta!...  A atrapalhao de Silvestre era evidente.  No fui informar-me porque 
pensei... porque pensei que no era preciso...
         Deu a estas palavras uma intonao tal, que um ouvido atento compreenderia que insinuava uma 
suspeita. Abel compreendeu:
          E ainda pensa assim?
         Sentindo que estava a ser levado  parede, Silvestre tentou passar ao ataque:
          O senhor Abel parece que adivinha os pensamentos alheios...
 Tenho o hbito de ouvir todas as palavras que me so ditas e de dar ateno  maneira como so 
ditas. No  difcil... Afinal,  verdade, ou no, que desconfia de mim?
          Mas por que havia de desconfiar de si?
 Estou  espera que mo diga. Dei-lhe uma oportunidade de saber quem sou. No quis aproveit-la... 
 Sorveu a aguardente, deu um estalinho com a lngua e perguntou, com os olhos risonhos fitos em Silvestre: 
 Ou prefere que seja eu a dizer-lhe?
         Com a curiosidade subitamente dispersa, Silvestre no pde reprimir o movimento para a frente que 
a denunciou. Com o mesmo ar malicioso, Abel atirou nova pergunta:
          Mas quem lhe diz que no vou engan-lo?
         O sapateiro sentiu-se como deve sentir-se o rato entre as patas do gato. Veio-lhe uma vontade de 
pr o rapaz no seu lugar, mas essa vontade quebrou-se-lhe e ele no soube que dizer. Como se no 
esperasse resposta s duas perguntas, Abel comeou:
 Gosto de si, senhor Silvestre. Gosto da sua casa e da sua mulher e sinto-me bem aqui. Talvez no 
esteja c muito tempo, mas quando me for embora hei de levar boas recordaes. Notei, desde o primeiro dia, 
que o meu amigo... D-me licena que o trate assim?
         Silvestre, ocupado em espremer a ginja entre a lngua e os dentes, acenou afirmativamente.
 Obrigado  respondeu Abel.  Notei uma certa desconfiana em si, principalmente nos seus 
olhares. Seja ela qual for, parece-me conveniente dizer-lhe quem sou.  certo que, a par dessa desconfiana, 
havia, como dizer?, havia uma cordialidade que me sensibilizou. Ainda agora estou a ver essa cordialidade e 
essa desconfiana...
         A expresso fisionmica de Silvestre transformou-se. Passou pela cordialidade e pela desconfiana 
sem misturas, e acabou por fixar-se como antes. Abel assistiu a este pr e tirar de mscaras, com um sorriso 
divertido:
  como lhe digo. L esto elas... Quando acabar a minha histria, espero ver apenas a cordialidade. 
Vamos  histria. D-me licena que me sirva do seu tabaco mais uma vez?
         Silvestre j no tinha a ginja na boca, mas no achou necessrio responder. Sentia-se um 
poucochinho melindrado com a sem-cerimnia do rapaz e receava ser agressivo se lhe respondesse.
 A histria  um pouco comprida  comeou Abel, depois de ter acendido o cigarro  mas eu 
abreviarei. J  tarde e no quero abusar da sua pacincia... Tenho vinte e oito anos, no fiz o servio militar. 
Profisso certa no a tenho, ver-se- j porqu. Sou livre e s, conheo os perigos e as vantagens da liberdade 
e da solido e dou-me bem com eles. Vivo assim h doze anos, desde os dezasseis. As minhas recordaes da 
infncia no interessam para aqui, at porque ainda no sou bastante velho para ter gosto em cont-las, e 
tambm porque nada ajudariam  sua desconfiana ou  sua cordialidade. Fui bom aluno na escola primria e 
no liceu. Consegui ser apreciado por colegas e professores, o que  raro. No havia em mim, asseguro-lho, a 
menor sombra de clculo: no lisonjeava os professores nem me subordinava aos camaradas. Cheguei assim 
aos dezasseis anos, altura em que... Ainda no lhe disse que era filho nico e vivia com meus pais. Suponha 
agora o que quiser. Suponha que eles morreram num desastre ou que se separaram por no poderem viver um 
com o outro. Escolha. De qualquer modo, vem a dar no mesmo: fiquei sozinho. Dir-me-, se optou pela 
segunda hiptese, que poderia ter ficado a viver com um deles. Sendo assim (estamos nessa hiptese), 
suponha que no quis ficar com nenhum deles. Talvez por no os amar. Talvez por amar igualmente os dois e 
ser incapaz de escolher entre eles. Pense o que quiser, porque, repito, vem a dar no mesmo: fiquei sozinho. 
Aos dezasseis anos (lembra-se?), aos dezasseis anos a vida  uma coisa maravilhosa, pelo menos para 
algumas pessoas. Vejo na sua cara que, nessa idade, a vida j no tinha nada de maravilhoso para si. Tinha-o 
para mim, infelizmente, e digo infelizmente porque isso no me ajudou. Abandonei o liceu e procurei 
trabalho. Parentes da provncia quiseram que eu fosse viver com eles. Recusei. Tinha mordido com gana o 
fruto da liberdade e da solido e no estava disposto a consentir que mo tirassem. Ainda no sabia, nessa 
altura, que esse fruto tem bocados bem amargos... Estou a aborrec-lo?
         Silvestre cruzou os braos musculosos sobre o peito e respondeu:
          No, bem sabe que no.
         Abel sorriu.
 Tem razo. Vamos adiante. Para um rapaz que nada sabe aos dezasseis anos, e o que eu sabia era o 
mesmo que nada, e est disposto a viver sozinho, arranjar trabalho no  coisa fcil, ainda que no se ponha a 
escolher. Eu no escolhi. Agarrei-me ao que apareceu primeiro, e o que apareceu primeiro foi um anncio 
onde se pedia um empregado para uma pastelaria. Havia bastantes pretendentes, soube-o depois, mas o dono 
da loja escolheu-me. Tive sorte. Talvez influsse na escolha o meu fato limpo e os meus modos corteses. Fiz 
mais tarde a contraprova, quando quis arranjar novo emprego. Apresentei-me sujo e mal-educado... Foi a 
conta, como se diz em calo. Nem para mim olharam. O ordenado chegava,  justa, para morrer de fome. Mas 
eu tinha as reservas acumuladas durante dezasseis anos de bom tratamento e aguentei-me. Quando as reservas 
se esgotaram, no achei outra soluo que no fosse completar as refeies com os bolos do patro. Hoje no 
posso ver um bolo sem ter vontade de vomitar. Pode dar-me outra ginja?
         Silvestre encheu o copo. Abel molhou os lbios e prosseguiu:
  claro que no chegaria a noite toda, se eu continuasse com estes pormenores. J passa da uma 
hora e ainda vou no primeiro emprego. Tive muitos, e aqui est por que lhe disse que no tinha profisso 
certa. Presentemente, sou apontador numa obra, ali para o Areeiro. Amanh, no sei o que serei. Talvez 
desempregado. No seria a primeira vez... Ignoro se sabe o que  estar sem trabalho, sem dinheiro e sem casa. 
Eu sei. Uma das vezes em que isso aconteceu coincidiu com a inspeo para o servio militar. O meu estado 
de depauperamento fsico era de tal modo grave que me reprovaram. Fui um dos que a Ptria no quis... No 
me importei, declaro-lhe francamente, embora a comida e a cama garantidas tivessem as suas vantagens. 
Consegui, pouco tempo depois, empregar-me. Vai rir-se se lhe disser em qu. Fui propagandista de um ch 
maravilhoso que curava todas as doenas... No achou graa? Pois acharia, se me ouvisse falar. Nunca menti 
tanto na minha vida e no supunha ser to grande o nmero de pessoas dispostas a acreditar em mentiras. 
Corri uma boa parte do pas, vendi o meu ch milagroso a pessoas que me acreditavam. Nunca tive remorsos. 
O ch no fazia mal, isso posso eu assegurar, e as minhas palavras davam tanta esperana a quem o comprava 
que desconfio que ainda me ficavam a dever dinheiro. At porque no h dinheiro que pague uma esperana...
         Silvestre balanou lentamente a cabea, concordando.
 D-me razo, no  verdade? Ora, a est. Contar-lhe mais da minha vida  quase intil. Passei 
fome e frio algumas vezes. Tive momentos de fartura e momentos de privao. Comi como um lobo que no 
sabe se caar no dia seguinte, e jejuei como se me tivesse comprometido a morrer de fome. E aqui estou. 
Morei em todos os bairros da cidade. Dormi em dormitrios coletivos onde as pulgas e os percevejos podem 
contar-se aos milhares. J tive umas aparncias de lar com algumas boas raparigas que as h, aos centos, por 
essa Lisboa fora. No falando dos bolos do meu primeiro patro, nunca roubei seno uma vez. Foi no Jardim 
da Estrela. Tinha fome. Eu, que sei alguma coisa do assunto, posso dizer que nunca tinha chegado quele 
ponto. Aproximou-se de mim a mais linda rapariga que jamais vi. No, no  o que est a pensar... Era uma 
garota de uns quatro anos, no mais. E se lhe chamo bonita , talvez, para compens-la do roubo. Trazia uma 
fatia de po com manteiga, quase intacta. Os pais ou a criada deviam estar perto. Nem nisso pensei. Ela no 
gritou, no chorou, e eu, da a momentos, estava atrs da igreja a morder o meu po com manteiga...
         Havia um brilho de lgrimas nos olhos de Silvestre.
 Tambm nunca deixei de pagar a renda dos quartos que aluguei. Digo-lhe isto para o tranquilizar...
         O sapateiro encolheu os ombros, com indiferena. Desejava que Abel continuasse a falar porque 
gostava de ouvi-lo, mas, sobretudo, porque no sabia que responder. Queria,  certo, fazer uma pergunta, mas 
receava que fosse cedo de mais. Abel antecipou-se:
  a segunda vez que conto isto a algum. A primeira foi a uma mulher. Julguei que ela 
compreendesse, mas as mulheres no compreendem nada. Enganei-me. Ela queria um lar definitivo e julgou 
que me prendia. Enganou-se. Contei-lhe agora a si, nem sei porqu. Talvez porque gosto da sua cara, talvez 
porque desde a primeira vez que falei nisto j passaram alguns anos e tinha necessidade de desabafar. Ou 
talvez por outra razo qualquer... No sei...
 Contou para que eu deixasse de desconfiar  respondeu Silvestre.
 Ah, no! Quantos desconfiaram e ficaram ignorantes!... Foi talvez a hora, o nosso jogo de damas, o 
livro que eu estaria agora a ler se no tivesse vindo para aqui, sei l!... Fosse o que fosse, j sabe.
         Silvestre coou com as duas mos a grenha emaranhada. Depois encheu o copo e despejou-o de um 
trago. Limpou a boca s costas da mo e perguntou:
          Por que  que vive assim? Desculpe, se sou indiscreto...
 No  indiscreto. Vivo assim porque quero. Vivo assim porque no quero viver de outro modo. A 
vida como os outros a entendem no tem valor para mim. No gosto de ser agarrado e a vida  um polvo de 
muitos tentculos. Um s, basta para prender um homem. Quando me sinto preso, corto o tentculo. s vezes, 
faz doer, mas no h outro remdio. Compreende?
          Compreendo muito bem. Mas isso no leva a nada de til.
          A utilidade no me preocupa.
          Com certeza provocou desgostos...
 Fiz o possvel para que isso no acontecesse. Mas quando aconteceu, no hesitei.
           duro!
 Duro? No. Sou frgil, acredite. E  a certeza da minha fragilidade que me leva a furtar o corpo aos 
laos. Se me dou, se me deixo prender, estou perdido.
          At um dia... Eu sou velho. Tenho experincia...
          Tambm eu.
          Mas a minha  a dos anos...
          E que lhe diz ela?
 Que a vida tem muitos tentculos, como disse h bocado. E, por mais que se cortem, h sempre um 
que fica e esse acaba por agarrar.
          No o julgava to... como dizer?...
 Filsofo? Todos os sapateiros tm um pouco de filsofos. Houve j quem o dissesse...
         Ambos sorriram. Abel olhou o relgio:
 Duas horas, senhor Silvestre. So mais que horas de deitar. Mas, antes, quero dizer-lhe outra coisa. 
Comecei a viver assim por capricho, continuei por convico e continuo por curiosidade.
          No percebo.
 J vai perceber. Tenho a sensao de que a vida est por detrs de uma cortina, a rir s gargalhadas 
dos nossos esforos para conhec-la. Eu quero conhec-la.
         Silvestre teve um sorriso manso, onde havia uma pontinha de desalento:
 H tanto para fazer para c da cortina, meu amigo... Mesmo que vivesse mil anos e tivesse as 
experincias de todos os homens, no conseguiria conhecer a vida!
  possvel que tenha razo. Mas ainda  cedo para desistir...
         Levantou-se e estendeu a mo a Silvestre:
          At amanh!
          At amanh... meu amigo.
         Sozinho, Silvestre enrolou, vagarosamente, um cigarro. Tinha nos lbios o mesmo sorriso manso e 
fatigado. Os olhos fixavam-se no tampo da mesa, como se nela se movessem figuras de um passado 
longnquo.
 


         

         XIII

         Do dirio de Adriana:
Domingo, 23/3/52, s dez e meia da noite. Choveu todo o dia. Nem parece que estamos na 
primavera. Quando eu era pequena, lembro-me de que os dias de primavera eram bonitos e que comeavam a 
ser bonitos logo no dia 21. J estamos a 23 e no faz seno chover. No sei se  do tempo, mas sinto-me 
maldisposta. No sa de casa. A me e a tia foram a casa das primas de Campolide, depois do almoo. 
Chegaram c todas molhadas. A tia vinha zangada por causa de umas conversas que l houve. No percebi 
nada. Trouxeram uns bolos para ns, mas eu no os comi. A Isaura tambm no quis. O dia foi muito 
aborrecido. A Isaura no largou o livro que anda a ler. Leva-o para toda a parte, at parece que o esconde. Eu 
estive a bordar o meu lenol. A ligao de encaixe com o pano leva muito tempo, mas tambm no h 
pressa... Se calhar nunca chegarei a p-lo na minha cama. Estou triste. Se soubesse, tinha ido com elas a 
Campolide. Antes l, que passar um dia assim. At tenho vontade de chorar. No  por causa da chuva, com 
certeza. Ontem tambm chovia... Tambm no  por causa dele. Ao princpio  que me custava passar os 
domingos sem o ver. Agora, no. J me vou convencendo de que ele no gosta de mim. Se gostasse, no se 
punha com aquelas conversas ao telefone. A no ser que seja para me fazer cimes... Sou muito parva! Como 
h de ele querer fazer-me cimes, se no sabe que gosto dele? E por que razo havia ele de gostar de mim, se 
eu sou feia? Sim, eu sei que sou feia, no preciso que mo digam. Quando olham para mim, sei bem em que 
esto a pensar. Mas valho mais que as outras. O Beethoven tambm era feio, no teve nenhuma mulher que o 
amasse, e foi Beethoven. No precisou que o amassem para fazer o que fez. S precisou de amar e amou. Se 
eu vivesse no tempo dele, era capaz de lhe beijar os ps, e aposto que nenhuma mulher bonita o faria. No meu 
entender, as mulheres bonitas no querem amar, querem ser amadas. Bem sei que a Isaura diz que no 
percebo nada destas coisas. Se calhar  porque no leio romances. A verdade  que ela parece saber tanto 
como eu, apesar de os ler. Acho que l de mais. Ainda hoje, por exemplo. Tinha os olhos vermelhos, parecia 
que tinha chorado. E estava nervosa, como nunca a vi. Em certa altura toquei-lhe num brao, para lhe dizer j 
no sei o qu. Deu um grito que at me assustou. De outra vez, vinha eu do quarto, estava ela a ler. 
(Desconfio que j chegou ao fim do livro e que voltou ao princpio.) Tinha uma cara esquisita, como nunca vi 
a ningum. Parecia que tinha alguma dor, mas, ao mesmo tempo, parecia contente. No era contente que ela 
parecia. No sei explicar. Era como se a dor que tinha lhe desse prazer, ou como se o prazer lhe causasse dor. 
Que trapalhada estou a escrever!... A minha cabea no regula bem hoje. J esto todas deitadas. Vou dormir. 
Que dia to triste! Quem dera amanh!
         Trecho do romance A Religiosa, de Diderot, lido por Isaura nessa mesma noite:
Principiava a impacincia a apossar-se da superiora; perdera a alegria, a gordura, o descanso.
         Na noite seguinte, quando toda a gente dormia e a casa emergia no silncio, levantou-se, e depois de 
ter vagado algum tempo nos corredores, veio  minha cela. Parou.
         Encostando a cabea  porta, provavelmente, fez bastante rudo para me acordar, caso estivesse 
dormindo. Conservei-me silenciosa; como que ouvi uma voz queixar-se, algum que suspirava. Primeiro tive 
um ligeiro calafrio, mas resolvi-me a dizer:
          Av.
         Em lugar de me responderem, afastaram-se com passos ligeiros. Voltaram algum tempo depois; os 
lamentos e os ais recomearam, e pela segunda vez murmurei:
          Av.
         Nova retirada. Sosseguei e adormeci. Entretanto entraram e sentaram-se ao lado do meu leito; as 
cortinas estavam entreabertas. Vinham com uma vela cuja luz me dava no rosto, e quem a trazia viu-me a 
dormir; foi, pelo menos, o que eu julguei da sua atitude. Abri os olhos e deparou-se-me a superiora.
         Ergui-me subitamente, com medo.
          Susana, sossegue, sou eu...
         Deitei a cabea para o travesseiro.
 Que faz a estas horas aqui, querida madre? O que foi que a trouxe? Por que  que no dorme?
 No o conseguiria, ou s o faria sobressaltada. So sonhos terrveis os que me atormentam. Mal 
cerro os olhos, as aflies que tem sofrido reaparecem na minha imaginao; vejo-a nas mos dessas 
desumanas, com os cabelos para o rosto, os ps ensanguentados, uma tocha na mo, a corda ao pescoo. Julgo 
que vo dispor da sua vida e estremeo... Um suor frio espalha-se-me pelo corpo, quero ir em seu auxlio, 
solto gritos, acordo, e inutilmente espero que o sono venha. Foi o que me aconteceu esta noite; temi que o cu 
me anunciasse alguma desgraa sobrevinda  minha amiga; levantei-me, aproximei-me da sua porta e escutei; 
pareceu-me que no dormia. Falou e retirei-me. Vim outra vez, falou de novo e afastei-me. Voltei, e vendo 
que descansava entrei. Havia j algum tempo que estava aqui e receava despert-la; hesitei primeiro se 
correria os cortinados. Queria-me ir para lhe no interromper o repouso, mas no resisti ao desejo de 
contemplar a minha cara Susana... se estava bem. Como  encantadora de ver, quando dorme!
          Quo bondosa , madre!
 Sinto frio, mas agora sei que nada h que recear de molesto para a minha filha e creio que 
dormirei. D-me a sua mo.
         Acedi.
          Como o seu pulso est tranquilo! Nada o agita?
          Tenho um sono sossegado.
          Que feliz !
          Olhe que esfria mais, minha madre.
          Tem razo; adeus, formosa, adeus, vou-me embora.
         Mas no se movia, continuava a olhar-me, e as lgrimas corriam-lhe.
 O que  que tem? chora? que zangada estou de lhe haver contado os meus desgostos!...
         No mesmo instante fechou a porta, apagou a vela e lanou-se sobre mim. Abraava-me, deitava-se 
ao meu lado, o rosto colava-se-me, as lgrimas molhavam-me, e com voz lamentosa, entrecortada:
          Tenha d de mim!
 Mas o que  que sofre? Sente-se doente? Que  preciso que eu faa?
 Tremo, assaltam-me calafrios, e um frio mortal se apodera de mim.
          Quer que me levante e lhe ceda o meu lugar?
 No  preciso, basta que eu me meta a dentro e me aproxime de si. Aquecer-me-ei e fico curada.
 Isso  proibido, madre. Que se diria se o soubessem? Vi religiosas sujeitas  penitncia por coisas 
muito menos graves. Aconteceu no convento de Santa Maria que uma irm foi de noite  cela doutra, era sua 
amiga; e no imagina o que supuseram. O confessor perguntou-me algumas vezes se no me tinham proposto 
o virem dormir comigo, e recomendou-me insistentemente que no consentisse em tal. Falei-lhe mesmo nos 
afagos que recebia de si, que eu acho inocentes, mas ele no pensa o mesmo. Nem sei como esqueci esses 
conselhos. Fazia teno de lhe referir as suas palavras.
 Todos dormem e ningum se inteirar. Sou eu quem recompenso ou castigo, e diga o que disser o 
padre, no vejo que mal h em uma amiga receber a seu lado uma outra que foi assaltada pela inquietao, e 
que desperta, veio, durante a noite e apesar do rigor da estao, ver se a sua estremecida se encontraria em 
algum perigo. Susana no dormia nunca, em casa de seus pais, com alguma das suas irms?
          Nunca.
 E se a ocasio se apresentasse no o teria feito sem escrpulos? Se a sua irm, aterrorizada e 
transida de frio, viesse pedir um lugar junto de si, recusar-lhe-ia?
          Creio que no.
          Pois no sou eu sua me?
          Sim, mas probem-no.
 Sou eu quem o probe s outras e que lho permito e lhe peo a si. Aquentar-me-ei um momento e 
vou-me. A sua mo...
         Obedeci.
          Olhe, apalpe, veja; pareo uma pedra...
         Era verdade.
  porque est doente, minha me. Mas espere, eu retiro-me para l, e coloca-se no stio que eu 
ocupava.
         Assim o fiz, e, levantando a roupa, sentou-se a meu lado.
         Que mal ela estava! Em todos os membros acometera-a um tremor geral; queria falar-me, acercar-se, 
mas no conseguia articular uma palavra, nem podia mover-se.
         Dizia-me em voz baixa:
          Susana, minha amiga, aproxime-se um pouco.
         Estendia os braos e eu virava-lhe as costas. Agarrou-me devagarinho, puxou-me, passando-me o 
brao direito sob o corpo e o outro por cima.
 Estou gelada,  tanto o frio que receio tocar-lhe, fazer-lhe mal.
          No tenha medo, minha madre.
         Colocou uma das mos no meu peito e a outra em volta da cintura; assentara os ps sobre os meus e 
apertava-os para os aquecer.
 Veja como adquiriram calor to prontamente; nada os separa dos seus.
 Mas o que lhe obsta que aquente todo o corpo da mesma maneira?
          Nada, se quiser.
         Voltara-me, ela tirava o fato e eu ia fazer o mesmo, quando, de repente, ouviram-se duas pancadas 
violentas na porta.
         Assustada, sa imediatamente da cama, assim como a superiora. Aplicmos o ouvido, e sentimos que 
algum, na ponta dos ps, se encaminhava para a cela prxima.
  a irm Santa Teresa; viu-a passar no corredor e entrar aqui. Surpreendeu as nossas palavras, oh! 
meu Deus! meu Deus!
         Estava mais morta do que viva.
 Sim,  ela  observou a superiora num tom irritado  no h a menor dvida; ficar-lhe- de 
lembrana por muito tempo o atrevimento.
          No lhe faa mal, querida madre.
 Adeus, Susana, boa noite. Vista-se, durma bem e fica dispensada da reza. Vou  cela dessa 
estouvada. D-me a sua mo...
         Estendi-lha do outro lado da cama, ela levantou a manga que me cobria o brao, beijou-o, 
suspirando, de alto a baixo, depois da extremidade dos dedos at ao ombro, e saiu prometendo que a temerria 
que a interrompera havia de se arrepender.
         Coloquei-me junto da porta e senti-a entrar na cela da irm Teresa.
         Fui tentada a levantar-me e a interpor-me entre as duas, se, por acaso, a cena se tornasse violenta; 
mas, estava to perturbada, to pessimamente disposta, que achei melhor meter-me na cama. Porm, no 
dormi. Pensei que ia tornar-me a fbula da casa, que esta aventura que em si nada apresentava de particular, 
seria contada da maneira mais desfavorvel; que me aconteceria aqui pior do que em Longchamp, onde fui 
acusada no sei de qu; que a nossa falta chegaria ao conhecimento dos superiores, que a nossa madre seria 
deposta, e que tanto a uma como a outra castigar-nos-iam severamente.
         Estava com o ouvido  escuta, esperando com impacincia que a nossa madre sasse da cela da irm 
Teresa; e a coisa foi difcil de acomodar porque passou ali quase toda a noite. 1
         1 Para esta transcrio foi utilizada a traduo de Joo Grave. (N. do A.)

 


         

         XIV

         Na sua slida formao de homem respeitvel, construda ao longo de anos de escassas palavras e 
gestos medidos, Anselmo tinha uma fraqueza: o desporto. Mais exatamente: a estatstica desportiva, limitada, 
por sua vez, ao futebol. Entravam pocas e saam pocas, sem que ele assistisse a um desafio entre equipas de 
clube. No perdia,  certo, os jogos internacionais, e s uma doena grave ou um luto recente podiam impedi-
lo de assistir a um desafio entre Portugal e a Espanha. Sujeitava-se s maiores indignidades para alcanar, no 
mercado negro, um bilhete, e no resistia, quando para tal tinha disponibilidades, a entrar na especulao, 
adquirindo por 20 e vendendo por 50. Tinha, no entanto, o cuidado de no negociar com os colegas do 
escritrio. Para eles, era um sujeito grave que se abria num sorriso irnico ao ouvir as discusses de segunda-
feira, de secretria para secretria. Um homem que tinha olhos apenas para os lados srios da vida, que 
considerava o desporto coisa boa para entreter cios de aprendizes e criados de caf. Era intil contar com ele 
para um esclarecimento, uma transferncia de jogador de clube para clube, uma data clebre dos fastos 
futebolsticos nacionais, a composio de uma equipa na poca de 1920/30. Mas tinha um primo que, coitado, 
dizia, era um doente da bola. Se quisessem, um dia destes, quando o encontrasse, podia perguntar-lhe e 
teriam a resposta infalvel. A expectativa e a ansiedade dos colegas deliciavam-no. Deixava-os esperar dias e 
dias, desculpava-se: no via o primo h bastante tempo, as suas relaes com ele estavam um pouco tensas, o 
primo ficara de consultar os mapas e os registos, enfim, inventava pretextos dilatrios que s exasperavam a 
pacincia dos colegas. Muitas vezes havia apostas em causa. Inflamados benfiquistas e inflamados 
sportinguistas esperavam dos lbios de Anselmo a sentena. Ento, em casa, ao sero, Anselmo procurava nas 
suas estatsticas bem elaboradas, nos seus preciosos recortes de jornais, o desejado esclarecimento, e, no dia 
seguinte, enquanto colocava sobre o nariz os culos que a sua vista cansada exigia, deixava cair, como do alto 
de uma ctedra, a data ou o resultado discutidos. Este admirvel primo contribua para a reputao de 
Anselmo tanto como a sua competncia profissional, o seu ar circunspecto, a sua pontualidade exemplar. Se 
tal primo existisse, Anselmo, apesar do seu domnio das emoes, t-lo-ia abraado, porque fora graas a ele 
(assim o julgavam todos) que pudera dar ao gerente a informao pormenorizada do II Portugal-Espanha, 
desde o nmero dos assistentes ao jogo  constituio das equipas e cor das respetivas camisolas, nome do 
rbitro e juzes de linha. Fora graas a esta informao que conseguira, enfim, ver autorizado o vale, e que, 
consequentemente, guardava na algibeira do casaco as trs notas de cem escudos necessrias aos gastos at ao 
fim do ms.
         Agora, sentado entre a mulher e a filha, ambas costurando nas roupas familiares, Anselmo, com os 
seus mapas estendidos sobre a mesa da casa de jantar, saboreava o triunfo. Deparando-se-lhe uma lacuna nas 
suas informaes acerca dos suplentes selecionados para o III Portugal-Itlia, logo determinou escrever no dia 
seguinte para um jornal desportivo que mantinha consultrio aberto, a fim de se inteirar.
         Infelizmente, no podia esquecer que os trezentos escudos lhe seriam descontados no ordenado desse 
ms, e isso amargava-lhe a alegria do xito. Quando muito, poderia esperar autorizao para amortizaes 
mais suaves do dbito. O pior  que qualquer desconto no vencimento, por pequeno que fosse, lhe 
desarticulava a engrenagem econmica do lar.
         Enquanto Anselmo remoa estes pensamentos, a telefonia irradiava o soluar plangente e lastimoso 
do fado mais desabaladamente lancinante que jamais cantaram gargantas portuguesas. Anselmo, que no era 
piegas, todos o sabiam, comovia-se at s entranhas ao ouvir aquele lamento. Na sua comoo ia muito do seu 
caso pessoal, a terrvel perspetiva do desconto no fim do ms. Roslia suspendera a agulha e reprimia um 
suspiro. Maria Cludia, aparentemente calma, seguia, repetindo-os baixinho, os versos de amor desgraado 
que o alto-falante debitava.
         O que ficou depois do ltimo ai! da cantadeira foi uma atmosfera de tragdia grega, ou, melhor e 
mais atual, o suspense de certa escola cinematogrfica americana. Outro fado assim, e de trs criaturas de 
sade normal restariam trs neurticos. Felizmente, a emissora fechava. Breves notcias do estrangeiro, o 
resumo do programa do dia seguinte  e Roslia aumentou um pouco o volume do som para ouvir as doze 
badaladas da meia-noite.
         Anselmo guardou os culos, passou duas vezes a mo pela calva e declarou, enquanto arrecadava no 
armrio do guarda-loua os seus papis:
  meia-noite. So horas de ir para a cama. Amanh  dia de trabalho.
         A esta frase, todo o mundo se levantou. E isto lisonjeava Anselmo, que nestas pequenas coisas via os 
timos resultados do seu mtodo de educao domstica. Tinha a vaidade de possuir uma famlia que podia 
servir de modelo, e vaidade maior por verificar que todo o mrito provinha de si.
         Maria Cludia deps na face dos pais dois beijos chilreados e foi para o seu quarto. Com o jornal da 
noite pendurado ao longo da perna, para a pequena leitura antes do apagar das luzes, Anselmo meteu pelo 
corredor e foi-se deitar. Roslia ficou ainda, ocupada em arrumar a sua costura e a da filha. Endireitou as 
cadeiras  volta da mesa, mexeu levemente em vrios objetos e, certa de que tudo ficava em ordem, seguiu o 
caminho do marido.
         Quando entrou, ele olhou-a por cima dos culos e continuou a ler. Como todo o cidado portugus, 
tinha predilees clubistas, mas podia, sem se impressionar, ler os relatos de todos os desafios. Dali s lhe 
interessava a matria estatstica. Que jogassem bem ou mal, era com eles. O que importava era saber quem 
metera os golos e quando. O que importava era o que ficava para a histria.
         Segundo um acordo tcito entre os dois, quando Roslia mudava de roupa para se deitar, Anselmo 
no baixava o jornal. Faz-lo, seria, na sua opinio, uma indignidade. Na opinio dela talvez no houvesse 
mal nenhum... Roslia deitou-se sem que o marido lhe visse a ponta dos ps. Assim  que era digno, assim  
que era decente...
         Luz apagada. Do quarto vizinho, um filete luminoso escapava-se, por uma frincha da porta, para o 
corredor. Do seu lugar, Anselmo viu-o e disse:
          Apaga a luz, Claudinha!
         A luz apagou-se segundos depois. Anselmo sorriu no escuro. Era to bom saber-se respeitado e 
obedecido! Mas a escurido  inimiga dos sorrisos, sugere pensamentos graves. Anselmo mexeu-se, 
incomodado. A seu lado, tocando-lhe a todo o comprimento do corpo, o corpo da mulher abandonava-se  
moleza do colcho.
          Que tens tu?  perguntou Roslia.
  o diabo do vale  murmurou o marido.  No fim do ms descontam-mo e l fico outra vez 
entalado.
          No podes descontar em prestaes?
          O gerente no gosta...
         O suspiro represado no peito de Roslia desde o fado abriu caminho e encheu a casa. Anselmo, por 
sua vez, no pde reprimir tambm um suspiro, menos exuberante embora, um suspiro de homem.
 Ainda se te aumentassem o ordenado...  sugeriu Roslia.
          Nem pensar nisso. At falam em despedir pessoal.
          Credo! Oxal no te calhe a ti!...
 A mim?  perguntou Anselmo, como se pela primeira vez pensasse em semelhante eventualidade. 
 A mim, no. Sou dos mais antigos...
 Est tudo to mau por a. S ouo  gente queixar-se.
           da situao internacional...  comeou Anselmo.
         Mas deteve-se. Que interessava agora botar figura com um discurso sobre a situao internacional? 
Assim, s escuras e com o problema do vale para resolver?
 At tenho medo de que despeam a Claudinha. Bem sei que os quinhentos escudos que ela ganha 
pouco adiantam, mas sempre ajudam.
 Quinhentos escudos!... Uma misria!  resmungou Anselmo.
          Pois , mas oxal no nos faltem...
         Calou-se subitamente, empolgada por uma ideia. Ia abrir a boca para exp-la ao marido, mas preferiu 
fazer um rodeio:
 L entre os teus conhecimentos no se arranjaria outra colocao para a pequena?
         Qualquer coisa na voz da mulher despertou em Anselmo suspeitas de armadilha.
          Que queres dizer com isso?  perguntou.
 Que quero dizer?  volveu ela, naturalmente.  A pergunta  muito simples...
         Que a pergunta era simples via Anselmo, mas via tambm que a mulher tinha uma ideia escondida. 
Resolveu no lhe facilitar o caminho:
 E quem  que arranjou o emprego onde ela est? Foste tu, no?
          Mas no se podia arranjar melhor?
         Anselmo no respondeu. Por fora ou por jeito, a mulher havia de deitar c para fora a ideia. Calar-se 
era o processo melhor para a obrigar a isso. Roslia mudou de posio. Ficou voltada para o marido, o ventre 
um pouco obeso encostado ao quadril dele. Quis afastar a ideia, certa como estava de que Anselmo a 
repudiaria com veemncia. Mas a ideia voltava, teimosa e absorvente. Roslia sabia que se a no dissesse no 
dormiria. Tossiu levemente para aclarar a voz, de modo a torn-la audvel no murmrio que se seguiu:
 Lembrei-me... Estou mesmo a ver que te vais zangar... Lembrei-me de falar com a vizinha de 
baixo, a D. Ldia...
         Anselmo viu imediatamente onde a mulher queria chegar, mas preferiu fazer-se desentendido:
          Para qu? No percebo...
         Como se o contacto pudesse diminuir a indignao esperada, Roslia chegou-se mais. Anos atrs o 
movimento teria uma significao totalmente diversa.
 Acho eu... Como nos damos bem, podia ser que ela se interessasse...
          Continuo a no perceber nada.
         Roslia suava. Afastou-se um pouco e, de golpe, sem escolher palavras, concluiu:
 Ela pedia ao sujeito que l vai a casa. Ele  no sei qu de importante numa companhia de seguros 
e talvez arranjasse alguma coisa para a pequena.
         A indignao de Anselmo teria explodido  primeira frase se fosse sincera. Declarou-se no fim, mas 
s no foi mais ruidosa porque a noite pe surdinas nas vozes:
 Parece impossvel que tu te saias com uma dessas! Ento, tu queres que se v pedir tal coisa 
quela... quela mulher? Isso  no ter o sentido da dignidade! No esperava isso de ti!
         Anselmo excedia-se. Tudo estaria certo se, no ntimo, no concordasse com a sugesto. No reparava 
em que, pondo a questo naqueles termos, tornava mais ilgica a sua final aquiescncia e difcil a insistncia 
da mulher.
         Roslia, ofendida, afastou-se. Entre os dois havia agora um pequeno espao que equivalia a lguas. 
Anselmo viu que tinha ido longe de mais. O silncio incomodava ambos. Um e outro sabiam que o assunto 
no estava liquidado, mas calavam-se: ela, pensando na maneira de abord-lo outra vez; ele, procurando o 
meio de no tornar excessivamente custosa a sua rendio, tornada aparentemente impossvel pelas palavras 
que pronunciara. No entanto, ambos sabiam, tambm, que no adormeceriam sem que a questo estivesse 
resolvida. Anselmo deu o primeiro passo:
          Bom...  um caso a ver... Mas custa-me...
 


         

         XV

         Perfeitamente  vontade, como quem est em sua casa, Paulino Morais traou a perna e acendeu uma 
cigarrilha. Agradeceu com um sorriso o gesto de Ldia que lhe aproximara o cinzeiro, e deixou-se recair no 
maple vermelho-escuro, sua propriedade exclusiva naqueles seres. Estava em mangas de camisa. Era gordo, 
de temperamento sanguneo. Os olhos pequenos afloravam o rosto, como que empurrados pelas plpebras 
papudas. As sobrancelhas espessas e retas juntavam-se na nascena do nariz, cujo perfil agressivo era 
atenuado pelo tecido adiposo sobreposto. As orelhas grossas separavam-se do crnio, e os pelos que lhe 
enchiam os ouvidos eram rijos como cerdas. Calvo, penteava-se com o maior cuidado, cobrindo o alto da 
cabea com os cabelos puxados dos parietais, cabelos esses que, para o efeito, deixara crescer at ao 
comprimento necessrio. Tinha o prspero ar do quinquagenrio que possui mulher nova e dinheiro velho. 
Todo o seu rosto, atravs da nuvem perfumada que o envolvia, tinha uma expresso de beatitude, a expresso 
de quem comeu e est digerindo sem dificuldade o que comeu.
         Acabara de contar uma estupenda anedota e apreciava com ar guloso o sorriso de Ldia. E no s o 
sorriso. Estava nos seus dias de boa disposio e isso levava-o a felicitar-se mentalmente pela tima ideia que 
tivera, havia j bastante tempo, para o vesturio com que Ldia o recebia. Um pouco gasto pelos excessos e 
adormentado pela idade, dera-lhe para procurar excitantes, e o vesturio da amante era um deles. Nada de 
fantasioso ou pornogrfico, como conhecia de amigos seus. Tudo simples e natural. Ldia devia receb-lo em 
camisa de noite, amplamente decotada, braos nus e cabelos soltos. A camisa devia ser de seda, nem 
transparente de mais que tudo deixasse ver, nem de menos que tudo ocultasse. O resultado era um jogo de 
claridades e sombras que lhe encandescia o crebro nas noites em que se sentia em forma ou lhe regalava a 
vista nos dias do cansao.
         Ldia, ao princpio, opusera-se, mas depois achara melhor conformar-se. Todos os homens tm as 
suas excentricidades e a deste no era das piores. Cedeu, tanto mais que ele lhe levara um calorfero eltrico. 
Elevada a temperatura do quarto, a ligeireza do fato no provocava constipaes.
         Sentada num banquinho baixo, curvada para o amante, deixava-lhe ver, como ele gostava, os seios 
libertos do soutien. Sabia que s o seu corpo o prendia a ela e mostrava-o. Por enquanto, tinha-o moo e bem 
formado. Exibi-lo ali ou na praia no fazia grande diferena, salvo pelo apimentado do trajo e da posio.
         Quando o sero no ia mais longe que no fosse  sua exibio em trajo sumrio, dava por bem 
empregado o sacrifcio e por razovel o gosto de Paulino Morais. E, se no ficava por a, como sempre 
desejava, resignava-se.
         Vivia por conta dele h trs anos. Conhecia-lhe os tiques, as idiossincrasias, os movimentos. E, 
destes, o que mais receava que ele fizesse era o de, ainda sentado, desabotoar ao mesmo tempo as duas alas 
dos suspensrios. Fazia-o sempre ao mesmo tempo. Ldia sabia o que isso significava. Agora estava tranquila: 
Paulino Morais fumava e, enquanto a cigarrilha durasse, as alas no deixariam os botes.
         Num gesto gracioso que lhe salientava a beleza do pescoo e das espduas, Ldia voltou a cabea 
para o pequeno relgio de faiana. Depois levantou-se, dizendo:
          So horas do teu caf.
         Paulino Morais assentiu. Sobre o mrmore do toucador, a mquina de caf esperava, j com o p no 
reservatrio. Ldia acendeu a lamparina e introduziu-a debaixo do globo que continha a gua. Preparou a 
chvena e o aucareiro. Enquanto ela andava de um lado para o outro no quarto, Paulino Morais seguia-a com 
os olhos. As longas pernas da amante desenhavam-se sob o tecido leve que lhe modelava as ancas em curvas 
voluptuosas. Espreguiou-se interiormente. A cigarrilha estava quase no fim.
          Sabes que me fizeram hoje um pedido?  perguntou Ldia.
          Um pedido?
          Sim. Os vizinhos de cima.
          Que querem eles de ti?
         Debruada para a mquina, Ldia esperava que a gua subisse:
          No  de mim,  de ti.
          Homessa! De que se trata, Lili?
         Ldia estremeceu: Lili era o diminutivo das noites amorosas. A gua comeou a borbulhar, e como se 
fosse chupada de cima, subiu e foi tingir-se no depsito superior. Ldia encheu a chvena, adoou ao gosto de 
Paulino e deu-lha. Sentou-se, de novo, no banco, e respondeu:
 No sei se sabes que eles tm uma filha. Uma pequena de dezanove anos. Est empregada, mas, 
pelo que diz a me, ganha pouco. Vieram ter comigo para te pedir se lhe arranjavas uma colocao.
         Paulino pousou a chvena no brao do maple e acendeu outra cigarrilha:
          Mas tu tens muito interesse em atender o pedido?
          Se no tivesse, no te falaria nele...
  que tenho o quadro do pessoal completo... At tenho gente a mais... Alm disso, no sou s eu a 
mandar...
          Quisesses tu...
          H o conselho de administrao...
          Ora! Quisesses tu...
         Paulino segurou outra vez a chvena e bebeu um gole de caf. Ldia via-o pouco disposto a satisfaz-
la. Sentiu-se um tanto melindrada. Era o primeiro pedido deste gnero que lhe fazia e no via motivo que 
justificasse a recusa. Por outro lado, dada a situao irregular em que vivia e a que toda a gente no prdio 
torcia o nariz, agradava-lhe conseguir o emprego para Maria Cludia, porque isso, espalhado aos quatro 
ventos pela satisfao de Roslia, conferir-lhe-ia um certo prestgio na vizinhana. Pesava-lhe o quase 
isolamento em que a deixavam e se, na verdade, ao receber o pedido, no manifestara grande interesse, agora, 
perante a resistncia do amante, tomava a peito arrancar-lhe o consentimento. Baixou-se mais, como se 
quisesse alisar a pele cor-de-rosa que lhe debruava os sapatinhos do quarto e mostrou, assim, todo o peito 
desnudado:
 Nunca te fiz qualquer pedido destes... Se podes arranjar o que me pediram, devias ouvir-me. 
Fazias-me a vontade e ajudavas uma famlia necessitada.
         Ldia estava exagerando o seu interesse e, tanto quanto podia julgar, exagerava tambm as 
necessidades dos vizinhos do andar de cima. Lanada neste exagero, fez um gesto que, pela sua raridade, 
impressionou Paulino Morais: colocou uma das mos sobre o joelho redondo do amante. As narinas de 
Paulino palpitaram:
 No vejo motivo para te aborreceres. Ainda no disse que no...
         A expresso da fisionomia dele mostrou a Ldia o preo por que teria de pagar esta meia 
aquiescncia. No se sentia disposta a abrir a cama e via que ele a desejava. Quis desfazer a impresso 
causada, desinteressar-se mesmo do pedido, mas Paulino, perturbado pela carcia, j dizia:
          Vou ver o que se pode arranjar. O que  que ela faz?
          Parece que  datilgrafa...
         Neste parece ia toda a m vontade de Ldia. Endireitou-se, retirou a mo do joelho do amante e 
como que se cobriu dos vestidos mais espessos que possua. Ele notou a transformao e ficou perplexo, 
longe de adivinhar o que se passava no esprito dela. Acabou de beber o caf e esmagou a ponta da cigarrilha 
no cinzeiro. Ldia esfregou os braos, como se sentisse frio. Olhou o roupo abandonado em cima da cama. 
Sabia que se o vestisse provocaria o aborrecimento de Paulino. Sentiu-se tentada a ousar, mas amedrontou-se. 
Prezava muito a sua segurana para a prejudicar com um ato de amuo. Paulino cruzou as mos sobre o ventre 
e disse:
          Na quarta-feira a pequena que venha c falar comigo.
         Ldia encolheu os ombros:
          Est bem.
         A voz saiu-lhe sacudida e fria. Olhando de relance Paulino, viu-o franzir as sobrancelhas. 
Repreendeu-se intimamente por estar a provocar dissabores. Achou que tinha procedido como uma criana e 
quis recompor o que perturbara. Sorriu para ele, mas o sorriso imobilizou-se: Paulino no desfranzia o 
sobrolho. Comeou a sentir medo. Precisava, precisava absolutamente, de encontrar um meio de o alegrar. 
Quis falar, mas no soube em qu. Se corresse para ele e o beijasse na boca tudo passaria, mas no se sentia 
capaz de o fazer. No queria entregar-se. Queria render-se, mas no ativamente.
         Sem pensar, agindo por instinto, apagou a luz do quarto. Depois, s escuras, dirigiu-se ao toucador e 
acendeu o candeeiro de p alto que o ladeava. A luz apanhou-a em cheio. No se moveu durante um instante. 
Sabia que todo o seu corpo, nu sob a camisa, se desenhava aos olhos do amante. Depois, lentamente, voltou-
se. Paulino Morais, num movimento simultneo das duas mos, desabotoava os suspensrios.
 


         

         XVI

         Abel parou no patamar para acender um cigarro. Nesse momento, a escada iluminou-se. Ouviu bater 
uma porta no andar de cima, um rumor de vozes abafadas e, logo a seguir, uns passos pesados que faziam 
ranger os degraus. Tirou a chave do bolso e, propositadamente, tardou a encontrar a fechadura. S a encontrou 
ao sentir junto de si a pessoa que descia. Voltou-se e conheceu Paulino Morais. Este murmurou um boa 
noite educado, que Abel retribuiu do mesmo modo, j dentro de casa.
         Seguindo pelo corredor, ouviu sobre a sua cabea uns passos leves que o acompanhavam na mesma 
direo. Quando entrou no quarto, os passos ouviram-se mais longe. Acendeu a luz e viu as horas no relgio 
de pulso: duas e cinco.
         O quarto abafava. Abriu a janela. A noite estava encoberta. Passavam no cu, iluminadas pelo 
resplendor da cidade, nuvens pesadas e lentas. A temperatura subira e a atmosfera estava quente e hmida. 
Os prdios que circundavam os quintais, adormecidos, formavam como que a guarda de um poo sombrio. 
Luz, s a do seu quarto. Enfiava pela janela aberta e ia derramar-se no quintal, mostrando os caules das 
couves enfezadas e inteis que, ainda h pouco na escurido, tinham agora o ar estremunhado de quem acorda 
subitamente.
         Outra luz se acendeu, iluminando as traseiras dos prdios fronteiros. Abel viu roupa pendurada, 
vasos, e o reflexo dos vidros batidos pela luz. Apeteceu-lhe acabar o cigarro sentado no muro do quintal. Para 
no dar a volta pela cozinha, saltou pela janela. Na capoeira ouviu um pipilar de pintos. Avanou por entre as 
couves, em plena luz. Depois voltou-se e olhou para cima. Atravs dos vidros da marquise viu Ldia passar 
para a casa de banho. Sorriu, um sorriso triste, desencantado. quela hora, centenas de mulheres estariam 
fazendo o mesmo que Ldia... Ele vinha cansado, correra muitas ruas, vira muitos rostos, seguira muitos 
vultos. E ali estava agora, no quintal de Silvestre, fumando um cigarro e encolhendo os ombros  vida... 
Pareo Romeu no jardim de Capuleto, pensou. S falta a lua. Em vez da inocente Julieta, temos a 
experimentada Ldia. Em vez do doce balco, a janela de uma casa de banho. A escada de salvao em vez da 
escada de seda. Acendeu novo cigarro. Daqui a pouco, ela dir: Quem s tu, que assim, envolto na noite, 
surpreendes os meus segredos?
         Sorriu, condescendente, por estar a citar Shakespeare. Evitando pisar as abandonadas couves, foi 
sentar-se no muro. Sentia-se estranhamente triste. Influncia do tempo, decerto. Estava abafado, havia no ar 
prenunciaes de trovoada. Olhou outra vez para cima: Ldia saa da casa de banho. Talvez porque tivesse 
sentido, tambm, muito calor, abriu a janela e debruou-se.
Julieta viu Romeu, pensou Abel. Que ir passar-se? Levantou-se do muro e avanou para o 
meio do quintal. Ldia no deixou a janela. Agora teria eu de exclamar:  Que resplendor abre caminho 
atravs daquela janela?  a aurora, e Julieta o Sol!
          Boa noite  sorriu Abel.
         Houve uma pausa. Depois, a voz de Ldia:
          Boa noite  e desapareceu.
         Abel lanou o cigarro fora e murmurou, divertido, enquanto recolhia a casa:
 Deste final de cena  que o Shakespeare se no lembrou...
 


         

         XVII

         O estado de Henrique piorou inesperadamente. O mdico, chamado  pressa, mandou fazer uma 
pesquisa de bacilos de difteria. A criana tinha temperaturas altssimas e delirava. Carmen, desesperada, 
acusou o marido de responsvel por a doena ter progredido at quele ponto. Houve uma cena violenta. 
Emlio ouviu tudo e, como de costume, no respondeu. Sabia que a mulher tinha razo, que fora ela a primeira 
a lembrar que se chamasse o mdico. Teve remorsos. Passou todo o domingo junto do filho e, na segunda-
feira,  hora que lhe haviam indicado, correu a buscar o resultado da anlise. Respirou de alvio perante a 
concluso negativa, mas a declarao, no impresso, de que uma s anlise no era, em muitos casos, bastante, 
f-lo recair na inquietao.
         O mdico declarou-se satisfeito e previu melhoras rpidas, decorrido que fosse um perodo de vinte e 
quatro horas. Em todo o dia Emlio no deixou a cabeceira do doente. Carmen, silenciosa e fria desde a cena, 
mal podia suportar a presena do marido. Em dias normais essa presena exasperava-a; agora que o marido 
no deixava o quarto sentia que estava a ser roubada no que tinha de mais precioso: o amor do filho.
         Para afastar Emlio, chegou a lembrar-lhe que no era metido em casa que ganhava a vida, e que bem 
precisados estavam de dinheiro com as despesas que a doena provocara. Uma vez mais, Emlio respondeu 
com o silncio. Ainda desta vez a mulher tinha razo, faria muito melhor deixando Henrique entregue aos 
cuidados dela. Mas no saiu de casa. Fixara-se nele a ideia de que era o responsvel pela recada, porque s 
depois das palavras que dissera ao filho a doena se agravara. A sua presena era como uma penitncia, intil 
como todas as penitncias e apenas compreensvel porque era voluntria.
         Apesar da insistncia da mulher, no foi para a cama  hora habitual. Carmen, para demonstrar que 
no lhe ficava atrs em amor pela criana, tambm no se deitou.
         Pouco tinham que fazer. A doena seguia o seu curso natural, aps a crise. Os medicamentos 
estavam aplicados, restava aguardar o seu efeito. Nem um, nem outro, queriam ceder, porm. Havia entre eles 
uma espcie de desafio, de luta surda. Carmen lutava pela conservao do afeto de Henrique, que sentia em 
perigo, em virtude da presena e dos cuidados do marido. Emlio lutava apenas para fazer calar os remorsos, 
para compensar pela ateno de agora a indiferena de ento. Tinha a conscincia de que a luta da mulher era 
mais digna e de que no fundo da sua havia um substrato de egosmo. Decerto gostava do filho: fora ele que o 
gerara, no podia deixar de gostar. O contrrio seria antinatural. Mas sentia bem que, naquela casa, era um 
estranho, que nada do que o rodeava, embora comprado com o seu dinheiro, lhe pertencia efetivamente. Ter 
no  possuir. Pode ter-se at aquilo que se no deseja. A posse  o ter e o desfrutar o que se tem. Tinha uma 
casa, uma mulher e um filho, mas nada era, efetivamente, seu. De seu, s tinha a si mesmo, e no 
completamente.
s vezes, Emlio pensava se no estaria doido, se todo este modo de viver, estes conflitos, estas 
tempestades, esta incompreenso de todas as horas, no seriam, afinal, a consequncia de um desequilbrio 
nervoso. Na rua, era, ou supunha ser, uma criatura normal, capaz de rir ou sorrir como toda a gente. Mas 
bastava-lhe passar a soleira da porta para cair em cima de si um peso insuportvel. Sentia-se como um homem 
prestes a afogar-se, que enche os pulmes no j do ar que lhe permitiria viver, mas da gua que o mata. 
Pensava que tinha o dever de se declarar satisfeito com o que a vida lhe dera, que outros havia menos 
afortunados e viviam contentes. Mas a comparao no lhe trazia tranquilidade. No sabia, mesmo, o que era 
e onde estava o que lhe daria a tranquilidade. No sabia, ainda, se essa tranquilidade existia em alguma parte. 
O que sabia, com uma experincia de anos,  que no a tinha. E sabia tambm que a desejava, como o 
nufrago a prancha, como a semente o sol.
         Estes pensamentos, mil vezes repetidos, conduziam-no sempre ao mesmo ponto. Comparava-se ao 
animal atrelado a uma nora, que caminha lguas num crculo restrito, de olhos vendados, sem dar por que 
passa por onde j passou milhares de vezes. No era esse animal, no tinha os olhos fechados, mas reconhecia 
que o pensamento o conduzia por um caminho j trilhado. Mas saber tudo isto era ainda pior, porque, homem 
que era, procedia como irracional. Este, no pode ser censurado pela sua submisso ao jugo; e ele, podia ser 
censurado? Que fora o amarrava? O hbito, a cobardia, o temor do sofrimento alheio? Mas os hbitos 
substituem-se, a cobardia domina-se, o sofrimento alheio , quase sempre, menor do que o que tememos. No 
provara j  tentara-o, pelo menos  que a sua ausncia seria esquecida? Por que ficava, ento? Que fora era 
essa que o segurava quela casa, quela mulher e quela criana? Os laos que o atavam, quem os fizera?
         No lhe ocorria outra resposta que no fosse esta: Estou cansado. To cansado que, sabendo que 
todas as portas da sua priso podiam abrir-se e que tinha a chave que as abria, no dava um passo para a 
liberdade. Habituara-se de tal modo a esse cansao que chegava a encontrar nele prazer, o prazer de quem 
abdicou, o prazer de quem, vendo chegar a hora da deciso, atrasa o relgio e declara: Ainda  cedo. O 
prazer do sacrifcio. Mas o sacrifcio s  completo quando se esconde. Torn-lo visvel,  dizer a toda a hora: 
Sacrifico-me,  forar os outros a no o esquecer. E isso significa que ainda no se abdicou completamente, 
que por detrs da renncia ainda mora a esperana, tal como, para alm das nuvens, o cu continua azul.
         Carmen olhava o marido e via-o absorto. Emlio tinha o cinzeiro cheio de pontas de cigarro e 
continuava a fumar. Um dia, ela fizera um clculo do dinheiro gasto em tabaco e isso fora motivo para 
censuras amargas. Informara os pais e eles lastimaram-na. Dinheiro queimado, dinheiro deitado  rua, 
dinheiro que fazia falta. Vcios, so bons para ricos, e, quem os quer ter, enriquece primeiro. Mas Emlio, 
caixeiro de praa  falta de melhor, por necessidade e no por vocao, no dava, nunca dera, mostras de 
querer enriquecer. Contentava-se com o mnimo indispensvel e da no passava. Que homem e que vida!... 
Carmen pertencia a outra raa,  raa daqueles para quem a vida no  contemplao, mas luta. Era ativa; ele, 
ablico. Ela, toda nervos, ossos e msculos, matria que gera a fora e o poder; ele, tudo isso tambm, mas, 
dominando os ossos, os msculos e os nervos, envolvendo-os no nevoeiro da fraqueza, havia a insatisfao e 
a perplexidade.
         Emlio levantou-se e foi ao quarto do filho. A criana dormia, num sono agitado de que 
continuamente acordava e em que continuamente recaa. Palavras incoerentes saam-lhe dos lbios secos. Aos 
cantos da boca, pequenas bolhas translcidas marcavam a passagem da febre. Emlio, com cuidado, 
introduziu o termmetro na axila do filho. Esperou o tempo necessrio e voltou  casa de jantar. Carmen 
levantou os olhos da costura, mas no fez perguntas. Ele olhou o termmetro: 39,2 graus. A temperatura 
parecia descer. O termmetro ficou em cima da mesa, ao alcance de Carmen. Apesar de todo o seu desejo de 
saber, ela no estendeu a mo. Ficou  espera de que o marido falasse.
         Emlio deu alguns passos hesitantes. O relgio do andar de cima bateu as trs pancadas. Carmen 
esperava, sentindo j que as fontes lhe latejavam e cerrando os dentes para no insultar o marido. Sem 
palavras, Emlio foi-se deitar. Estava cansado da viglia prolongada, cansado da mulher e de si mesmo. A 
angstia apertava-lhe a garganta: era ela que no lhe permitia falar, que o obrigava a retirar-se, como algum 
que se esconde para morrer ou para chorar.
         Para Carmen era esta a prova mais completa da ausncia de sentimentos humanos no marido. S um 
monstro teria procedido assim: deix-la na inquietao e deitar-se como se nada de grave se passasse, como se 
a doena do filho no fosse mais que uma brincadeira.
         Ergueu-se e aproximou-se da mesa. Olhou o termmetro. Depois, voltou ao seu lugar. Em toda a 
noite no se deitou. Como os vencedores das batalhas medievais, ficou no campo depois da luta. Vencera. E, 
alm disso, no poderia, nessa noite, suportar o contacto do marido.
 


         

         XVIII

         Caetano Cunha, por fora da profisso que exercia, tinha uma vida um pouco como a dos morcegos. 
Trabalhava enquanto os mais dormiam, e era quando descansava, de janelas e olhos fechados, que os outros,  
luz do sol, iam aos seus empregos. Este facto dava-lhe a medida da sua importncia. Acreditava firmemente 
que valia mais que o comum das pessoas e por vrias razes, e no era a menor esta vida noturna, agarrado  
mquina de compor enquanto a cidade dormia.
         Quando saa do jornal, ainda de noite, e via as ruas desertas brilhando da humidade que a madrugada 
trazia do lado do rio, sentia-se feliz. Gostava, antes de ir para casa, de errar pelas ruas silenciosas, onde 
passavam vultos de mulheres. Mesmo cansado, detinha-se para falar-lhes. Se mais lhe apetecia deixava-se 
levar, mas, ainda que mais no houvesse, falar lhe bastava.
         Caetano gostava de mulheres, de todas as mulheres. A simples viso de uma saia balanando o 
perturbava. Sentia uma atrao irresistvel pelas mulheres fceis. O vcio, a dissoluo, o amor comprado, 
fascinavam-no. Conhecia quase todas as casas de prostituio da cidade, sabia de cor e salteado as tabelas de 
preos, era capaz (disso se gabava no seu foro ntimo) de dizer, sem necessidade de inventar, os nomes de 
umas boas dezenas de mulheres com quem se deitara.
         De todas as mulheres, uma s desdenhava: a sua. Justina era, para si, um ser assexuado, sem 
necessidades nem desejos. Quando ela, na cama, no acaso dos movimentos, lhe tocava, afastava-se com 
repugnncia, incomodado pela sua magreza, pelos seus ossos agudos, pela pele excessivamente seca, quase 
pergaminhada. Isto no  uma mulher,  uma mmia, pensava.
         Justina via-lhe o desprezo nos olhos e calava-se. Dentro de si, o fogo do desejo apagara-se. Retribua 
o desprezo do marido com um desprezo maior. Sabia que era enganada e encolhia os ombros, mas no 
tolerava que ele alardeasse em casa as suas conquistas. No porque sentisse cimes, mas porque, conhecendo 
a altura da sua queda, ligando-se a um homem assim, no queria descer at ao nvel dele. E quando Caetano, 
levado pelo seu temperamento exuberante e colrico, a tratava mal por palavras e comparaes, fazia-o calar 
com uma simples frase. Essa frase, para o feitio donjuanesco de Caetano, era uma humilhao, porque lhe 
lembrava um fracasso sempre vivo na sua carne e no seu esprito. Vezes sem conto, ao ouvi-la, se sentia 
tentado a agredir a mulher, mas Justina tinha, nesses momentos, um fogo selvagem nos olhos, uma crispao 
de desprezo na boca, e ele acobardava-se.
         Por isso, entre ambos, o silncio era a regra e a palavra a exceo. Por isso, nada mais que 
sentimentos gelados e olhos distantes preenchiam o vcuo das horas passadas em comum. E o cheiro a bafio 
que inundava a casa, aquela atmosfera de subterrneo, era como o cheiro dos tmulos abandonados.
         Tera-feira era o dia de folga de Caetano. As vinte e quatro horas davam-lhe para entrar em casa j 
manh alta. Dormia at meio da tarde e s ento almoava. Talvez por causa desta alterao na hora do 
almoo, talvez pela perspetiva da noite seguinte ao lado da mulher, as teras-feiras eram os dias em que o mau 
humor de Caetano vinha ao de cima com mais frequncia, apesar de todo o cuidado em repres-lo. Nesses 
dias, a reserva de Justina tornava-se mais obstinada, como que se dobrava sobre si mesma. Habituado quela 
distncia impossvel de transpor, Caetano s estranhava por que essa distncia se tornava maior. Como 
represlia, agravava a grosseria dos seus gestos e palavras, a brusquido dos seus movimentos. Irritava-o, 
sobretudo, o facto de a mulher escolher a tera-feira para arejar as roupas da filha e lavar cuidadosamente o 
vidro da moldura onde o retrato dela eternamente sorria. Parecia-lhe que, com esta exibio, o estava 
censurando de alguma coisa. Caetano tinha a certeza de que nada havia a censurar-lhe nesse particular, mas 
nem por isso aquele estendal de recordaes o incomodava menos.
         As teras-feiras eram dias aziagos em casa de Caetano Cunha. Dias de enervamento em que Justina 
abandonava a sua abstrao quando a foravam, para ser violenta e agressiva. Dias em que Caetano temia 
abrir a boca, porque todas as palavras estavam carregadas de eletricidade. Dias em que um diabinho maligno 
se comprazia em tornar a atmosfera irrespirvel.
         O cu varrera-se das nuvens que o tinham coberto na noite anterior. O sol entrava pelos vidros da 
marquise e projetava no cho a sombra da armao de ferro como se fossem grades. Caetano acabara de 
almoar. Olhou o relgio e viu que eram quase quatro horas. Levantou-se pesadamente. Tinha o hbito de 
dormir sem as calas do pijama. O seu abdmen redondo esticava para a frente o casaco largo e dava-lhe o ar 
de um daqueles bonecos que Rafael Bordalo criou. Nada mais risvel que o seu ventre inchado, mas nada mais 
desagradvel que o seu rosto avermelhado, de feies carrancudas. To inconsciente de um como do outro, 
saiu do quarto, atravessou a cozinha, sem dizer palavra  mulher, e meteu-se na casa de banho. Abriu a janela 
e olhou o cu. A luz intensa fez-lhe piscar os olhos como uma ave noturna. Mirou com indiferena os quintais 
da vizinhana, a brincadeira de trs gatos sobre um telhado e no teve sequer um olhar para o voo elstico e 
puro de uma andorinha.
         Mas j os olhos se fixavam num ponto bem prximo. Na janela fronteira, a da casa de banho de 
Ldia, agitava-se a manga de um roupo cor-de-rosa. De vez em quando, descaa e deixava ver um brao at 
ao cotovelo. Encostado ao parapeito, oculta a parte inferior do corpo, Caetano no tirava os olhos da janela. O 
que via pouco era, mas bastava para excit-lo. Debruou-se para a frente e deu com os olhos da mulher que 
espreitavam ironicamente atravs dos vidros da marquise. O rosto endureceu-se-lhe de rompante. A mulher 
estava diante de si e estendia-lhe uma cafeteira:
          A gua quente...
         No agradeceu. Tornou a fechar a porta. Enquanto fazia a barba, espreitava a janela de Ldia. O 
roupo desaparecera. Em vez dele, Caetano encontrava no seu caminho os olhos da mulher. Sabia que o 
melhor meio de evitar a tempestade iminente era deixar de olhar, e que isso seria fcil visto que Ldia j l 
no estava. Mas a tentao era mais forte que a prudncia. Em certa altura, farto da espionagem da mulher, 
abriu a porta e perguntou:
          No tem que fazer?
         Tratavam-se por voc. A mulher olhou-o sem responder e, sem responder, voltou-lhe as costas. 
Caetano atirou a porta e no tornou a olhar. Quando saiu, j lavado e barbeado, notou que a mulher tirara de 
uma mala na cozinha as pequenas peas de roupa que haviam pertencido a Matilde. No fosse a adorao que 
lhe transparecia nos olhos, e talvez Caetano passasse sem implicar. Mas, mais uma vez, sentiu que ela o 
censurava:
          Quando  que voc deixa de me espreitar?
         Justina levou tempo a responder. Parecia que estava regressando lentamente de muito longe, de um 
pas longnquo onde s havia um habitante.
          Admirava a sua persistncia  respondeu, friamente.
 Persistncia de qu?  perguntou ele, avanando um passo.
         Estava ridculo, de pernas nuas, em cuecas. Justina olhou-o com uma expresso de sarcasmo. Sabia-
se feia e sem atrativos, mas, vendo o marido naquela figura, vinha-lhe o desejo de rir-lhe na cara:
          Quer que lhe diga?
          Quero.
         Caetano perdeu a cabea. Antes desta palavra ainda era tempo de evitar a bofetada. Dissera quero 
e j estava arrependido. Tarde, porm.
 Ainda no perdeu a esperana? Ainda est convencido de que ela acaba por lhe cair nos braos? 
No lhe passou a vergonha por que passou?  O queixo de Caetano tremia de clera. Os seus lbios de belfo 
deixavam passar a saliva aos cantos da boca.  Quer que o amante torne a pedir-lhe explicaes pelo seu 
atrevimento?
         E, como se desse um conselho, com uma afabilidade irnica:
 Tenha decncia. Aquilo  obra muito fina para as suas mos. Contente-se com as outras, com essas 
de quem voc traz o retrato na carteira. No lhe gabo o gosto. Quando elas tiram o retrato para a matrcula 
do-lhe um a si, no ? Voc  assim como uma sucursal da Polcia!...
         Caetano ficou lvido. Nunca a mulher levara to longe a ousadia. Cerrou os punhos e caminhou para 
ela:
 Um dia parto-lhe esses ossos! Um dia piso-a a ps juntos! Ouviu? No me tente!
          No  capaz.
 Ah, sua...  e um qualificativo imundo saiu-lhe dos lbios. Justina apenas respondeu:
 No  a mim que me insulta.  a si, que j v em todas as mulheres isso que disse.
         O pesado corpo de Caetano balanou como um antropoide. A fria, a clera impotente, mandavam-
lhe palavras  boca, mas todas elas se atropelavam e embaraavam. Ergueu o punho cerrado como se o fosse 
descarregar sobre a cabea da mulher. Ela no se desviou. O brao desceu vagarosamente, vencido. Os olhos 
de Justina pareciam duas brasas. Caetano, humilhado, desapareceu no quarto, atirando a porta.
         O gato, que estivera mirando os donos com os seus olhos glaucos, enfiou pelo corredor escuro e foi 
deitar-se no capacho, silencioso e indiferente.
 


         

         XIX

         Havia j duas horas que Isaura se revolvia na cama, sem poder dormir. Todo o prdio estava 
tranquilo. Da rua, de longe em longe apenas, os passos de algum retardatrio que recolhia a casa. Pela janela 
entrava a luz plida e distante das estrelas. Na escurido do quarto mal se distinguiam as manchas mais negras 
dos mveis. O espelho do guarda-vestidos refletia vagamente a luz que vinha da janela. De quarto em quarto 
de hora, inflexvel como o prprio tempo, o relgio dos vizinhos de baixo sublinhava a insnia. Tudo 
repousava no silncio e no sono, exceto Isaura. Procurava por todas as maneiras adormecer. Contava e 
recontava at mil, abrandava a tenso dos msculos um a um, fechava os olhos, procurava esquecer a insnia 
e engan-la deslizando lentamente no sono. Intil. Todos os seus nervos estavam despertos. Para l do esforo 
a que obrigava o crebro para concentrar-se na necessidade de dormir, o pensamento guiava-a por caminhos 
vertiginosos. Ladeava com ele profundos vales, donde subia um rumor surdo de vozes que chamavam. 
Pairava nas alturas sobre o dorso potente de uma ave de amplas asas que, depois de subir acima das nuvens, 
onde a respirao se tornava ofegante, caa como uma pedra na direo dos vales cobertos de bruma em que 
se adivinhavam figuras brancas que, de to alvas, pareciam nuas ou cobertas apenas de vus transparentes. 
Um desejo sem objeto, uma vontade de desejar e o temor de querer, a torturavam.
         Ao lado, a irm dormia tranquilamente. A sua respirao sossegada, a imobilidade do seu corpo, 
exasperavam-na. Por duas vezes se levantou e se aproximou da janela. Palavras soltas, frases incompletas, 
gestos adivinhados, tudo lhe circulava no crebro. Era como um disco falhado que repete infinitamente a 
mesma frase musical, que de bela se torna odiosa pela repetio. Dez, cem vezes, as mesmas notas se 
sucedem, se entrelaam, se confundem, e delas fica um som nico, obsidiante, terrvel, implacvel. Sente-se 
que um minuto s dessa obsesso ser a loucura, mas o minuto passa, a obsesso continua, e a loucura no 
vem. Em vez disso, a lucidez redobra, multiplica-se. O esprito abrange horizontes, caminha para l e para 
alm, no h fronteiras que o detenham e por cada passo em frente a lucidez torna-se mais acabrunhante. 
Abandon-la, quebrar o som, esmag-lo sob o silncio, seria a tranquilidade e o sono. Mas as palavras, as 
frases, os gestos, erguem-se de debaixo do silncio e giram silenciosamente e sem fim.
         Isaura dizia a si mesma que estava louca. A cabea ardia-lhe, a testa escaldava, o crebro parecia 
expandir-se e rebentar o crnio. E a insnia  que a punha neste estado. E a insnia no a largaria enquanto 
aqueles pensamentos a no largassem. E que pensamentos, Isaura! Que coisas monstruosas! Que aberraes 
repugnantes! Que furores subterrneos empurravam os alapes da vontade!...
         Que mo diablica, que mo maliciosa, a guiara na escolha daquele livro? E dizer-se que fora escrito 
para servir a moralidade! Decerto  afirmava o raciocnio frio, quase perdido no torvelinhar das sensaes. 
Porqu, ento, esta agitao dos instintos que quebravam algemas e irrompiam na carne? Por que no o lera 
friamente, sem paixo? Fraqueza  dizia o raciocnio. Desejo  clamavam os instintos sofreados, anos aps 
anos desviados e recalcados como vergonhas. E agora os instintos sobrenadavam, a vontade afundava-se num 
pego mais negro que a noite e mais fundo que a morte.
         Isaura mordia os pulsos. Tinha o rosto coberto de suor, os cabelos pegados  testa, a boca torcida 
num espasmo violento. Sentou-se na cama, meteu as mos pelos cabelos, desvairada, e olhou em redor. Noite 
e silncio. O som do disco falhado voltava do abismo do silncio. Extenuada, deixou-se cair nos colches. 
Adriana fez um movimento e continuou a dormir. Aquela indiferena era como uma recriminao. Isaura 
cobriu a cabea com o lenol, apesar do calor sufocante. Tapou os olhos com as mos, como se a noite no 
fosse bastante escura para ocultar a sua vergonha. Mas nos olhos, assim comprimidos, acendiam-se chispas 
vermelhas e amarelas como falhas de um incndio. (Se a manh chegasse de repente, se a luz do sol fizesse o 
milagre de deixar o outro lado do mundo e irrompesse no quarto!...)
         Lentamente, as mos de Isaura moveram-se na direo da irm. As pontas dos dedos captaram o 
calor de Adriana a um centmetro de distncia. Ficaram ali, sem avanar nem recuar, longos minutos. O suor 
secara na fronte de Isaura. O rosto escaldava como se o queimasse um fogo interior. Os dedos avanaram at 
tocarem o brao nu de Adriana. Como se tivessem recebido um choque violento, recuaram. O corao de 
Isaura batia surdamente. Os olhos, abertos e dilatados, nada viam seno negrume. Outra vez as mos 
avanaram. Outra vez se detiveram. Outra vez prosseguiram. Agora pousavam no brao de Adriana. Com um 
movimento coleante, sinuoso, Isaura aproximou-se da irm. Sentia-lhe o calor do corpo todo. Devagar, uma 
das mos percorreu o brao desde o pulso ao ombro, devagar se introduziu sob a axila quente e hmida, 
devagar se insinuou por baixo do seio. A respirao de Isaura tornou-se precipitada e irregular. A mo desceu 
para o ventre, sobre o tecido leve da camisa. A irm fez um movimento brusco e ficou de costas. O ombro nu 
estava  altura da boca de Isaura que sentia nos lbios a proximidade da carne. Como a limalha atrada pelo 
man, a boca de Isaura colou-se ao ombro de Adriana. Foi um beijo longo, sedento, feroz. Ao mesmo tempo, a 
mo apertou-lhe a cintura e puxou-a. Adriana acordou sobressaltada. Isaura no a largou. A boca continuava 
fixada ao ombro como uma ventosa e os dedos enterravam-se-lhe no flanco como garras. Com uma 
exclamao de terror, Adriana desprendeu-se e saltou da cama. Correu para a porta do quarto, mas, 
lembrando-se de que a me e a tia dormiam ao lado, voltou atrs e refugiou-se junto da janela.
         Isaura no se mexera. Queria simular que estava adormecida. Mas a irm no vinha. S lhe ouvia a 
respirao sibilante. Via, atravs das plpebras semicerradas, o seu vulto recortado no fundo opalescente da 
janela. Depois, j esquecida da simulao, chamou em voz baixa:
          Adriana...
         A voz trmula da irm respondeu:
          Que queres?
          Vem c.
         Adriana no se moveu.
          Ests a arrefecer...  insistiu Isaura.
          No importa.
          No podes ficar a. Se no vens, saio eu.
         Adriana aproximou-se. Sentou-se na beira da cama e quis acender o candeeiro de cabeceira.
          No acendas  pediu Isaura.
          Porqu?
          No quero que me vejas.
          Que mal faz?
          Tenho vergonha...
         As frases eram murmuradas. A voz de Adriana recuperava a segurana, a de Isaura tremia como se 
fosse quebrar-se em soluos:
          Deita-te, peo-te...
          No me deito.
          Porqu? Tens medo de mim?
         A resposta de Adriana tardou:
          Tenho...
 No te fao mal. Prometo. No sei que foi isto. Juro-te...
         Comeou a chorar baixinho. s apalpadelas, Adriana abriu o guarda-vestidos e tirou o seu casaco de 
abafar. Enrolou-se nele e sentou-se aos ps da cama.
          Vais ficar a?  perguntou a irm.
          Vou.
          Toda a noite?
          Sim.
         Um soluo mais forte sacudiu o peito de Isaura. Quase imediatamente a luz do quarto contguo 
acendeu-se e ouviu-se a voz de Amlia:
          Que  isso?
         Adriana, rapidamente, atirou o casaco para trs da cama e meteu-se debaixo da roupa. Amlia 
apareceu no vo da porta, com um xaile pelos ombros:
          Que  isso?
 Foi a Isaura que teve um pesadelo  respondeu Adriana, erguendo-se para esconder a irm.
         Amlia aproximou-se:
          Ests doente?
 No  nada, tia. Foi um pesadelo. V-se deitar  insistiu Adriana, afastando-a.
          Bom. Se precisarem de alguma coisa, chamem.
         A porta do quarto tornou a fechar-se, a luz apagou-se e, pouco a pouco, o silncio voltou, apenas 
cortado por soluos abafados. Depois, os soluos foram-se espaando mais e mais, e s o tremor dos ombros 
de Isaura denunciava a sua agitao. Adriana mantinha-se afastada,  espera. Lentamente, os lenis 
aqueciam. Os dois corpos misturavam o seu calor. Isaura murmurou:
          Perdoas-me?
         A irm no respondeu logo. Sabia que devia responder sim, para tranquiliz-la, mas a palavra que 
queria pronunciar era um no rpido.
          Perdoas-me?  repetiu Isaura.
          Perdoo...
         Isaura teve um impulso para se agarrar  irm, a chorar, mas dominou-se, temerosa de que a outra 
interpretasse o gesto como nova tentativa. Sentia que, desde aquele momento, tudo o que fizesse ou dissesse 
estaria envenenado pela recordao daqueles minutos. Que o seu amor de irm estava falseado e impuro por 
aquela terrvel insnia e pelo mais que se lhe seguira. Como se a respirao lhe faltasse, murmurou:
          Obrigada...
         Lentos passaram os minutos e as horas. O relgio de baixo dobou o tempo em meadas sonoras de um 
fio ininterrupto. Exausta, Isaura acabou por adormecer. Adriana, no. At que na janela a luz azulada da noite 
se transformou na luz parda da madrugada e que esta foi substituda, em lentas gradaes, pela brancura da 
manh, esteve acordada. Imvel, os olhos fitos no teto, as fontes latejando, resistia, obstinadamente, ao 
despertar da sua fome de amor, tambm recalcada, tambm escondida e frustrada.
 


         

         XX

         Em casa de Anselmo, jantou-se mais cedo nessa noite. Maria Cludia tinha de arranjar-se para ser 
apresentada a Paulino Morais e no era conveniente fazer esperar uma pessoa cujas boas graas se pretendia 
captar. Me e filha comeram  pressa e meteram-se no quarto. Havia vrios problemas a resolver quanto  
apresentao de Claudinha e o mais difcil era a escolha do vestido. Nenhum outro ia melhor  sua beleza e  
sua juventude que o vestido amarelo, sem mangas, de um tecido leve. A saia ampla, de fundas pregas, que no 
rodopio parecia o clice invertido de uma flor, caa-lhe da cintura com um movimento de onda preguiosa. 
Foram para esse vestido os votos de Roslia. Mas o bom senso e o gosto de Claudinha notaram a 
incongruncia: aquele vestido estaria bem para os meses de vero, no para a primavera ainda chuvosa. Alm 
disso, a ausncia de mangas poderia desagradar ao senhor Morais. Roslia concordou, mas no fez mais 
sugestes. Escolhera aquele vestido, e s aquele, e no tinha de reserva outras lembranas.
         Difcil parecia a escolha, mas Claudinha decidiu-se: levaria o vestido cinzento-esverdeado que era 
discreto e prprio para a estao. Era um vestido de l, de mangas compridas que abotoavam nos pulsos com 
botes da mesma cor. O decote, pequeno, mal descobria o pescoo. Para uma futura empregada no podia 
desejar-se melhor. Roslia no gostou da ideia, mas quando a filha se vestiu deu-lhe razo.
         Maria Cludia tinha sempre razo. Viu-se no espelho alto do guarda-vestidos e achou-se bonita. O 
vestido amarelo tornava-a mais nova e o que ela agora queria era parecer mais velha. Nada de folhos, nem de 
braos nus. O vestido que pusera assentava-lhe no corpo como uma luva, parecia pegar-se  carne e obedecer-
lhe nos mnimos movimentos. No tinha cinto, mas o corte marcava a cintura naturalmente, e a cintura de 
Maria Cludia era to fina e esbelta que um cinto s a prejudicaria. Vendo-se no espelho, Claudinha descobriu 
o sentido em que deveria de futuro orientar-se na escolha do vesturio. Nada de superfluidades que lhe 
escondessem os contornos. E, neste momento, virando-se diante do espelho, pensava que lhe ficaria bem um 
vestido de lam, desses que parecem pele, to flexvel e elstica como a natural.
          Que tal, mezinha?  perguntou.
         Roslia no tinha palavras. Andava em volta da filha como uma criada de quarto que prepara a 
vedeta para a apoteose. Maria Cludia sentou-se, tirou da carteira o bton e o rouge e comeou a pintar-se. O 
cabelo ficava para depois, to fcil era pente-lo. No abusou da pintura, foi mesmo mais discreta do que era 
seu costume. Confiava no nervosismo para dar-lhe boas cores e o nervosismo no a deixava mal. Quando 
acabou, ps-se diante da me e repetiu:
          Que tal?
          Ests linda, filha.
         Claudinha deu um sorriso ao espelho, um ltimo olhar investigador e declarou-se pronta. Roslia 
chamou o marido. Anselmo apareceu. Compusera uma nobre figura de pai que v ir decidir-se o futuro da 
filha e parecia comovido.
          Gosta, paizinho?
          Ests encantadora, minha filha.
         Anselmo descobrira que, nos grandes momentos, minha filha estava melhor que qualquer outra 
locuo. Dava seriedade, sugeria o afeto paternal, o orgulho da paternidade, mal dominados pelo respeito.
          Estou to nervosa  disse Claudinha.
  preciso calma  aconselhou o pai, passando a sua mo firme pelo bigode aparado. Nada podia 
alterar a firmeza daquela mo.
         Quando a filha passou por ele, Anselmo ajeitou-lhe o fio de prolas que lhe cingia o pescoo. Era o 
ltimo retoque na toilette e dava-o quem devia: a mo firme e amorosa do pai.
          Vai, minha filha  disse ele, com solenidade.
         Com o corao pulando como pssaro em gaiola, Maria Cludia desceu ao primeiro andar. Estava 
muito mais nervosa do que parecia. Inmeras vezes viera a casa de Ldia, mas nunca quando l estava o 
amante. Esta visita tinha, assim, um ar de cumplicidade, de segredo, de coisa proibida. Era admitida  
presena de Paulino Morais, entrava no conhecimento direto da situao irregular de Ldia. Isso excitava-a, 
entontecia-a.
         Ldia abriu-lhe a porta, sorridente.
          Estvamos  sua espera.
         A frase reforou o sentimento de intimidade de que Maria Cludia se sentia possuda. Entrou, toda 
trmula. Ldia tinha o seu roupo de tafet e calava sapatos de baile que se prendiam aos tornozelos por duas 
tiras prateadas. Mais pareciam sandlias que sapatos e, contudo, o que no daria Maria Cludia para ter uns 
sapatos assim...
         Habituada como estava a entrar para o quarto, a rapariga deu um passo naquela direo. Ldia sorriu:
          No. Para a no...
         Claudinha corou violentamente. E foi assim, corada e confusa, que apareceu diante de Paulino 
Morais, que a esperava, de casaco vestido e cigarrilha acesa, na sala de jantar.
         Ldia fez as apresentaes. Paulino levantara-se. Com a mo que segurava a cigarrilha indicou uma 
cadeira a Maria Cludia. Sentaram-se. Os olhos de Paulino fitavam Claudinha com uma ateno excessiva. A 
rapariga baixara os olhos para as figuras geomtricas do tapete.
 Ento, Paulino  disse Ldia, sempre sorrindo.  No vs que ests a embaraar a menina Maria 
Cludia?
         Paulino fez um movimento brusco e sorriu tambm:
 No era minha inteno.  E para Maria Cludia:  No a julgava to... to nova!...
 Tenho dezanove anos, senhor Morais  respondeu ela, levantando os olhos.
          Como vs,  uma criana  disse Ldia.
         A rapariga olhou para ela. Os olhares das duas cruzaram-se desconfiados e, subitamente, inimigos. 
Por intuio, Maria Cludia penetrou no pensamento de Ldia, e o que viu fez-lhe medo e deu-lhe prazer ao 
mesmo tempo. Adivinhou que tinha nela uma inimiga e adivinhou porqu. Viu-se a si e a ela como se fosse 
outra pessoa, como se fosse, por exemplo, Paulino Morais, e a comparao consequente resultou a seu favor.
 No sou assim to criana, D. Ldia. O que sou, com certeza, como o senhor Morais disse,  muito 
nova.
         Ldia mordeu os lbios: entendera a insinuao. Recomps-se imediatamente e soltou uma 
gargalhada:
 Tambm j passei por isso. Quando tinha a sua idade, tambm eu desesperava quando me 
chamavam criana. Reconheo, hoje, que era verdade. Por que no h de a Claudinha reconhec-lo tambm?
          Talvez porque ainda no tenho a idade da D. Ldia...
         Em pouco tempo, Maria Cludia aprendera a esgrima das amabilidades femininas. No seu primeiro 
assalto j dera dois toques e estava intacta, embora um pouco amedrontada: receava que lhe faltassem o 
flego e as armas para o resto da batalha. Felizmente para si, Paulino interveio: tirou a cigarreira de ouro e 
ofereceu cigarros. Ldia aceitou.
          No fuma?  perguntou Paulino a Maria Cludia.
         A rapariga corou. J fumara vrias vezes, s escondidas, mas sentiu que no devia aceitar. Podia 
parecer mal e, alm disso, no tinha a certeza de ser capaz de imitar Ldia na elegncia com que ela segurava 
o cigarro e o levava  boca. Respondeu:
          No, senhor Morais.
 Faz bem.  Calou-se para sorver uma fumaa da cigarrilha e continuou:  Pois no acho muito 
caridoso que estejam a falar de idades, diante de uma pessoa que podia ser pai de ambas.
         A frase teve um efeito agradvel: estabeleceu trguas. Mas Claudinha tomou a dianteira. Com um 
sorriso encantador, como diria Anselmo, observou:
 O senhor Morais est a fazer-se mais velho do que, de facto, ...
          Vamos l ver, ento! Quantos anos me d?
          Uns quarenta e cinco, talvez...
 Oh, oh!  Paulino tinha um riso gordo e quando ria o ventre estremecia-lhe.  Upa, upa!
          Cinquenta?...
          Cinquenta e seis. At podia ser seu av.
          Pois est muito bem conservado!
         A frase foi sincera e espontnea e Paulino notou-o. Ldia levantou-se. Aproximou-se do amante e 
procurou encaminhar a conversa para o motivo por que ali estava Maria Cludia:
 No te esqueas de que a menina Claudinha est mais interessada na tua deciso do que na tua 
idade. J  tarde, ela, com certeza, quer deitar-se, e alm disso...  deteve-se, olhou Paulino com um sorriso 
expressivo e concluiu, em voz mais baixa, carregada de subentendidos:  alm disso, eu preciso de te falar a 
ss...
         Maria Cludia sentiu-se vencida. Naquele terreno no podia combater. Viu que era uma intrusa, que 
ambos estavam  Ldia, sem dvida  desejosos de v-la pelas costas, e teve vontade de chorar.
 Ah,  verdade!...  Paulino pareceu lembrar-se pela primeira vez de que tinha uma posio a 
defender, uma respeitabilidade a guardar e que a ligeireza da conversa as comprometia.  Ento, a menina 
quer empregar-se?
 Eu estou empregada, senhor Morais. Mas meus pais acham que ganho pouco e a D. Ldia quis ter a 
bondade de se interessar...
          Que sabe fazer?
          Sei escrever  mquina.
          S? No sabe estenografia?
          No, senhor Morais.
 Saber s escrever  mquina, nos tempos que vo correndo,  pouco. Quanto ganha?
          Quinhentos escudos.
          Uhm... No sabe, ento, estenografia?
          No, senhor...
         A voz de Maria Cludia sumia-se. Ldia estava sorridente. Paulino, pensativo. Um silncio 
incmodo.
          Mas posso aprender...  disse Claudinha.
          Uhm...
         Paulino chupava a cigarrilha e olhava a rapariga. Ldia acudiu:
 Ouve, querido, eu estou interessada no caso, mas se tu vs que no  possvel... A Claudinha  
bastante inteligente para compreender...
         Maria Cludia j no tinha foras que lhe permitissem reagir. O que queria era ver-se dali para fora e 
o mais depressa possvel. Fez um gesto para se levantar.
 Deixe-se estar  disse Paulino.  Vou dar-lhe uma oportunidade. A minha estenodatilgrafa casa 
daqui a trs meses e depois deixa o emprego. A menina vai trabalhar para a minha Companhia. Durante esses 
trs meses, pago-lhe o mesmo que est a ganhar agora. Entretanto, vai aprendendo estenografia. Depois, 
veremos. Se me agradar, desde j lhe prometo que o ordenado dar um bom salto!... Convm-lhe?
 Convm, sim, senhor Morais! E muito obrigada!  o rosto de Maria Cludia parecia uma alvorada 
de primavera.
          No acha melhor falar primeiro a seus pais?
 Ai, no vale a pena, senhor Morais! Eles esto de acordo, com certeza...
         Disse-o com tanta segurana, que Paulino fitou-a com olhos curiosos. No mesmo instante, Ldia 
observou:
 Mas, se ao fim desses trs meses no estiveres satisfeito ou ela no souber bastante estenografia?... 
Tens que despedi-la?!...
         Maria Cludia olhou Paulino, inquieta.
          Bom, no ser, talvez, caso para isso...
          Ento, ficas mal servido...
 Eu aprenderei, senhor Morais  interrompeu Maria Cludia.  E espero que ficar satisfeito 
comigo...
          Tambm espero  sorriu Paulino.
          Quando devo apresentar-me?
 Isso... Quanto mais depressa, melhor. Quando pode deixar o seu emprego?
          J, se o senhor Morais quiser.
         Paulino pensou durante alguns segundos, e disse:
          Estamos a 26... No dia 1, pode ser?
          Sim, senhor.
 Muito bem. Mas, espere... No dia 1 no estarei em Lisboa. No importa. Dou-lhe um bilhete para 
se apresentar ao chefe do escritrio, no v esquecer-me de o avisar at l.  pouco provvel, no entanto...
         Tirou da carteira um bilhete de visita. Procurou os culos e no os encontrou:
          Onde deixei eu os culos?
          Esto no quarto  respondeu Ldia.
          Vai buscar-mos, se fazes favor...
         Ldia saiu. Paulino ficou com a carteira na mo e olhava distraidamente para Maria Cludia. Esta, 
que tinha os olhos baixos, ergueu-se e fitou-o. Algo passou no olhar dele que a rapariga compreendeu. Nem 
um, nem outro, afastaram o olhar. O peito de Maria Cludia arfou, o seio ondulou-lhe. Paulino sentiu que os 
msculos das costas se distendiam lentamente. No corredor soaram os passos de Ldia que voltava.
         Quando ela entrou, Paulino remexia na carteira com escrupulosa ateno e Maria Cludia fitava o 
tapete.
 


         

         XXI

         Deitado na cama, os ps sobre um jornal para no sujar a colcha, Abel saboreava um cigarro. Tivera 
uma boa refeio. Mariana sabia cozinhar. E era, tambm, uma tima dona de casa. Notava-se isso no arranjo 
da habitao, nos mais pequenos pormenores. O seu quarto ali estava para demonstr-lo. Os mveis eram 
pobres, mas limpos, e tinham um ar de dignidade. No h dvida de que, assim como os animais domsticos  
o co e o gato, pelo menos  refletem o temperamento e o carter dos donos, tambm os mveis e os objetos 
mais insignificantes de uma casa refletem alguma coisa da vida dos seus proprietrios. Deles se desprende 
frieza ou calor, cordialidade ou reserva. So testemunhas que a toda a hora esto contando, numa linguagem 
silenciosa, o que viram e o que sabem. A dificuldade est em encontrar o momento mais favorvel para 
recolher a confisso, a hora mais ntima, a luz mais propcia.
         Seguindo no ar o movimento envolvente do fumo que subia, Abel ouvia as histrias que lhe 
contavam a cmoda e a mesa, as cadeiras e o espelho. E tambm as cortinas da janela. No eram histrias 
com princpio, meio e fim, mas um fluir doce de imagens, a linguagem das formas e das cores que deixam 
uma impresso de paz e serenidade.
         Sem dvida, o estmago conchegado de Abel tinha parte importante nesta sensao de plenitude. 
Havia j muitos meses que estava privado das simples refeies domsticas, do sabor particular da comida 
feita pelas mos e pelo paladar de uma tranquila dona de casa. Comia nas tabernas a meia-econmica insossa 
e os carapaus fritos que, a troco de escassos escudos, do aos pouco abonados a iluso de que se alimentaram. 
Talvez Mariana desconfiasse disto mesmo. De outro modo, no se compreenderia o convite, de to poucos 
dias datavam as suas relaes. Ou talvez Silvestre e Mariana fossem diferentes. Diferentes de todas as pessoas 
que conhecera at a. Mais humanas, mais simples, mais abertas. Que  que dava  pobreza dos seus 
hospedeiros aquele som de metal puro? (Por uma associao de ideias obscura, era assim que Abel sentia a 
atmosfera da casa.) A felicidade? Ser pouco. A felicidade comparticipa da natureza do caracol, que se retrai 
quando lhe tocam. Mas, a no ser a felicidade, que poderia ser, ento? Talvez a compreenso... Mas a 
compreenso  uma palavra, apenas. Ningum pode compreender outrem, se no for esse outrem. E ningum 
pode ser, ao mesmo tempo, outrem de si mesmo.
         O fumo continuava a escapar-se do cigarro esquecido. Estar na natureza de certas pessoas esta 
capacidade de desprender de si mesmas algo que transfigura a vida? Algo, algo... Algo, pode ser tudo ou 
quase nada. O que interessa  saber o qu. Mas, ento, vejamos, ponhamos a pergunta: o qu?
         Abel pensou, tornou a pensar e, no fim, tinha diante de si apenas a pergunta. Parecia um beco sem 
sada. Que pessoas so essas? Que capacidade  essa? Em que consiste a transfigurao? No estaro estas 
palavras demasiado longe do que querem exprimir? A circunstncia de ser foroso o uso das palavras no 
dificultar a resposta? Mas, nesse caso, como ach-la?
         Alheio ao esforo especulativo de Abel, o cigarro consumiu-se at aos dedos que o seguravam. Com 
precauo para no fazer cair o longo morro em que o cigarro se transformara, deitou a ponta para o cinzeiro. 
Ia retomar o fio do raciocnio, quando soaram duas pancadas leves na porta. Levantou-se:
          Pode entrar.
         Apareceu Mariana com uma camisa na mo:
 Desculpe incomod-lo, senhor Abel, mas no sei se esta camisa ter arranjo...
         Abel segurou a camisa, mirou-a e sorriu:
          Que acha, senhora Mariana?
         Ela sorriu tambm e aventurou:
          No sei... J est velhinha...
 Faa-lhe o que puder. Sabe?... s vezes tenho mais necessidade de uma camisa velha do que de 
uma nova... Acha esquisito?
 O senhor Abel l sabe as razes que tem...  voltou a camisa por todos os lados, como se quisesse 
evidenciar-lhe a decrepitude, e acrescentou:  O meu Silvestre teve uma parecida com esta. Parece-me que 
ainda tenho uns bocados... Ao menos, para o colarinho...
          Isso d muito trabalho. Talvez no...
         Deteve-se. Viu nos olhos de Mariana a pena que lhe daria se no acedesse ao arranjo da camisa:
          Obrigada, senhora Mariana. Ficar melhor...
         Mariana saiu. To gorda que fazia riso, to boa que dava vontade de chorar.
Ser bondade, pensou Abel.  pouco ainda, pensou depois. H aqui qualquer coisa que me 
escapa. So felizes, v-se. So compreensivos, so bons, bem o sinto. Mas falta qualquer coisa, talvez a mais 
importante, talvez a que  a causa da felicidade, da compreenso, da bondade. Talvez o que   deve ser isto  
simultaneamente, causa e consequncia da bondade, da compreenso e da felicidade.
         Por agora, Abel no achava sada no labirinto. O jantar reconfortante teria a sua parte de 
responsabilidade no embotamento do raciocnio. Pensou em ler um bocado, antes de se deitar. Era cedo, 
pouco passava das dez e meia, tinha bastante tempo  sua frente. Mas ler no lhe apetecia. Sair tambm no, 
apesar do tempo seguro, do cu sem nuvens, da temperatura amena. Sabia o que iria ver na rua: pessoas 
vagarosas ou apressadas, interessadas ou indiferentes. Casas sombrias, casas iluminadas. O correr egosta da 
vida, a sofreguido, o temor, o anseio, a abordagem pela mulher que passa, a expectativa, a fome, o luxo  e a 
noite que levanta as mscaras para mostrar a verdadeira face do homem.
         Decidiu-se. Iria palestrar com Silvestre, com o seu amigo Silvestre. Sabia que a altura era m, que o 
sapateiro estava ocupado com um trabalho de urgncia, mas, se no lhe pudesse falar, ao menos estaria ao p 
dele, observando-lhe os movimentos das mos hbeis, sentindo-lhe o olhar tranquilo. Tranquilidade, 
esquisita coisa..., pensou.
         Silvestre, ao v-lo entrar na marquise, sorriu e disse:
          Hoje no h joguinho, hem?!...
         Abel sentou-se em frente dele. A lmpada baixa iluminava as mos do sapateiro e o sapato de 
criana em que trabalhava.
          Que remdio! O senhor no tem horrio de trabalho...
          J tive. Hoje sou industrial...
         Pronunciou a ltima palavra de um modo que lhe tirava toda a significao. Mariana, encostada ao 
tanque da roupa, a coser a camisa, gracejou:
          Industrial sem capital...
         Abel tirou o mao de cigarros e ofereceu a Silvestre:
          Quer um destes?
          Pois sim.
         Mas Silvestre tinha as mos ocupadas e no podia tirar o cigarro. Foi Abel quem o tirou e lho meteu 
na boca e, depois, lho acendeu. Tudo isto em silncio. Ningum falou em contentamento, mas todos estavam 
contentes. A sensibilidade mais apurada do rapaz apreendeu a beleza do momento. Uma beleza pura. 
Virginal, pensou.
         A cadeira dele era mais alta que os bancos onde se sentavam Silvestre e Mariana. Via-lhes as 
cabeas curvadas, os cabelos brancos, a testa rugosa de Silvestre, as faces brilhantes e vermelhas de Mariana 
 e a luz familiar que os envolvia. O rosto de Abel estava na sombra, a brasa do novo cigarro acendido 
marcava-lhe o lugar da boca.
         Mariana no era pessoa para longos seres. Alm disso, a sua vista fatigada diminua  noite. Para 
seu desespero, a cabea pendia bruscamente para a frente. Para seres, no contassem com ela. Para 
madrugadas, podiam convid-la.
          J ests a amarrar perdizes  disse Silvestre.
          Que ideia, homem! Como se eu fosse algum perdigueiro!...
         Mas era intil. Ainda no tinham passado cinco minutos e j Mariana se levantava. Tinha os olhos 
chumbados de sono, o senhor Abel que desculpasse.
         Os dois homens ficaram ss.
          Ainda no lhe agradeci o jantar  disse Abel.
          Ora! Que importncia tem isso?
          Para mim, muita.
          No diga tal. Jantar de pobre...
 Oferecido a outro mais pobre ainda... Tem graa!  a primeira vez que chamo a mim mesmo 
pobre. Nunca tinha pensado nisso.
         Silvestre no respondeu. Abel sacudiu a cinza do cigarro e continuou:
 Mas no  por essa razo que disse que, para mim, tinha muita importncia.  que nunca me senti 
to bem como hoje. Quando me for embora, hei de levar saudades suas.
          Mas, por que h de ir-se embora?
         Com um sorriso, Abel respondeu:
 Lembre-se do que lhe disse no outro dia... Quando me sinto agarrado, corto o tentculo...  Aps 
um breve silncio que Silvestre no interrompeu, acrescentou:  Espero que no me julgue um ingrato...
 No o julgo ingrato. Se no soubesse quem , se no conhecesse a sua vida, era natural que 
pensasse assim.
         Abel inclinou-se para a frente, num movimento de curiosidade irreprimvel:
          Como  possvel que o senhor seja to compreensivo?
         Silvestre levantou a cabea, piscando os olhos feridos pela luz:
 Na minha profisso no  vulgar, no  o que quer dizer?
          Sim... Talvez...
 E olhe que sempre fui sapateiro!... O senhor  apontador e  pessoa sabedora. Tambm ningum 
julgaria...
          Mas, eu...
          Acabe. Mas estudou, no ?
          Realmente.
 Pois eu tambm estudei. Tenho a instruo primria. Depois, li umas coisas, aprendi...
         Como se o sapato exigisse toda a sua ateno, Silvestre calou-se, baixou mais a cabea. A luz 
iluminava-lhe a nuca poderosa e as omoplatas musculosas.
          Estou a incomod-lo no seu trabalho  disse Abel.
 No est. Isto  coisa que eu j podia fazer de olhos fechados.
         Ps de parte o sapato, pegou em trs linhas e comeou a encer-las. Fazia-o em movimentos largos e 
harmoniosos. Pouco a pouco, a cada passagem pela cera, a linha branca tomava uma cor amarela cada vez 
mais viva.
 Se o fao com os olhos abertos,  pela fora do hbito  continuou.  E tambm porque, se os 
fechasse, o trabalho levaria mais tempo.
          Sem contar que sairia imperfeito  acrescentou Abel.
 Claro. Isso prova que at quando podemos fechar os olhos, os devemos conservar abertos...
          O que acaba de dizer tem todo o ar de uma charada.
 Olhe que no  tanto como julga. No  verdade que, com a minha prtica do ofcio, podia 
trabalhar de olhos fechados?
 At certo ponto. O senhor concordou em que, nessas condies, a obra no sairia perfeita.
 Por isso os abro. Tambm no  verdade que, com a minha idade, poderia fechar os olhos?
          Morrer?
         Silvestre, que pegara na sovela e furava a sola para comear a coser, suspendeu o movimento:
          Morrer?! Que ideia? No tenho pressa nenhuma.
          Ento?
          Fechar os olhos s quer dizer no ver.
          Mas, no ver o qu?
         O sapateiro fez um gesto amplo, como se quisesse abarcar tudo aquilo em que estava a pensar:
          Isto... A vida... As pessoas...
 Continua a charada. Confesso que no adivinho onde quer chegar.
          Nem podia adivinhar. No sabe...
 Est a intrigar-me. Vamos ver se me oriento. O senhor disse que at mesmo quando podemos 
fechar os olhos os devemos conservar abertos, no foi? Tambm disse que os conservava abertos para ver a 
vida, as pessoas...
          Exatamente.
 Ora, bem. Todos ns temos os olhos abertos e vemos as pessoas, a vida... E, isso, quer se tenha seis 
ou sessenta anos...
          Depende da maneira de ver.
 Ah! Estamos a chegar ao ponto! O senhor Silvestre conserva os olhos abertos para ver de uma 
certa maneira.  isto que quer dizer?
          Foi o que eu disse.
          De que maneira?
         Silvestre no respondeu. Esticava agora as linhas. Os msculos do brao contraam-se.
 Estou a ma-lo  disse Abel.  Se conversamos no ter o trabalho pronto amanh...
          E se no conversamos ficar intrigado toda a noite.
          Isso  verdade.
 Est cheio de curiosidade, hem?! Est como eu no outro dia. Ao fim de dezasseis anos de mergulho 
na vida, descobriu uma ave rara. Um sapateiro filsofo!  quase a sorte grande!...
         Abel teve a impresso de que Silvestre troava dele, mas disfarou o mau humor e respondeu, num 
tom levemente agridoce:
 Gostaria de saber, sem dvida, mas nunca tentei forar ningum a dizer o que no quer. Nem 
mesmo aquelas pessoas em quem alguma vez confiei...
          Essa traz o meu endereo. C recebi.
         O tom das palavras era de tal maneira jocoso e trocista que Abel teve de dominar-se para no 
responder com azedume. Mas como a nica resposta possvel seria azeda, preferiu calar-se. Intimamente 
sentia que no estava zangado com Silvestre, que no poderia zangar-se ainda que o quisesse.
          Ficou aborrecido?  perguntou o sapateiro.
          N... no...
 Esse no quer dizer sim. Aprendi consigo a ouvir tudo o que me dizem e a prestar ateno  
maneira como dizem.
          No acha que tenho razo?
          Tem. Tem razo e impacincia.
 Impacincia? Mesmo agora lhe disse que no foro ningum a falar!...
          E se pudesse forar?
 Se pudesse... Se pudesse, for-lo-ia a si. Ora, a tem! Est satisfeito?
         Silvestre riu alto:
 Doze anos de contacto com a vida ainda no o ensinaram a dominar-se.
          Ensinaram-me outras coisas.
          Ensinaram-no a ser desconfiado.
          Como pode dizer isso? No confiei eu em si?
 Confiou. Mas o que disse podia ser dito a qualquer outra pessoa. Bastaria que sentisse aquela tal 
vontade de desabafar.
           certo. Mas repare que foi consigo que eu desabafei.
 Agradeo-lhe... Agora no estou a brincar. Creia que lhe agradeo.
          No preciso que me agradea.
         Silvestre ps de parte o sapato e a sovela e empurrou para um lado a banca de trabalho. Mudou a 
posio da lmpada, de forma a poder ver o rosto de Abel:
          Eia! O que a vai de aborrecimento!...
         O rosto de Abel carregou-se mais. Sentiu tentaes de levantar-se e sair.
 Oua, oua  disse Silvestre.   verdade, ou no, que desconfia de toda a gente? Que  um... um... 
falta-me a palavra.
          Um ctico?
          Isso, um ctico.
 Talvez. Tenho levado tantos trambolhes que para admirar seria se o no fosse. Mas o que  que, 
em mim, o levou a considerar-me ctico?
          Em tudo o que me contou, no vi outra coisa.
          Mas, em certa altura, comoveu-se.
 Isso no quer dizer nada. Comovi-me por causa da sua vida, do que sofreu. Tambm me comovo 
com essas grandes desgraas em que, s vezes, os jornais falam...
 Est a fugir  questo. Por que  que eu sou um ctico?
 Todos os rapazes da sua idade o so. Nestes tempos, pelo menos...
 E que rapazes conhece que tenham tido uma vida como a minha?
 S a si. E  por isso mesmo que no lhe valeu de muito o que viveu. Quer conhecer a vida, disse-
me. Para qu? Para seu uso pessoal, para seu proveito, e nada mais!
          Quem lho disse?
          Adivinhei. Tenho um dedo torto que adivinha...
          Est outra vez a brincar?
 J passou... Lembra-se de me ter falado nos tais tentculos que nos agarram?
          Ainda h bocado falei neles...
 Pois,  a que bate o ponto! Essa preocupao de no ser agarrado...
         Abel interrompeu-o. A sua expresso de mau humor desaparecera. Estava agora interessado, quase 
exaltado:
 E da? Quer ver-me com um emprego fixo onde tenha que jazer toda a vida? Quer ver-me com uma 
mulher agarrada? Quer ver-me a fazer a vida de toda a gente?
 No quero, nem deixo de querer. Se o meu querer tivesse alguma importncia para si, o que eu 
queria  que a sua preocupao de fugir a prises no o levasse a ficar prisioneiro de si mesmo, do seu 
ceticismo...
         Abel teve um sorriso amargo:
          E eu que julgava estar a viver uma vida exemplar!...
          Est, se dela tirar o que eu tirei da minha...
          E o que foi? Pode saber-se?
         Silvestre abriu a ona, tirou uma mortalha e, vagarosamente, fez um cigarro. Com a primeira fumaa, 
respondeu:
          Uma certa maneira de ver...
 Voltmos ao princpio. O senhor sabe o que quer dizer. Eu no sei. Logo, a conversa no  
possvel!
          . Quando eu lhe disser o que sei.
 Ora, at que enfim! Se tivesse comeado por a, teria sido bem melhor.
          No acho. Precisava, primeiro, de ouvi-lo.
          Agora ouo eu. E, ai de si!, se no me convencer!
         Ameaava-o com o dedo indicador, mas o rosto era amigvel. Silvestre correspondeu com um 
sorriso  ameaa. Depois, deixou pender a cabea para trs e fitou o teto. Os tendes do pescoo pareciam 
cordas repuxadas. A gola aberta da camisa deixava ver a parte superior do peito, enegrecido de pelos, onde 
brilhavam pequenos fios de prata encrespados. Devagar, como se da abstrao regressasse pesado de 
recordaes, Silvestre olhou Abel. Em seguida, comeou a falar, numa voz funda que tremia em certas 
palavras e como que se retesava e enrijecia noutras:
 Oua, meu amigo. Quando eu tinha dezasseis anos j era o que sou hoje: sapateiro. Trabalhava 
num cubculo com mais quatro companheiros, de manh  noite. De inverno, as paredes escorriam gua; de 
vero, morria-se de calor. Adivinhou quando disse que lhe parecia que, aos dezasseis anos, a vida j no tinha 
nada de maravilhoso para mim. O Abel passou fome e frio porque quis, eu passei-os mesmo sem querer. Faz a 
sua diferena. Foi por sua vontade que comeou a fazer essa vida, e no o censuro. A minha vontade no foi 
achada nem chamada para a vida que tive. Tambm no lhe contarei os meus anos de garoto, apesar de ser j 
bastante velho para dever ter prazer em record-los. Mas foram to tristes que, para o caso, s vinham 
indisp-lo. Mau passadio, pouca roupa, muitas pancadas, e est tudo dito. So tantas as crianas que vivem 
assim, que a gente j nem se admira...
         Com o queixo assente no punho cerrado, Abel no perdia uma palavra. Os seus olhos escuros 
brilhavam. A boca, de traos femininos, ganhara dureza. Todo o rosto estava atento.
 Aos dezasseis anos vivia desta maneira  continuou Silvestre.  Trabalhava no Barreiro. Conhece o 
Barreiro? J l no vou h um bom par de anos, no sei como aquilo est agora. Mas, adiante. Como lhe disse, 
tirei a instruo primria.  noite... Tinha um professor que no poupava a palmatria. Apanhei como os 
outros. A vontade de aprender era muita, mas o sono ainda era mais. Ele devia saber o que fazia durante o dia, 
lembro-me de que lho disse uma vez, mas era o mesmo que nada. Nunca me poupou. J l est. Que a terra 
lhe seja leve... Naquele tempo, estava a monarquia a dar o ltimo suspiro. Acredito que foi mesmo o ltimo...
           republicano, claro  observou Abel.
 Se ser-se republicano  no gostar da monarquia, sou republicano. Mas a mim parece-me que 
monarquia e repblica, no fim de contas, so palavras. Parece-me, hoje... Naquela altura, era republicano 
convicto e a repblica mais que uma palavra. Veio a repblica. No meti para a prego nem estopa, mas 
chorei com tanta alegria como se tudo tivesse sido feito por mim. O Abel, que vive nestes tempos duros e 
desconfiados, no pode imaginar as esperanas daqueles dias. Se toda a gente sentiu o que eu senti, houve 
uma poca em que no houve gente infeliz de uma ponta  outra de Portugal. Era uma criana, bem sei, sentia 
e pensava como criana. Mais tarde, comecei a ver que me roubavam as esperanas. A repblica j no era 
novidade, e nesta terra s se apreciam as novidades. Entramos como lees e samos como sendeiros. Est-nos 
na massa do sangue... Havia muito entusiasmo, muita dedicao, era como se nos tivesse nascido um filho. 
Mas havia, tambm, muita gente disposta a dar cabo dos nossos ideais. E no se olhava a meios. Depois, o 
pior foi terem aparecido uns tantos que queriam,  viva fora, salvar a Ptria. Como se ela estivesse para se 
perder!... Comeou cada qual a no saber o que queria. Amigos de ontem eram inimigos no dia seguinte, sem 
bem saberem porqu. Eu ouvia aqui, ouvia ali, matutava, queria fazer qualquer coisa e no sabia o que havia 
de ser. Tive momentos em que daria a vida de boa vontade, se ma pedissem. Metia-me em discusses com os 
meus companheiros de banco. Um deles era socialista. Era o mais inteligente de ns todos. Sabia muita coisa. 
Acreditava no socialismo e sabia dizer porqu. A mim, emprestou-me livros. Estou a v-lo. Era mais velho 
que eu, muito magro e muito plido. Os olhos dele deitavam chamas quando falava de certas coisas. Por causa 
da posio em que trabalhava e porque era fraco, arqueava as costas. O peito metia-se-lhe para dentro. Dizia 
ele que gostava de mim porque eu era, ao mesmo tempo, forte e esperto...  calou-se, por momentos, 
reacendeu o cigarro que se apagara e prosseguiu:  Tinha o seu nome, chamava-se, tambm, Abel... J l vo 
mais de quarenta anos. Morreu antes da guerra. Um dia, faltou  oficina sem avisar. Fui visit-lo. Vivia com a 
me. Estava na cama, cheio de febre. Tinha deitado sangue pela boca. Quando entrei no quarto, sorriu. Fez-
me impresso aquele sorriso, parecia que estava a despedir-se de mim. Dois meses depois, morreu. Deixou-
me os livros que tinha. Ainda os conservo...
         Os olhos de Silvestre afundavam-se, recuavam para o passado distante. Viam o quarto pobre do 
doente, to pobre como o seu, as longas mos de unhas arroxeadas, o rosto plido de olhos como brasas vivas.
          Nunca teve um amigo, pois no?  perguntou.
          No, nunca tive...
  pena. No sabe o que  ter um amigo. Tambm no sabe o que custa perd-lo, nem a saudade 
que se sente quando o recordamos. A tem uma das coisas que a vida no lhe ensinou...
         Abel no respondeu, mas acenou com a cabea lentamente. A voz de Silvestre, as palavras que 
ouvia, alteravam a ordem das suas ideias. Uma luz, no muito viva mas insistente, introduzia-se no seu 
esprito, iluminava sombras e desvos.
 Depois, veio a guerra  continuou Silvestre.  Fui para a Frana. No fui por gosto. Mandaram-me, 
no tive outro remdio. Andei por l, metido at aos joelhos na lama da Flandres. Estive em La Couture... 
Quando falo na guerra, no sou capaz de dizer muita coisa. Imagino o que deve ter sido esta ltima para quem 
a viveu, e calo-me. Se aquela foi a Grande Guerra, que nome se h de dar a esta? E que nome se dar  
prxima?  Sem aguardar resposta, prosseguiu:  Quando voltei, havia qualquer coisa de diferente. Dois anos 
sempre trazem mudanas. Mas quem estava mais mudado era eu. Voltei ao banco, noutra oficina. Os meus 
novos camaradas eram j homens, pais de filhos, que no iam, diziam eles, em cantigas. Assim que 
descobriram quem eu era, intrigaram-me com o patro. Fui despedido e ameaado com a polcia...
         Silvestre teve um sorriso desdentado, como se recordasse qualquer episdio burlesco. Mas logo 
serenou:
 Os tempos tinham mudado. As minhas ideias, antes de eu ir para a Frana, podiam ser ditas em voz 
alta junto aos camaradas, que nenhum se lembraria de as denunciar  polcia ou ao patro. Agora, tinha que as 
calar. Calei-me. Foi por essa altura que conheci a minha Mariana. Quem a v hoje, no  capaz de imaginar o 
que ela era nesse tempo. Bonita como uma manh de maio!...
         Quase sem refletir, Abel perguntou:
          Gosta muito da sua mulher?
         Silvestre, apanhado de surpresa, hesitou. Depois, serenamente, com uma convico profunda, 
respondeu:
          Gosto. Gosto muito.
 o amor, pensou Abel.  o amor que lhes d esta tranquilidade, esta paz. E, bruscamente, 
entrou-lhe no corao um desejo violento de amar, de dar-se, de ver na secura da sua vida a flor vermelha do 
amor. A voz serena de Silvestre continuava:
          Lembrei-me do meu amigo Abel, do outro...
         Sorrindo, o rapaz fez um gesto de agradecimento pela delicadeza da inteno.
 Reli os livros que ele me tinha deixado e comecei a viver duas vidas. De dia, era o sapateiro, um 
sapateiro calado que no via mais longe que as solas dos sapatos que arranjava.  noite,  que era 
verdadeiramente eu. No se admire se a minha maneira de falar  demasiadamente fina para a minha 
profisso. Convivi com muita gente culta e se no aprendi tudo o que devia, aprendi, pelo menos, o que podia. 
Arrisquei a vida algumas vezes. Nunca me recusei a qualquer tarefa, por mais perigosa que fosse...
         A voz de Silvestre tornava-se lenta, como se se recusasse a uma recordao penosa, ou como se, no 
podendo evitar falar nela, procurasse a maneira de diz-la:
 Uma vez houve uma greve de ferrovirios. Ao fim de vinte dias foram mobilizados. Como 
resposta, o comit central ordenou que as estaes fossem abandonadas. Eu estava em contacto com os 
ferrovirios, tinha uma misso a cumprir junto deles. Era um elemento de confiana, apesar de a idade no ser 
muita. Mandaram-me chefiar um grupo que devia percorrer um setor do Barreiro,  noite. Devamos colar 
panfletos. De madrugada tivemos um recontro com elementos da Juventude Monrquica...
         Silvestre enrolou novo cigarro. As mos tremiam-lhe um pouco e os olhos recusavam-se a fitar Abel:
 Um deles morreu. Mal lhe vi a cara, mas era novo. Ficou estendido na rua. Caa uma chuva 
miudinha e fria, e as ruas estavam cheias de lama. Veio a guarda e ns fugimos, antes que nos identificassem. 
Nunca se soube quem o matou...
         Um silncio pesado, como se a morte tivesse vindo sentar-se entre os dois homens. Silvestre 
conservava a cabea baixa. Abel tossiu levemente e perguntou:
          E depois?
 Depois... Foi assim durante anos. Mais tarde, casei. A minha Mariana sofreu muito por minha 
causa. Em silncio. Pensava que eu tinha razo e nunca me censurou. Nunca tentou afastar-me do meu 
caminho. Isso lhe devo. Os anos passaram. Hoje, estou velho...
         Silvestre levantou-se e saiu da marquise. Voltou da a minutos com a garrafa de ginja e dois copos:
          Quer uma ginja para aquecer?
          Quero.
         Os copos cheios, os dois homens ficaram silenciosos.
          Ento?  perguntou Abel, minutos depois.
          O qu?
          Onde est a tal maneira de ver a vida?
          No descobriu?
          Talvez, mas preferia que me dissesse.
         Silvestre engoliu a aguardente de um trago, limpou a boca s costas da mo e respondeu:
 Se no descobriu por si mesmo,  porque no soube dizer-lhe o que sinto. Nem admira. H coisas 
que so to difceis de dizer... Julgamos que ficou tudo dito e, afinal...
          No fuja.
 No, no fujo. Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrs desta 
vida desgraada que os homens levam, h um grande ideal, uma grande esperana. Aprendi que a vida de 
cada um de ns deve ser orientada por essa esperana e por esse ideal. E que se h gente que no sente assim, 
 porque morreu antes de nascer.  Sorriu e acrescentou:  Esta frase no  minha. Ouvi-a h muitos anos...
 Na sua opinio, eu perteno ao grupo daqueles que morreram antes de nascer?
 Pertence a outro grupo, ao grupo dos que ainda no nasceram.
          No est a esquecer-se da experincia que tenho?
 No esqueo nada. A experincia s vale quando  til aos outros e o Abel no  til a ningum.
 Reconheo que no sou til. Mas qual foi a utilidade da sua vida?
 Esforcei-me. E se no o consegui ficou, ao menos, o esforo.
           sua maneira. E quem lhe diz que  a melhor?
 Hoje quase toda a gente diz que  a pior. Pertencer o Abel ao nmero dos que falam assim?
          Para responder-lhe francamente, no sei...
 No sabe? Depois do que viveu e do que viu, com a idade que tem, ainda no sabe?
         Abel no pde suportar o olhar de Silvestre e baixou a cabea.
 Como  possvel que no saiba?  insistiu o sapateiro.  Doze anos a viver dessa maneira ainda no 
lhe mostraram a baixeza da vida dos homens? A misria? A fome? A ignorncia? O medo?
          Mostraram tudo isso. Mas os tempos so outros...
 Sim. Os tempos so outros, mas os homens so os mesmos...
          Uns, morreram... O seu amigo Abel, por exemplo.
 Mas outros nasceram. O meu amigo Abel... Abel Nogueira, por exemplo.
 Est a contradizer-se. Ainda agora me dizia que eu perteno ao grupo dos que ainda no 
nasceram...
         Silvestre puxou, de novo, a banca para diante de si. Agarrou no sapato e recomeou a trabalhar. Com 
voz sacudida, respondeu:
          Talvez no me tenha compreendido.
          Compreendo-o melhor do que supe...
          E no me d razo?
         Abel levantou-se, olhou o quintal atravs dos vidros. A noite estava escura. Abriu a janela. Tudo era 
sombra e silncio. Mas no cu havia estrelas. A via lctea desdobrava o seu caminho luminoso de horizonte a 
horizonte. E da cidade subia para as alturas um rumor surdo de cratera.
 


         

         XXII

         Graas  vitalidade dos seus seis anos, Henrique restabeleceu-se com rapidez. No entanto, apesar da 
benignidade da doena, o seu carter parecia ter-se modificado. Talvez por causa dos mimos excessivos que 
lhe haviam sido dispensados, exacerbara-se-lhe a sensibilidade. A uma palavra mais rspida, as lgrimas 
vinham-lhe aos olhos e a estava ele a chorar.
         De bulioso que era tornara-se comedido. Na presena do pai punha-se srio e acompanhava-o no 
silncio. Fitava-o com uns olhares ternos, uma admirao muda, uma contemplao apaixonada. O pai no se 
mostrava mais afetuoso: no havia, portanto, uma retribuio de interesse. O que atraa Henrique, agora, era 
exatamente o que antes o afastara: o silncio, as frases breves, o ar ausente. Por motivos que ignorava, e que 
no compreenderia se os conhecesse, tivera o pai  cabeceira. Aquela permanncia, o rosto preocupado e, ao 
mesmo tempo, reservado, a atmosfera de hostilidade que envolvia a casa, tudo isto mais a recetividade, o 
aguamento da perceo, provocados pela doena, impeliam-no, obscuramente, para o pai. No seu pequeno 
crebro entreabrira-se uma das muitas portas fechadas at a. Sem que tivesse conscincia disso, estava dando 
um passo para o amadurecimento. Notava a desarmonia familiar.
         Decerto, antes, assistira a cenas violentas entre os pais. Mas assistira como espectador indiferente, 
como se presenciasse um jogo que nem de longe nem de perto o afetaria. Agora no. Ainda sob a influncia 
da doena, sob a impresso do estado mrbido anterior, captava, sem que nisso entrasse o menor da sua 
vontade, as manifestaes do conflito latente. O prisma atravs do qual via os pais rodara, ligeiramente mas o 
bastante para v-los de outro modo. Tarde ou cedo essa mudana se daria: a doena no fizera mais que 
apress-la.
         Sem dvida, a me no perdera nada no seu conceito: via-a talqualmente antes. Mas o pai aparecia-
lhe com outro aspeto. Henrique tinha seis anos: impossvel dar-se conta de que a transformao se dera em si. 
Logo, o pai  que se transformara. Mas o certo  que o pai no lhe falava nem o beijava mais do que antes. 
Esta evidncia remetia Henrique, na falta da autntica explicao, para os cuidados que o pai lhe prodigalizara 
durante a doena. E, assim, tudo estava certo. Afinal, o interesse de Henrique no era mais que uma 
retribuio. No do interesse presente, mas do interesse passado. Um reconhecimento. Uma gratido. Cada 
poca da vida toma a explicao mais fcil e imediata.
         Este interesse manifestava-se a propsito e a despropsito.  refeio, a distncia que ia da cadeira 
de Henrique  do pai era menor do que a que o separava da me. Quando Emlio,  noite, punha em ordem os 
seus papis, as requisies e as encomendas que conseguira durante o dia, o filho encostava-se  mesa, a v-lo 
trabalhar. Se algum desses papis caa  e Henrique desejava-o com toda a sua capacidade de desejar  corria 
pressuroso para lho entregar, e se o pai, em sinal de agradecimento, lhe sorria, Henrique era a mais feliz das 
crianas. Mas havia ainda felicidade maior, e maior porque no admitia comparaes: era quando o pai lhe 
pousava a mo na cabea. Nesses momentos, Henrique quase perdia a viso.
         Em Emlio, o interesse sbito e aparentemente inexplicvel do filho provocou duas reaes 
diferentes e opostas. Primeiro, a comoo. Tinha a vida to oca de afetos, to distante do amor, sentia-se to 
isolado, que aquelas pequenas atenes, aquela presena constante do filho a seu lado, aquela dedicao 
obstinada, o comoveram. Mas, logo, teve a perceo do perigo: tal interesse, tal comoo, s serviam para 
tornar mais difcil a deciso que tomara de partir. Endureceu, procurou afastar o filho, vincando mais os 
traos do seu carter que poderiam contribuir para desanim-lo. Mas a criana no desistiu. Se Emlio 
recorresse  violncia talvez o tivesse afastado. No podia. Nunca lhe batera, e no lhe bateria mesmo que as 
pancadas fossem o preo da sua libertao. Pensar que a mo com que acariciava o filho, e por este amada por 
causa da carcia, o agrediria, produzia-lhe um mau estar intenso.
         Emlio pensava de mais. Em tudo o seu crebro se prendia. Andava ao redor dos problemas, metia-se 
neles, afogava-se neles, e, por fim, o seu prprio pensamento j era um problema. Esquecia o que mais 
importava e punha-se  procura dos motivos, das razes. A vida corria-lhe ao lado e no atentava nela. A 
questo a resolver estava ali e no a via. Ainda que ela pudesse gritar: Estou aqui! Olha para mim!, no a 
ouviria. Agora, em vez de procurar o processo de afastar o interesse do filho, dava-lhe para procurar as razes 
desse interesse. E porque no as encontrou, o crebro, lanado na teia do inconsciente, concluiu por uma 
explicao supersticiosa. Fora porque anunciara ao filho que se iria embora que ele piorara; era pela mesma 
razo que a criana, amedrontada pela perspetiva de perd-lo, manifestava este interesse inesperado. Quando 
o pensamento emergia deste tremedal paralisante, Emlio dava-se conta da irracionalidade da concluso: 
Henrique mal ouvira as suas palavras, dera-lhes tanta ateno como ao esvoaar de uma mosca, agora visto, 
logo esquecido. Alm disso, as ltimas palavras, as palavras definitivas e irremediveis, no as ouvira porque 
adormecera. Mas aqui, o crebro de Emlio encetava nova viagem na corda bamba do subconsciente: as 
palavras ditas, ainda que no ouvidas, ficam no ar, pairam na atmosfera, so, por assim dizer, respiradas, e 
produzem efeitos tal como se tivessem encontrado no seu caminho ouvidos que as entendessem. Concluso 
insensata, supersticiosa, toda tecida de agoiros e mistrios.
         Para Carmen, o que se estava passando era o mais certo sinal da perversidade do marido. No 
contente por ter-lhe negado a felicidade, queria agora roubar-lhe o seu ltimo bem, o amor do filho. Lutou 
contra os maus desgnios de Emlio. Redobrou de carinhos para a criana. Mas Henrique dava mais ateno a 
um simples olhar do pai que  exuberncia do afeto da me. Carmen, desesperada, chegou a pensar que o 
marido o embruxara, que lhe dera a beber qualquer droga para modificar-lhe os sentimentos. Encasquetada 
esta ideia, a maneira de reagir estava  vista. s escondidas, submeteu a criana a rezas e defumadoiros. 
Atemorizou-o com ameaas de pancada se dissesse alguma coisa ao pai.
         Perturbado pelo cerimonial da bruxaria, Henrique tornou-se mais nervoso e excitvel. Amedrontado 
pelas ameaas aproximou-se mais do pai.
         Os esforos de Carmen eram inteis: nem bruxedos, nem carcias, desviavam o filho daquela 
obstinao. Tornou-se agressiva. Passou a procurar pretextos para lhe bater.  menor tropelia, chegava-lhe 
uma bofetada. Sabia que estava procedendo mal, mas no podia dominar-se. Quando, depois de bater na 
criana, a via chorar, chorava tambm, s escondidas, de raiva e de remorsos. O seu desejo seria bater at se 
cansar, embora soubesse que depois se arrependeria mil vezes. Perdera o domnio de si mesma. Apetecia-lhe 
fazer qualquer coisa de monstruoso, partir tudo  sua frente, correr a casa dando pontaps nos mveis e socos 
nas paredes, gritar aos ouvidos do marido, sacudi-lo, esbofete-lo. Trazia os nervos  flor da pele, perdera a 
prudncia e o vago temor de que, como mulher casada, sofria em relao ao marido.
         Uma noite, ao jantar, Henrique levara o seu banco para to perto do pai, que Carmen sentiu uma 
onda de furor subir-lhe pela garganta. Pareceu-lhe que a cabea lhe ia rebentar. Viu tudo danando  sua volta 
e, para no cair, precisou de amparar-se  mesa. O gesto instintivo fez tombar uma garrafa. O acidente, o 
estilhaar do vidro, foi o rastilho que fez explodir a clera. Quase num grito, exclamou:
          Estoy farta! Estoy farta!
         Emlio, que comia a sopa e ficara indiferente  queda da garrafa, levantou a cabea serenamente, 
olhou a mulher com os seus olhos claros e frios e perguntou:
          De qu?
         Carmen, antes de responder, deitou ao filho um olhar to carregado de irritao que a criana se 
encolheu, encostando-se ao brao do pai.
 Estoy farta de ti! Estoy farta da casa! Estoy farta do teu filho! Estoy farta desta vida! Estoy farta!
          Tens o remdio  mo.
          Isso querias tu! Que yo me fosse embora! Pero, no ir!
          Como queiras...
          Y si yo quisier ir?
          Descansa que no irei buscar-te.
         Acompanhou a frase de um sorriso escarninho que foi, para Carmen, pior que uma bofetada. Certa de 
que atingia profundamente o marido, ela respondeu:
          Talvez vs... Porque yo, si for, no ir sola!
          No percebo.
          Levo o meu filho!
         Emlio sentiu a mo da criana crispar-se no seu brao. Olhou-o um momento, viu-lhe os lbios 
trmulos e os olhos hmidos, e uma funda piedade, uma ternura irreprimvel, o invadiu. Quis poupar o filho 
quele espetculo degradante:
 Esta conversa  estpida. Nem reparas que ele est presente!
          No me importa! No te hagas de desentendido!...
          Acabou-se!
          Slo cundo yo lo quiera!
          Carmen!!
         A mulher ergueu o rosto para ele. O seu queixo forte, que a idade j afilava, parecia desafi-lo:
          No me das miedo! Ni t, ni nadie!
         Decerto, Carmen no tinha medo. Mas, de sbito, a voz quebrou-se-lhe na garganta, as lgrimas 
inundaram-lhe o rosto, e, arrastada por um impulso impossvel de dominar, lanou-se ao filho. De joelhos, a 
voz sacudida pelos soluos, murmurava, quase gemia:
 Hijo mio, mrame! Mira! Yo soy tu madre! Soy tu amiga! Nadie te gusta ms que yo! Mira!...
         Henrique tremia de pavor, agarrado ao pai. Carmen continuava o seu monlogo despedaado, vendo 
cada vez mais claramente que o filho lhe fugia, e, contudo, incapaz de renunciar a ele.
         Emlio levantou-se, arrancou o filho dos braos da mulher, ergueu-a e sentou-a num banco. Ela 
deixou-se levar, quase desfalecida.
          Carmen!
         Sentada no banco, toda curvada para a frente, as mos amparando a cabea, ela chorava. Do outro 
lado da mesa, Henrique parecia ir ter uma crise nervosa. Tinha a boca aberta, como se lhe faltasse o ar, os 
olhos esgazeados, fixos como os de um cego. Emlio correu para ele, precipitou palavras tranquilizadoras, 
levou-o para fora da cozinha.
         A muito custo a criana sossegou. Quando voltaram, Carmen enxugava os olhos ao avental sujo. Ali, 
to acabrunhada como uma velha, o rosto crispado e vermelho, fazia d. Emlio teve pena dela:
          Ests melhor?
          Estou. O menino?
          Est bem.
         Sentaram-se  mesa, em silncio. Em silncio, comeram. Aps a cena tempestuosa, a acalmia do 
cansao obrigava-os ao silncio. Pai, me e filho. Trs pessoas sob o mesmo teto, sob a mesma luz, respirando 
o mesmo ar. Famlia...
         Quando acabou a refeio, Emlio foi para a casa de jantar e o filho seguiu-o. Sentou-se num velho 
canap de verga, esgotado como se viesse de um trabalho violento. Henrique encostou-se-lhe aos joelhos.
          Como te sentes?
          Estou bem, paizinho.
         Emlio passou-lhe a mo pelos cabelos macios. Aquela pequena cabea, que a sua mo abrangia, 
enternecia-o. Afastou-lhe o cabelo dos olhos, passou-lhe os dedos sobre as sobrancelhas finas, e depois, 
descendo, seguiu-lhe o contorno do rosto at ao queixo. Henrique deixava-se acariciar como um cachorrinho. 
Quase no respirava, como se temesse que um sopro bastasse para interromper o afago. Tinha os olhos fixos 
no pai. A mo de Emlio continuava a percorrer as feies do filho, j esquecida do que fazia, num 
movimento mecnico de que a conscincia no participava. A criana sentiu o afastamento do pai. Deslizou-
lhe entre os joelhos e foi encostar a cabea ao peito dele.
         Agora Emlio estava livre do olhar do filho. Os seus olhos vagavam de mvel para mvel, de objeto 
para objeto. Sobre uma coluna, um rapaz de barro pintado iscava um anzol, tendo aos ps um aqurio vazio. 
Debaixo da estatueta, caindo em folhos do tampo da coluna, um napperon mostrava as habilidades domsticas 
de Carmen. Sobre o aparador e o guarda-pratas que apenas guardava louas de Sacavm brilhavam 
foscamente copos de vidro. Mais napperons insistiam na demonstrao da capacidade ornamentadora da dona 
da casa. Tudo era bao, como se uma camada de p, impossvel de levantar, ocultasse brilhos e cores.
         Os olhos de Emlio recebiam uma impresso de fealdade, de monotonia, de prosasmo. Uma 
impresso deprimente. O candeeiro do teto distribua a luz, de tal modo que a sua funo parecia, antes, a de 
distribuidor de sombras. E era moderno, o candeeiro. Tinha trs braos cromados, com os correspondentes 
globos. Por economia, s uma lmpada acendia.
         Da cozinha, Carmen fazia-se lembrada, suspirando profundamente enquanto remoa o desgosto e 
lavava a loia.
         Com o filho apertado contra o peito, Emlio via a chateza da sua vida presente, lembrava a chateza 
da sua vida passada. Quanto ao futuro... Tinha-o nos braos, mas esse no era o seu. Da a uns anos a cabea 
que agora se apoiava, feliz, no seu peito, pensaria por sua conta. O qu?
         Emlio afastou o filho devagar e fitou-o. O pensamento de Henrique dormitava ainda atrs da 
serenidade. Tudo estava oculto.
 


         

         XXIII

         Amlia sussurrou ao ouvido da irm:
          As pequenas tm aborrecimentos...
          O qu?
          Tm aborrecimentos...
         Estavam na cozinha. O jantar acabara pouco tempo antes. Adriana e Isaura caseavam camisas no 
quarto ao lado. Pela porta aberta derramava-se a luz para o corredor escuro. Cndida olhou a irm, incrdula:
          No acreditas?  insistiu Amlia.
         A outra encolheu os ombros e estendeu o lbio inferior, numa confisso de ignorncia.
 Se no andasses sempre com os olhos fechados, j terias visto como eu...
          Mas que podem elas ter?
          Isso queria eu saber.
          Ser impresso tua...
 Ser. Mas podem contar-se pelos dedos as palavras que disseram hoje uma  outra. E no foi s 
hoje. No reparaste?
          No.
  o que eu digo. Andas com os olhos fechados. Deixa-me c com a cozinha e vai l para dentro. E 
observa-as...
         Nos seus passinhos midos, Cndida meteu pelo corredor para o quarto onde estavam as filhas. 
Ocupadas com o trabalho, no levantaram a cabea quando a me entrou. A telefonia irradiava, sem grande 
rudo, a Lucia de Donizetti. Ouviam-se as notas agudssimas de um soprano. Mais para sondar o ambiente do 
que para criticar, Cndida declarou:
          Que voz!... Parece que est a dar cambalhotas!
         As filhas sorriram, com um sorriso to forado, to contrafeito, como as acrobacias vocais da 
cantora. Cndida ficou inquieta. Deu razo  irm. Algo se passava entre as filhas. Nunca as vira assim, 
reservadas e distantes. Dir-se-ia que estavam com medo uma da outra. Quis pronunciar uma frase 
conciliadora, mas a garganta, subitamente seca, no articulou palavra. Isaura e Adriana continuavam a 
trabalhar. A cantora abandonava a voz num smorzando quase quase inaudvel. A orquestra deu trs acordes 
rpidos, e a voz do tenor ergueu-se, forte e envolvente.
 Que bem canta o Gigli!  exclamou Cndida, para dizer alguma coisa.
         As duas irms entreolharam-se, hesitantes, querendo cada uma que fosse a outra a falar. Ambas 
sentiam a necessidade de responder. Foi Adriana quem disse:
           verdade. Canta muito bem. J est  velho.
         Feliz por poder, ainda que por minutos, reconstituir os antigos seres, Cndida defendeu o Gigli:
 Isso no quer dizer nada. Ora escuta... No h outro como ele. E l por estar velho... Os velhos 
tambm tm valor! Ora vejam se h algum que lhe ponha o p adiante! Valem mais os velhos que muitos 
novos...
         Como se a camisa que tinha no regao lhe tivesse proposto um problema difcil, Isaura baixou a 
cabea. A aluso da me ao valor dos velhos e dos novos, se bem que s remotamente pudesse atingi-la, 
fizera-lhe subir o sangue ao rosto. Como todos os que tm um segredo a esconder, via insinuaes e suspeitas 
em todas as palavras e olhares. Adriana notou-lhe a confuso, adivinhou o motivo, e procurou acabar a 
conversa:
          As pessoas idosas rabujam sempre contra os mais novos!
          Mas eu no estou a rabujar...  desculpou-se Cndida.
          Bem sei.
         Com estas palavras, Adriana fez um gesto de impacincia. Normalmente era calma, quase aptica, 
no tinha, como a irm, aquele frmito que se adivinhava sob a pele e que denunciava uma vida interior 
intensa e tumultuosa. Mas agora estava agitada. Todas as conversas a aborreciam e, mais que tudo, o ar 
eternamente perplexo e aflito da me. O tom de humildade com que ela falara tinha-a irritado.
         Cndida notou a secura da voz de Adriana e calou-se. Fez-se mais pequena na cadeira, puxou o seu 
crochet e procurou passar despercebida.
         De vez em quando, deitava,  socapa, um olhar para as filhas. Isaura ainda no abrira a boca. Estava 
to absorta no trabalho que parecia nem dar ateno  msica. Em vo, Gigli e Totti dal Monte garganteavam 
um dueto de amor: Isaura no ouvia; Adriana pouco mais. S Cndida, embora preocupada, se deixava enlear 
pela melodia fcil e doce de Donizetti. Da a pouco, ocupada com as malhas do crochet e a marcao do 
compasso, esquecia as filhas. Despertou-a da distrao a voz da irm, que chamava da cozinha.
 Ento?  perguntou Amlia, quando Cndida chegou junto dela.
          No dei por nada.
          J esperava...
 Oh, filha... mas isso  imaginao tua!... Quando te d para a desconfiana!...
         Amlia esgazeou os olhos, como se considerasse as palavras da irm absurdas e, mais do que 
absurdas, inconvenientes. Cndida no se atreveu a concluir a frase. Com um encolher de ombros que 
significava o desalento de ver-se interrompida, Amlia declarou:
          Eu verei. Tola fui em pensar que podia contar contigo.
          Mas desconfias de alguma coisa?
          Isso  comigo.
 Devias dizer-me. Elas so minhas filhas e gostaria de saber...
          Sabers a seu tempo!
         Cndida teve um assomo de irritao to inesperado como um acesso de fria num canrio 
engaiolado:
          Acho que tudo isso so tolices. Manias tuas!...
 Manias?  forte a palavra! Ento eu preocupo-me com as tuas filhas e chamas a isso manias?
          Mas, Amlia...
 No h c Amlia. Deixa-me com o meu trabalho e vai ao teu. Ainda hs de agradecer-me...
 Podia agradecer-te j, se me dissesses o que se passa. Que culpa tenho eu de no ser to 
observadora como tu?!
         Amlia olhou a irm, de soslaio, desconfiada. O tom parecia-lhe zombeteiro. Sentiu que a sua atitude 
no era razovel e esteve quase a confessar que nada sabia. Tranquilizaria a irm, e, as duas juntas, viriam 
talvez a descobrir o motivo do desentendimento de Isaura e Adriana. Mas reteve-a o orgulho. Confessar a sua 
ignorncia depois de deixar supor que alguma coisa sabia, era uma atitude que estava alm das suas foras. 
Costumara-se a ter sempre razo, a falar como um orculo e nem por sombras estava disposta a ceder o seu 
papel. Murmurou:
          Est bem. A ironia  fcil. Eu verei sozinha.
         Cndida voltou para junto das filhas. Ia inquieta, mais do que da primeira vez. Amlia sabia algo que 
no queria contar  e que seria? Adriana e Isaura guardavam a mesma distncia entre si, mas a me teve a 
sensao de que lguas as separavam. Sentou-se na sua cadeira, pegou no crochet, fez precipitadamente duas 
malhas, e, depois, incapaz de continuar, deixou pender as mos, hesitou um segundo, e perguntou:
          Que tm vocs?
         A esta pergunta direta, Isaura e Adriana tiveram um movimento de pnico. Por momentos, no 
puderam responder, mas depois falaram ao mesmo tempo:
          Ns? Nada...
         Adriana acrescentou:
          Oh, me, mas que ideia a sua!...
 claro,  uma tolice, pensou a me. Sorriu, fitou as filhas lentamente, uma por uma, e disse:
 Tens razo,  uma tolice. Coisas que se me meteram na cabea... No faam caso.
         Agarrou de novo o crochet e, mais uma vez, recomeou o trabalho. Isaura, da a pouco, levantou-se e 
saiu. A me seguiu-a com os olhos vagos, at ela desaparecer. Adriana curvou-se mais para a camisa. Agora a 
telefonia baralhava as vozes dos cantores. Devia tratar-se de um final de ato, com muitas pessoas no palco, 
umas de vozes agudas, outras de vozes graves. O conjunto era confuso e, sobretudo, barulhento. De repente, 
aps um estridor de metais que se sobreps ao canto, Cndida chamou:
          Adriana!
          Minha me...
          Vai ver o que tem a tua irm. Pode estar doente...
         O gesto de relutncia de Adriana no lhe passou despercebido:
          Ento? No vais?
          Vou. Por que no iria?
          Isso queria eu saber.
         Os olhos de Cndida brilhavam de uma maneira inslita. Dir-se-ia que estavam molhados de 
lgrimas.
          Oh, me, mas em que est a pensar?
 No estou a pensar nada, filha, no estou a pensar nada...
          No h que pensar, acredite. Ns estamos bem.
          Ds-me a tua palavra?
          Dou...
          Ainda bem. Vai l ver, vai.
         Adriana saiu. A me deixou cair o crochet no regao. As lgrimas, at a reprimidas, caram. Duas 
lgrimas apenas, duas lgrimas que tinham de cair porque haviam chegado aos olhos e j no podiam voltar 
atrs. No acreditara na palavra da filha. Tinha agora a certeza de que entre Isaura e Adriana havia um 
segredo que nenhuma delas queria ou podia revelar.
         A entrada de Amlia cortou-lhe cerce o pensamento. Cndida deitou mo das agulhas e baixou a 
cabea.
          As pequenas?
          Esto l dentro.
          Que esto a fazer?
 No sei. Se ainda ests disposta a descobrir podes ir espreit-las, mas digo-te que perdes o teu 
tempo. A Adriana deu-me a sua palavra. No se passa nada entre elas.
         Amlia mudou com violncia a posio de uma cadeira e respondeu, com voz dura:
 A tua opinio no me interessa. Nunca fui pessoa para espionar, mas se tanto for preciso comearei 
agora!
          Ests obcecada!
 No importa que o esteja. Mas, haja o que houver, fica sabendo que no admito palavras como as 
que me disseste agora!
          No quis ofender.
          Mas ofendeste.
          Peo desculpa.
          Vm tarde as desculpas.
         Cndida levantou-se. Era um pouco mais baixa que a irm. Involuntariamente, ergueu-se nas pontas 
dos ps:
 Se no as aceitas, no te louvo por isso. Tenho a palavra da Adriana.
          No acredito nela.
          Acredito eu e  quanto basta!
 Queres dizer que nada tenho com a vossa vida, no ? Bem sei que no passo de tua irm e que a 
casa no  minha, mas estava longe de pensar que mo fizesses sentir dessa maneira!
 Ests a tirar concluses erradas das minhas palavras. No disse tal coisa!
          Para bom entendedor...
          At os bons entendedores erram, s vezes!...
          Cndida!
 Ests a estranhar-me? A tua desconfiana estpida fez-me perder a pacincia. Acabemos com a 
discusso.  lamentvel ficarmos zangadas por causa disto.
         Sem esperar que a irm respondesse, saiu do quarto, levando as mos aos olhos. Amlia ficou de p, 
imvel, os dedos crispados no espaldar da cadeira e, ela tambm, com os olhos hmidos. Uma vez mais teve 
vontade de dizer  irm que nada sabia, mas o orgulho reteve-a.
         Sim, decerto o orgulho a reteve, mas mais do que ele a reteve o regresso das sobrinhas. Vinham 
risonhas, mas os seus olhos agudos descobriram que os sorrisos eram falsos, que tinham sido afixados nos 
lbios, atrs da porta, como mscaras. Pensou: Elas entendem-se para nos enganarem. E firmou-se mais na 
sua deciso de descobrir o que havia por detrs dos sorrisos simulados.
 


         

         XXIV

         Caetano remoa ideias de vingana. Sofrera um enxovalho e queria vingar-se. Mil vezes se censurou 
pela sua cobardia. Devia ter pisado a mulher a ps, como dissera. Devia t-la esmurrado com os seus punhos 
grossos e cabeludos, obrig-la a correr todos os cantos da casa diante do seu furor. No fora capaz, faltara-lhe 
a coragem e agora queria vingar-se. Mas queria uma vingana perfeita, que no se limitasse s pancadas. 
Qualquer coisa mais refinada e subtil, o que no significava que, para complemento, no pudessem vir as 
brutalidades.
         Ao recordar a cena humilhante estremecia de clera. Procurava manter-se nessa disposio, mas, mal 
a porta se abria, sentia-se impotente. Quis convencer-se de que era o aspeto dbil da mulher que o impedia, 
quis dar  sua fraqueza ares de comiserao, e atormentava-se, consciente de que nada mais era seno 
fraqueza. Imaginou meios de aumentar o seu desprezo pela mulher: ela retribua com um desprezo maior. 
Passou a dar-lhe menos dinheiro para o governo da casa. Logo desistiu porque era o nico prejudicado: 
Justina apresentava menos comida. Durante dois dias inteiros (chegou a sonhar com isso) pensou em esconder 
ou retirar de casa o retrato e as recordaes da filha. Sabia que era o golpe mais fundo que podia assestar na 
mulher.
         O medo  que o impediu. No medo da mulher, sim das possveis consequncias do ato. Afigurou-
se-lhe que tal ao se parecia muito com um sacrilgio. Tal gesto decerto lhe acarretaria as maiores desgraas: 
a tuberculose, por exemplo. Com os seus noventa quilos de carne e osso, a sua sade insultante, temia a 
tuberculose como o pior dos males e sentia um horror mrbido  simples vista de algum atacado dessa 
doena. A mera citao da palavra o arrepiava. At mesmo quando, agarrado  mquina de compor, copiava 
os linguados (trabalho em que o crebro no entrava, pelo menos para a perceo do que lia) e lhe aparecia a 
palavra horrvel, no podia evitar um sobressalto. Isto acontecia to frequentemente que acabou por 
convencer-se de que o chefe da oficina, conhecedor da sua fraqueza, lhe mandava tudo o que o jornal 
publicava acerca de tuberculose. Era fatal que lhe fossem s mos os relatos das sesses mdicas em que a 
doena era discutida. As misteriosas palavras de que tais relatos estavam repletos, palavras complicadas, de 
um tremebundo som a grego, e que pareciam inventadas de propsito para assustar as pessoas sensveis, 
fixavam-se-lhe no crebro como ventosas e acompanhavam-no durante horas.
         Alm deste impraticvel projeto, a sua imaginao anmica apenas lhe sugeria ideias s 
aproveitveis se vivesse em termos mais amistosos com a mulher. J lhe tirara tanta coisa, amor, amizade, 
sossego, e tudo o mais que pode tornar suportvel e, quantas vezes, desejvel, a vida conjugal, que nada 
restava. Quase chegou a lamentar ter perdido to depressa o hbito de a beijar ao entrar e sair de casa, s para 
o poder fazer agora.
         Apesar de todos os fracassos da sua inventiva, no desistia. Obstinava-se na ideia de vingar-se de 
uma maneira que obrigasse a mulher a cair de joelhos diante dele, desesperada e pedindo perdo.
         Um dia sups ter achado.  verdade que uma simples reflexo lhe mostrou o absurdo da ideia, mas 
talvez esse mesmo absurdo o seduzisse. Ia desempenhar um papel novo nas relaes com a mulher: o de 
ciumento. A pobre Justina, feia, quase esqueltica, no suscitaria zelos ao mais feroz dos Otelos. Contudo, a 
imaginao de Caetano no foi capaz de produzir coisa melhor.
         Enquanto preparava o lance, mostrou-se quase afvel para a mulher. Foi ao ponto de acariciar o gato, 
o que, para o animal, foi a maior das surpresas. Comprou uma moldura nova para o retrato da filha e anunciou 
que estava pensando em fazer desse retrato uma ampliao. Tocada na corda mais ntima da sua sensibilidade, 
Justina agradeceu a moldura e louvou a ideia. Mas conhecia bastante o marido para suspeitar de que ele 
ocultava intenes reservadas. Colocou-se, portanto, na expectativa,  espera do pior.
         Concluda toda esta preparao, Caetano deu o golpe. Uma noite, mal saiu do jornal, dirigiu-se a 
casa. Levava no bolso uma carta que a si prprio dirigira, disfarando a letra. Usara tinta diferente da sua, 
escrevera com uma caneta estragada que tornava a caligrafia angulosa e esborratava as letras fechadas. Era 
uma obra-prima de dissimulao. Nem um perito descobriria a fraude.
         Quando meteu a chave na fechadura, o corao pulsou-lhe, agitado. Ia satisfazer o seu desejo de 
vingana, ia ver a mulher de joelhos a protestar a sua inocncia. Entrou devagar. Queria que a surpresa fosse 
completa. Acordaria a mulher bruscamente, pr-lhe-ia diante dos olhos a prova da sua culpabilidade. Sorriu 
no escuro, enquanto seguia pelo corredor na ponta dos ps.  medida que caminhava ia fazendo deslizar a 
mo pela parede, at que encontrou a ombreira. Com a outra mo apalpou no ar. A porta estava aberta. Sentiu 
no rosto a atmosfera aquecida do quarto. Com a mo esquerda tateou o interruptor. Tudo estava pronto. Deu 
ao rosto uma expresso colrica e acendeu a luz.
         Justina estava acordada. Esta eventualidade no fora prevista por Caetano. A clera esvaiu-se, o 
rosto ficou inexpressivo. A mulher olhou-o surpreendida, sem falar. Caetano sentiu que todo o edifcio da sua 
maquinao se esboroaria se no falasse imediatamente. Recuperou a serenidade, tornou a carregar o 
sobrecenho e disparou:
 Ainda bem que est acordada. Poupou-me trabalho. Leia isto!
         Atirou-lhe a carta. Lentamente, Justina agarrou o sobrescrito. Durante o movimento pensou que 
estava ali o resultado da inslita mudana do marido. Tirou a carta e fez o possvel para l-la, mas a passagem 
brusca e recente das trevas para a luz e a m caligrafia no lho permitiram  primeira tentativa. Mudou de 
posio, esfregou os olhos, ergueu-se sobre um cotovelo. Estas demoras exasperavam Caetano: tudo lhe 
estava saindo s avessas.
         Justina lia a carta. O marido seguia-lhe as transformaes fisionmicas com ansiedade. 
Estupidamente, levantou-se-lhe no crebro esta ideia: E se, afinal, fosse verdade? No teve tempo para ver 
onde tal ideia o levaria. Justina deixava-se cair no travesseiro,  gargalhada.
          Voc ri?  explodiu Caetano, desorientado.
         A mulher no podia responder. Ria como doida, um riso de sarcasmo, ria do marido e de si prpria, 
mais de si prpria que do marido. Ria em convulses, em arrancos, ria como se, ao mesmo tempo, chorasse. 
Mas os olhos estavam enxutos: s a boca muito aberta, as gargalhadas histricas e ininterruptas.
 Cala-te! Isto  um escndalo!  exclamou Caetano, caminhando para ela. Hesitava em continuar a 
comdia mal comeada. A reao da mulher tornava impossvel a execuo do projeto to bem delineado.
          Cala-te!  repetiu, curvado para ela.  Cala-te!
         Agora s uns frouxos de riso sacudiam Justina. Pouco a pouco, acalmava-se. Caetano tentou retomar 
o fio que se escapara:
  assim que recebe uma acusao destas? Ainda  pior do que eu supunha!...
         A estas palavras, Justina sentou-se bruscamente na cama. O movimento foi to rpido que Caetano 
recuou um passo. Os olhos da mulher relampejavam:
          Isto tudo  uma farsa! No compreendo onde quer chegar!
 Chama a isto farsa, hem? Era o que faltava. Farsa!... Exijo que me d explicaes sobre o que vem 
nessa carta!
          Pea-as a quem a escreveu!
           annima.
          Bem vejo. Eu  que me recuso a d-las.
          Atreve-se a dizer-me isso?
          Que quer que lhe diga?
          Se  verdade!
         Justina fitou-o de uma maneira que ele no pde suportar. Desviou os olhos e deu com o retrato da 
filha. Matilde sorria aos pais. A mulher seguiu-lhe o olhar. Depois murmurou, devagar:
 Quer saber se  verdade? Quer que lhe diga se  verdade? Quer que lhe conte a verdade?
         Caetano vacilou. Novamente a ideia de h pouco apareceu atravs da desorientao que lhe ia no 
crebro: E se fosse verdade? Justina insistiu:
          Quer saber a verdade?
         Num salto, levantou-se da cama. Virou o retrato da filha: Matilde ficou sorrindo para o espelho onde 
as figuras dos pais se refletiam.
          Quer saber a verdade?
         Segurou a camisa de dormir pela bainha e, num movimento rpido, tirou-a. Ficou nua diante do 
marido. Caetano abriu a boca para dizer nem ele sabia o qu. No chegou a articular qualquer palavra. A 
mulher falava:
 Aqui tem! Olhe para mim! Aqui tem a verdade que quer saber. Olhe bem para mim! No desvie os 
olhos! Veja bem!
         Como se obedecesse s ordens de um hipnotizador, Caetano esgazeava os olhos. Via o corpo moreno 
e magro, mais escuro pela magreza, os ombros agudos, os seios moles e pendentes, o ventre cavado, as coxas 
delgadas que se implantavam rigidamente no tronco, os ps grandes e deformados.
 Veja bem  repisava a voz de Justina com uma tenso que anunciava a quebra iminente.  Veja 
bem. Se nem o senhor me quer, o senhor a quem tudo serve, quem  que me h de querer? Veja bem! Quer 
que eu continue assim, at me dizer que j viu? Diga, diga depressa!
         Justina tremia. Sentia-se rebaixada, no por se mostrar assim nua diante do marido, mas por ter 
cedido  indignao, por no ter podido responder-lhe com um desprezo silencioso. Agora era tarde e no 
podia mostrar o que sentia.
         Avanou para o marido:
 Ento, ficou calado? Foi para isso que inventou esta comdia? Devia sentir-me envergonhada 
diante de si, neste estado. Mas no sinto.  a maior prova de desprezo que lhe dou!
         Caetano, num rompante, saiu do quarto. Justina ouviu-o abrir a porta e descer a escada, em passos 
rpidos. Depois, sentou-se na cama e comeou a chorar, sem rudo, extenuada pelo esforo que fizera. Como 
que envergonhada da sua nudez, agora que estava sozinha, puxou a roupa para os ombros.
         O retrato de Matilde continuava voltado para o espelho e o seu sorriso no se alterara. Um sorriso 
alegre, o sorriso da criana que vai ao fotgrafo. E o fotgrafo dissera: Assim mesmo, assim. Ateno! J 
est! Ficou bonita. E Matilde saiu para a rua, pela mo da me, muito contente por ter ficado bonita.
 


         

         XXV

         A perspetiva de estar ainda trs meses a receber da mo da filha os quinhentos escudos que Paulino 
Morais se comprometera a pagar  alis, pouco mais de quatrocentos e cinquenta depois de feitos os 
descontos da lei  no agradou a Anselmo. Quem lhe garantia que o homem, ao fim desses trs meses, 
aumentaria o ordenado? Podia embirrar com a pequena, tom-la de ponta. Anselmo sabia bem o que isso era, 
com a sua experincia de trinta anos de escritrio. Sabia bem que empregado cado em desgraa nunca mais 
levanta a cabea. A estava o seu caso a demonstr-lo. Quantos, mais novos que ele e entrados depois, no lhe 
tinham passado adiante? No eram mais competentes e, todavia, subiam.
 Sem falar  dizia  mulher  que a pequena j estava calhada no servio do escritrio antigo e 
talvez lhe custe a adaptar-se. J tinha a sua antiguidadezinha e isso ainda conta.  certo que comigo no foi 
assim, mas ainda h patres decentes.
 Mas, oh, homem, quem te diz que no  o caso do senhor Morais? E tu esqueces que temos um 
bom empenho!... A D. Ldia continua a interessar-se pela Claudinha e a Claudinha no  parva nenhuma!...
          L isso, tem a quem sair...
          J vs...
         Mas Anselmo no descansava. Tivera ganas de desobrigar a filha do compromisso assumido sem que 
a sua opinio tivesse sido pedida, e se no o fez foi por ver quanto ela estava entusiasmada com o novo 
emprego. Claudinha garantira que ia estudar a fundo a estenografia e que, antes de trs meses, veriam o 
ordenado aumentado. Dissera-o com tanta segurana que Anselmo calou os seus agoiros.
         Ao sero, enquanto Roslia passajava as meias do marido e Anselmo alinhava nmeros e nomes, uns 
e outros relacionados com o futebol, a rapariga iniciava-se nos mistrios da escrita abreviada.
         Embora no o confessasse, Anselmo enchia-se de admirao pelas habilidades da filha. No escritrio 
onde trabalhava, ningum sabia estenografia: era um escritrio  antiga, sem mveis de ao, e onde s h 
pouco tempo entrara uma mquina de somar. A aprendizagem de Claudinha animou os seres familiares e foi 
geral a alegria quando a rapariga ensinou o pai a escrever o nome em estenografia. Roslia tambm quis 
aprender, mas levou mais tempo porque era analfabeta.
         Passada a novidade, Anselmo dedicou-se ao seu trabalho interrompido: constituir a seleo nacional 
de futebol, a sua seleo. Descobrira um mtodo simples e seguro: a guarda-redes ps o jogador que menos 
bolas deixara entrar no decurso do campeonato; a avanados colocou, coerentemente, os jogadores que mais 
bolas tinham marcado. Os restantes lugares distribuiu-os de acordo com as suas preferncias clubistas, s 
abdicando delas quando se tratava de jogadores que, segundo as notcias dos jornais, eram insubstituveis. O 
trabalho de Anselmo no estava ainda concludo, uma vez que, de semana a semana, as posies dos 
marcadores de golos se alteravam. No entanto, como as variaes, de que tomava nota num grfico que 
inventara, no eram muito bruscas, acreditava estar a pique de encontrar a seleo perfeita. Alcanada ela, 
estava ali para ver o que ia fazer o selecionador.
         Quinze dias depois de comear a trabalhar no escritrio de Paulino Morais, Maria Cludia chegou a 
casa contentssima. O patro chamara-a ao gabinete e tivera uma longa conversa com ela. Mais de meia hora. 
Dissera-lhe que estava satisfeito com o seu trabalho e que esperava que se dessem sempre bem. Perguntara-
lhe vrias coisas acerca da famlia, se gostava dos pais, se eles gostavam dela, se viviam sem privaes, e 
mais perguntas de que Maria Cludia se esquecera.
         Roslia viu em tudo isto a ao benfazeja de D. Ldia e declarou que lhe agradeceria logo que a 
visse. Anselmo apreciou o interesse do senhor Morais e ficou lisonjeado quando a filha lhe deu conta de que 
aproveitara uma ocasio propcia para enaltecer os mritos do pai como empregado de escritrio. Anselmo 
comeou a acariciar a hiptese sedutora de passar para uma casa importante como a do senhor Morais. Seria 
uma boa partida para os seus atuais colegas. Infelizmente, acrescentara Claudinha, no havia vagas, nem 
esperana delas. Para Anselmo, essa circunstncia no era obstculo: a vida tem tantas surpresas, que no 
seria de espantar se lhe estivesse destinado um futuro confortvel. Achava mesmo que a vida lhe devia uma 
infinidade de coisas e que tinha o direito de esperar o pagamento.
         Nessa noite no houve meias passajadas, nem estenografia, nem trabalhos de seleo. Aps a 
narrativa entusistica de Maria Cludia, o pai achou convenientes algumas recomendaes:
 Precisas ter muito cuidado, Claudinha. Em toda a parte h gente invejosa e eu que o diga. Se 
comeas a subir muito depressa vers que os teus colegas te invejaro. Toma cuidado!...
          Oh, pai, mas so todos to simpticos!...
 So agora. Depois, no ser assim. Tens de procurar estar de bem com o patro e com eles. Se no, 
comeam a tecer intrigas e so capazes de te prejudicarem. Eu conheo o meio.
 Pois sim, pai, mas no conhece o meu escritrio.  tudo gente de linha. E o senhor Morais  uma 
excelente pessoa!
          Ser. Mas nunca ouviste dizer mal dele?
          Coisas sem importncia!
         Roslia quis colaborar na conversa:
 Olha que o teu pai tem muita experincia, filha! Se no subiu mais foi s porque lhe cortaram as 
pernas!
         A referncia  violenta operao no provocou aquela estranheza que seria perfeitamente justificvel 
se se atendesse  circunstncia de os membros inferiores de Anselmo continuarem ligados ao seu possuidor. 
Um estrangeiro desconhecedor das expresses idiomticas portuguesas e entendendo  letra tudo o que 
ouvisse dizer, julgaria estar numa casa de loucos, vendo Anselmo acenar a cabea gravemente e declarar com 
profunda convico:
           verdade. Foi assim mesmo.
          Ora! Deixem l! Eu sei fazer as coisas.
         Com esta frase, Claudinha encerrou a conversa. O seu sorriso confiante s podia provir do seu 
conhecimento completo do modo de fazer as coisas. De que coisas se tratava  que ningum sabia, nem, 
talvez, mesmo Maria Cludia.  natural que pensasse que por ser nova e bonita, desembaraada a falar e a rir, 
a soluo das coisas viria com esses atributos. Seja como for, a famlia descansou na declarao.
         O certo  que tais atributos no bastavam. Verificou-o Maria Cludia. A estenografia no avanava. 
Estudar pelo livro era muito bom para os rudimentos. L para diante a matria complicava-se e, sozinha, 
Maria Cludia no progredia. A cada pgina surgiam dificuldades intransponveis. Anselmo quis ajudar.  
verdade que daquilo nada entendia, mas tinha trinta anos de experincia de escritrio e uma grande prtica. 
Redigia cartas no mais puro estilo comercial e  que diabo!  a estenografia no tem transcendncia nenhuma! 
Tivesse que no tivesse, baralhou tudo. A filha teve uma crise de nervos. Roslia, despeitada com a derrota do 
marido, embirrou com a estenografia.
         Quem salvou a situao foi Maria Cludia, o que depunha a seu favor quanto  declarada capacidade 
de saber fazer as coisas. Anunciou que precisava de um professor que lhe desse umas lies  noite. Anselmo 
viu logo a despesa suplementar, mas pensou que se tratava de um investimento de capital que da a pouco 
mais de dois meses comearia a dar juros. Tomou a seu cuidado arranjar o professor. Claudinha falou-lhe 
nalgumas escolas de ensino no oficial, todas de nomes imponentes onde a palavra Instituto era de regra. O 
pai no aceitou a sugesto. Primeiro, porque eram caras; segundo, porque julgava no ser possvel entrar em 
qualquer altura do ano; e terceiro, porque ouvira falar em misturas e no queria a filha metida nelas. Ao 
cabo de alguns dias achou o que convinha: um velho professor aposentado, pessoa de respeito junto da qual 
uma menina de dezanove anos no corria o menor risco. Alm de no levar muito dinheiro, tinha ainda a 
inestimvel vantagem de dar lies a horas razoveis que no obrigavam Claudinha a andar de noite pelas 
ruas da cidade. Saindo do escritrio s seis, a rapariga ia de eltrico at So Pedro de Alcntara onde o 
professor residia, o que no lhe exigia mais que meia hora. A lio prolongava-se at s sete e meia, quando 
mal anoitecia. De l a casa, trs quartos de hora. Contando com um quarto de hora para os eventuais atrasos, 
s oito e meia Claudinha devia estar em casa. Assim foi durante alguns dias. Oito e meia no relgio de pulso 
de Anselmo e Claudinha a entrar.
         Os progressos eram evidentes e foram eles que serviram  rapariga para justificar o seu primeiro 
atraso:  que o professor, entusiasmado com a sua aplicao, resolvera conceder-lhe mais um quarto de hora, 
sem aumento de honorrios. Anselmo gostou e acreditou, sobretudo porque a filha insistia no pormenor do 
desinteresse do professor. De acordo com o seu ponto de vista utilitrio, no pde deixar de pensar que, no 
lugar do professor, faria render o peixe, mas lembrou-se de que, afinal, ainda h gente boa e sria, o que 
tem todas as vantagens, sobretudo quando a bondade e a seriedade resultam a favor daqueles que, no sendo 
bons nem srios, tm a habilidade necessria para lhes colher os frutos. A habilidade de Anselmo consistira 
no facto de ter achado um professor assim.
         J lhe pareceu desinteresse excessivo e incompreensvel quando a filha comeou a entrar em casa s 
nove horas. Fez perguntas e teve as respostas: Claudinha estivera no escritrio at depois das seis e meia 
acabando um trabalho urgente para o senhor Morais. Estando, como estava, em regime de experincia, no 
podia dizer que no, nem alegar razes particulares. Anselmo concordou mas desconfiou. Pediu ao gerente 
que o deixasse sair um bocado mais cedo e foi plantar-se perto do escritrio da filha. Das seis s sete menos 
vinte reconheceu que estava sendo injusto: Claudinha saa, efetivamente, mais tarde. Decerto a prendera novo 
trabalho urgente.
         Esteve quase para desistir da espionagem, mas resolveu seguir a filha, mais por no ter, de momento, 
outra coisa que fazer, que para esclarecer desconfianas. Seguiu-a at So Pedro de Alcntara e instalou-se 
numa leitaria defronte da casa do professor. Mal acabara de beber o caf que pedira, viu a filha sair. Pagou 
precipitadamente e foi atrs dela. Encostado a uma esquina, de cigarro na boca e em cabelo, estava um rapaz a 
quem Claudinha se dirigiu. Anselmo ficou varado quando a viu dar-lhe o brao e seguirem os dois rua abaixo, 
conversando. Num segundo pensou em intervir. Impediu-o o seu horror ao escndalo. Seguiu-os de longe e 
quando teve a certeza de que a filha tomava o caminho de casa, saltou para um eltrico e ultrapassou-a.
         Roslia, ao abrir a porta, afligiu-se diante do rosto transtornado do marido:
          Que se passa, Anselmo?
         Ele foi direito  cozinha e deixou-se cair num banco, sem abrir a boca. Roslia pensou o pior:
          Despediram-te? Ai!...
         Anselmo recobrava-se da comoo. Acenou negativamente a cabea. Depois, numa voz cava, 
declarou:
 A tua filha tem andado a enganar-nos! Segui-a. Esteve pouco mais de um quarto de hora em casa 
do professor e depois encontrou-se c fora com um badameco qualquer!...
          E tu, que fizeste?
 Eu? No fiz nada. Vim atrs deles. Depois passei-lhes  frente. Ela deve estar a chegar.
         Roslia corou at aos cabelos, de fria:
 Eu, se estivesse no teu lugar, chegava-me a eles... e nem sei o que lhes fazia!...
          Era um escndalo.
 Bem me importava a mim o escndalo! Ele levava duas bofetadas que o punha a dormir, e a ela 
trazia-a para casa, por uma orelha!...
         Anselmo, sem responder, levantou-se e foi mudar de roupa. A mulher seguiu-o:
          Que  que vais dizer-lhe quando ela vier?
         O tom era um pouco insolente, pelo menos para os hbitos de Anselmo, costumado como estava a 
ser rei e senhor em sua casa. Olhou a mulher com olhos agudos e, depois de mant-la durante alguns segundos 
sob a intensidade do olhar, respondeu:
 Eu c me entenderei com ela. E, a propsito, devo dizer-te que no estou habituado a que me falem 
nesse tom, nem aqui nem em parte nenhuma!
         Roslia baixou a crista:
          Mas eu no disse nada...
          O que disseste chegou para me aborrecer!
         Reconduzida  sua posio de cnjuge mais fraco, Roslia voltou  cozinha donde vinha um leve 
cheiro a queimado. Quando se atarefava de roda dos tachos, procurando salvar o jantar, a campainha tocou. 
Anselmo foi abrir.
          Boa noite, paizinho  disse Claudinha, sorrindo.
         Anselmo no respondeu. Deixou que a filha passasse, fechou a porta, e s depois falou, indicando-
lhe a casa de jantar:
          Entra para aqui.
         A rapariga, surpreendida, obedeceu. O pai mandou-a sentar, e, de p diante dela, fitou-a com o seu 
olhar intenso e carregado de severidade:
          Que fizeste tu, hoje?
         Maria Cludia tentou sorrir e ser natural:
          O costume, paizinho. Por que pergunta?
          Isso  comigo. Responde.
 Ento... Estive no escritrio. Sa j depois das seis e meia e...
          Sim, adiante.
 Depois, fui  lio. Como cheguei tarde, sa tambm mais tarde que o costume...
          A que horas saste?
         Claudinha estava embaraada. Demorou a resposta para acertar as horas e disse, por fim:
          Passava um bocadinho das oito...
           falso!
         A rapariga encolheu-se. Anselmo gozou o efeito da sua exclamao. Podia ter dito  mentira, mas 
preferira o  falso por ser mais dramtico.
          Oh, paizinho...  balbuciou a filha.
 Lamento muito o que se passa  disse Anselmo, em voz comovida.  No te merecia esse gesto. Vi 
tudo. Segui-te. Vi-te acompanhada por um valdevinos qualquer.
          No  um valdevinos  respondeu Claudinha, resoluta.
          Que faz ele, ento?
          Anda a estudar.
         Anselmo deu um estalido com os dedos que pretendia exprimir a insignificncia de semelhante 
ocupao. Como se isso no bastasse, exclamou:
          Ora!
          Mas ele  muito bom rapaz!
          E por que no veio ainda falar comigo?
 Fui eu que lhe disse que no viesse. Bem sei que o pai  muito esquisito...
         Ouviram-se umas leves pancadas na porta.
          Quem ?  perguntou Anselmo.
         A pergunta era ociosa porque s havia mais uma pessoa em casa. Pela mesma razo, tambm a 
resposta o era, mas nem por isso deixou de ser dada:
          Sou eu. Posso entrar?
         Anselmo no respondeu afirmativamente porque no desejaria ser interrompido, mas tinha a 
conscincia de que no lhe era lcito negar a entrada  mulher. Preferiu calar-se e Roslia entrou:
          Ento? J ralhaste com ela?
         Se Anselmo alguma vez estivera disposto a ralhar com a filha, no seria neste momento. A 
interveno da mulher forava-o, sem que pudesse dar-se conta do motivo, a passar para o lado da filha:
          J. Estvamos no fim.
         Roslia ps as mos na cintura e abanou a cabea com veemncia, ao mesmo tempo que exclamava:
 Parece impossvel, Claudinha! S nos ds desgostos! Agora que estvamos to contentes com o teu 
emprego, sais-te com esta!
         Maria Cludia levantou-se, de golpe:
 Oh, me, mas, ento, eu no hei de casar? E para casar no  preciso namorar, conhecer um rapaz?
         Pai e me ficaram aturdidos. A pergunta era lgica, mas de resposta difcil. Foi Anselmo quem 
julgou encontr-la:
          Um estudante... Que vale isso?
 Pode no valer agora, mas anda a estudar para ser algum!
         Claudinha recobrava a serenidade. Entendia que os pais no tinham razo, que a razo estava toda do 
seu lado. Insistiu:
          No querem que eu case? Digam!
 No  isso, filha  respondeu Anselmo.  O que ns queramos era ver-te bem!... As tuas 
qualidades merecem um bom marido!
          Mas o pai nem sequer o conhece?!
 No conheo, mas  o mesmo. E, alm disso  aqui a voz retomou o tom severo , no tenho que 
dar-te satisfaes. Probo-te de te encontrares com esse... com esse estudante!... E, para que no me faas o 
ninho atrs da orelha, vou passar a acompanhar-te  lio e a trazer-te de l. Faz-me transtorno, mas tem que 
ser assim.
          Oh, pai, mas eu prometo...
          No acredito.
         Maria Cludia inteiriou-se como se lhe tivessem batido. Enganara muitas vezes os pais, fizera deles 
gato-sapato quantas vezes quisera, mas agora achava que a tratavam com injustia. Sentia-se furiosa. 
Enquanto tirava o casaco, disse:
  como queira. Mas j o previno de que tem que esperar por mim todos os dias  sada do 
escritrio. O senhor Morais tem sempre trabalhos que me obrigam a ficar depois da hora.
          Est bem. Isso no tem importncia.
         Claudinha abriu a boca. Pela expresso do rosto parecia que ia contradizer o pai. Mas calou-se, com 
um sorriso vago.
 


         

         XXVI

         Algumas vezes, desde que comeara a viver livremente, Abel perguntara a si mesmo: Para qu? A 
resposta era sempre igual e tambm a mais cmoda: Para nada. E se o pensamento insistia: No  nada. 
Assim no vale a pena, acrescentava: Deixo-me ir. Isto h de ir dar a algum lado.
         Bem via que isto, a sua vida, no ia dar a parte alguma, que procedia como os avarentos que 
amontoam o ouro s para terem o prazer de o contemplar. No seu caso no se tratava de ouro, mas de 
experincia, nico proveito da sua vida. Contudo, a experincia, no sendo aplicada,  como o ouro 
imobilizado: no produz, no rende,  intil. E de nada vale a um homem acumular experincia como se 
colecionasse selos.
         As suas poucas e mal assimiladas leituras de filosofia, ao acaso dos compndios escolares e das 
brochuras desenterradas da poeira dos alfarrabistas da Calada do Combro, permitiam-lhe pensar e dizer que 
desejava conhecer o sentido oculto da vida. Mas nos dias de desencantamento da sua existncia, j lhe 
acontecera reconhecer que semelhante desejo era uma utopia e que as experincias multiplicadas apenas 
serviam para tornar mais denso o vu que pretendia afastar. A falta de sentido concreto da sua vida forava-o, 
porm, a firmar-se naquele desejo que j deixara de o ser, para se transformar numa razo de viver to boa ou 
to m como qualquer outra. Nesses dias sombrios em que o rodeava o vcuo do absurdo, sentia-se cansado. 
Procurava atribuir esse cansao  sua luta diria para assegurar a subsistncia,  depresso causada pelas 
pocas em que os meios de subsistir se reduziam ao mnimo. Sem dvida, tudo isso importava: a fome e o frio 
cansam. Mas no era bastante. Costumara-se a tudo, e o que, ao princpio, o chegara a assustar, agora quase se 
lhe tornara indiferente. Calejara o corpo e o esprito contra as dificuldades e as privaes. Sabia que, com 
maior ou menor facilidade, poderia ver-se livre delas. Aprendera tantas coisas no decurso da vida, que ser-lhe-
ia relativamente fcil arranjar uma colocao estvel que lhe assegurasse o necessrio  vida. Nunca tentara 
dar esse passo. No queria prender-se, dizia, e era verdade. Mas no queria prender-se porque, ento, seria 
confessar a inutilidade do que vivera. Que ganhara em fazer to largo rodeio para, afinal, vir dar ao caminho 
por onde seguiam aqueles que resolutamente quisera deixar? Queriam-me casado, ftil e tributvel?, 
perguntara o Fernando Pessoa.  isto o que a vida quer de toda a gente?, perguntava Abel.
         O sentido oculto da vida... Mas o sentido oculto da vida  no ter a vida sentido oculto nenhum. 
Abel conhecia a poesia de Pessoa. Fizera dos seus versos uma outra Bblia. Talvez no os compreendesse 
completamente, ou visse neles o que l no estava. De qualquer maneira, e embora desconfiasse de que, em 
muitos passos, Pessoa troava do leitor e que, parecendo sincero, o ludibriava, habituara-se a respeit-lo, at 
nas suas contradies. E, se no tinha dvidas acerca da sua grandeza como poeta, parecia-lhe, por vezes, 
especialmente naqueles dias absurdos de desencanto, que na poesia de Pessoa havia muito de gratuitidade. E 
que mal h nisso?  pensava Abel.  No pode a poesia ser gratuita? Pode, sem dvida, e o mal no  
nenhum. Mas, o bem? Que bem h na poesia gratuita? A poesia , talvez, como uma fonte que corre,  como a 
gua que nasce da montanha, simples e natural, gratuita em si mesma. A sede est nos homens, a necessidade 
est nos homens, e  s porque elas existem que a gua deixa de ser desinteressada. Mas ser assim a poesia? 
Nenhum poeta, como nenhum homem, seja ele quem for,  simples e natural. E Pessoa menos que qualquer 
outro. Quem tiver sede de humanidade no a ir matar nos versos de Fernando Pessoa: ser como se bebesse 
gua salgada. E, contudo, que admirvel poesia e que fascinao! Gratuita, sim, mas isso que importa se 
deso ao fundo de mim mesmo e me acho gratuito e intil? E  contra esta inutilidade  a inutilidade da vida, 
que s ela o interessa  que Silvestre protesta. A vida deve ser interessada, interessada a toda a hora, 
projetando-se para l e para alm. Assistir  nada. Presenciar  estar morto. Era o que ele queria dizer. No 
importa que se fique c e aqum, o que  preciso  que a vida se projete, que no seja um simples fluir animal, 
inconsciente como o fluir da gua na fonte. Mas projetar-se como? Projetar-se para onde? Como e para onde, 
eis o problema que gera mil problemas. No basta dizer que a vida deve projetar-se. Para o "como" e para o 
"para onde" encontra-se uma infinidade de respostas. A de Silvestre  uma, a de um crente de uma qualquer 
religio  outra. E quantas mais? Sem contar que pode a mesma resposta servir a vrios, servindo tambm a 
cada um outra resposta que no serve aos outros. Afinal, perdi-me no caminho. Tudo estaria bem se no 
adivinhasse a existncia de outros caminhos, ocupado em afastar os obstculos do meu. A vida que escolhi  
dura e difcil. Aprendi com ela. Est na minha mo deix-la e comear outra. Por que no o fao? Por gostar 
desta? Em parte. Acho interessante fazer, conscientemente, uma vida que s forados outros aceitariam. Mas 
no basta, esta vida no me basta. Qual escolher, ento? Ser "casado, ftil e tributvel"? Mas pode ser-se cada 
uma destas coisas e no se ser as restantes! E depois?
         Depois... depois... Abel sentia-se perplexo. Silvestre acusara-o de intil e isso aborrecera-o. Ningum 
gosta que lhe descubram os pontos sensveis, e a conscincia da sua inutilidade era o calcanhar de Aquiles de 
Abel. Mil vezes o seu esprito pusera diante de si a pergunta incmoda. Para qu? Iludia-a e disfarava 
pensando noutro assunto ou especulando no vazio, mas nem por isso ela se sumia: ficava hirta e irnica, 
esperando o fim do devaneio para mostrar-se implacvel como antes. Desesperava-o, sobretudo, no ver nos 
outros o ar de perplexidade que lhe mostrasse ter iguais na inquietao. A perplexidade nos outros (Abel 
assim julgava) era o resultado de desgostos ntimos, de faltas de dinheiro, de amores mal correspondidos, tudo 
menos a perplexidade provocada pela prpria vida, a vida sem mais nada. Tempos antes, essa certeza dava-lhe 
uma consoladora sensao de superioridade. Hoje irritava-o. Tanta segurana, tanto -vontade perante os 
problemas secundrios, provocavam-lhe um misto de desprezo e inveja.
         Silvestre, com as suas recordaes, viera agravar o mal. Mas, embora perturbado, Abel reconhecia 
que a vida do seu hospedeiro fora intil no que se refere aos resultados: nada do que ele perseguira fora 
alcanado. Silvestre estava velho, fazendo hoje o que fazia ontem: consertar sapatos. Mas o mesmo Silvestre 
dissera que, pelo menos, a sua vida lhe ensinara a ver mais longe que a sola dos sapatos que consertava, ao 
passo que a Abel a vida no fizera mais que dar-lhe o poder de adivinhar a existncia de algo oculto, de algo 
capaz de dar um sentido concreto  sua existncia. Mais valera no ter recebido esse poder. Viveria tranquilo, 
teria a tranquilidade do pensamento adormecido, tal como acontece ao comum das gentes. O comum das 
gentes, pensava, como  estpida esta expresso! Eu sei l o que  o comum das gentes! Olho para milhares 
de pessoas durante o dia, vejo, com olhos de ver, dezenas. Vejo-as graves, risonhas, lentas, apressadas, feias 
ou belas, vulgares ou atraentes, e chamo-lhes o comum das gentes. Que pensar cada uma delas a meu 
respeito? Tambm eu ando lento ou apressado, grave ou risonho. Para algumas serei feio, para outras serei 
belo, ou vulgar, ou atraente. No fim de contas, tambm eu fao parte do comum das gentes. Tambm eu terei, 
para alguns, o pensamento adormecido. Todos ns ingerimos diariamente a nossa dose de morfina que 
adormece o pensamento. Os hbitos, os vcios, as palavras repetidas, os gestos repisados, os amigos 
montonos, os inimigos sem dio autntico, tudo adormece. Vida plena!... Quem h a que possa declarar que 
vive plenamente? Todos trazemos ao pescoo a canga da monotonia, todos esperamos, sabe o diabo o qu! 
Sim, todos esperamos! Mais confusamente uns que outros, mas a expectativa  de todos... O comum das 
gentes!... Isto, dito assim, com este tom desdenhoso de superioridade,  idiota. Morfina do hbito, morfina da 
monotonia... Ah, Silvestre, meu bom e puro Silvestre, nem tu imaginas as doses macias que tens ingerido! 
Tu e a tua gorda Mariana, to boa que d vontade de chorar! (Remoendo estes pensamentos, Abel no 
estava longe, ele, de chorar.) Nem sequer o que penso tem o mrito da originalidade.  como um fato em 
segunda mo num estabelecimento de obra nova.  como uma mercadoria fora do mercado, embrulhada em 
papel colorido com um nastro de cor a condizer. Tdio e nada mais. Cansao de viver, arroto de digesto 
difcil, nusea.
         Quando chegava a este ponto, Abel saa de casa. Se ainda ia a tempo e tinha dinheiro, entrava num 
cinema. Achava as histrias absurdas. Homens perseguindo mulheres, mulheres perseguindo homens, 
aberraes mentais, crueldades, e estupidez da primeira  ltima imagem. Histrias mil vezes repetidas: ele, 
ela e o amante, ela, ele e o amante, e, pior do que isto, o primarismo com que se reproduzia a luta entre o bem 
e o mal, entre a pureza e a depravao, entre a lama e a estrela. Morfina. Intoxicao permitida por lei e 
anunciada nos jornais. Pretexto para passar o tempo, como se a eternidade fosse a vida do homem.
         As luzes acendiam-se, os espectadores levantavam-se com o rumor matraqueado dos tampos das 
cadeiras. Abel deixava-se ficar. Tinham-se calado os fantasmas a duas dimenses que ocupavam as cadeiras. 
E eu sou o fantasma a quatro dimenses, murmurava.
         Julgando-o adormecido, vinham os empregados afugent-lo. C fora, os ltimos espectadores 
corriam aos lugares vazios dos eltricos. Pares de casados de fresco, muito agarrados... Casais de pequenos 
burgueses com dezenas de anos de sagrado matrimnio, ela atrs, ele adiante. No mais que meio passo os 
separava, mas esse meio passo exprimia a distncia irremedivel a que se encontravam um do outro. E eram, 
maduros e burgueses, o retrato antecipado dos noivos cuja aliana de casamento tinha ainda o brilho da 
novidade.
         Abel seguia pelas ruas tranquilas, de raros passantes, com as linhas dos eltricos brilhando 
paralelamente, as tais paralelas que nunca se encontram. Encontram-se no infinito! Sim, dizem os sbios que 
as paralelas se encontram no infinito... Todos nos encontramos no infinito, no infinito da estupidez, da apatia, 
do marasmo.
 No queres vir?  perguntava uma voz de mulher, na escurido. Abel sorria com tristeza.
Admirvel Sociedade que a tudo prov! Como ela no esquece os infelizes solteiros que precisam 
de regularizar as suas funes sexuais! E tambm os felizes casados, que gostam de variar por pouco 
dinheiro! Me amorvel s tu, oh, Sociedade!
         Nas ruas dos bairros excntricos, a cada porta caixotes do lixo. Os ces buscam os ossos, os trapeiros 
farrapos e papis. Tudo se aproveita, murmurava Abel. Na Natureza nada se cria, nada se perde. Adorvel 
Lavoisier, aposto que nunca pensaste que a confirmao do teu princpio est no caixote do lixo!
         Entrava num caf. Mesas ocupadas, mesas vazias, criados que bocejam, nuvens de fumo, rumor de 
conversas, tinido de chvenas  marasmo. E ele sozinho. Saa, angustiado. A tpida noite de abril recebia-o c 
fora. Os altos prdios canalizavam-lhe o caminho. Em frente, sempre em frente. Virar  esquerda ou  direita, 
s quando a rua o decidir. A rua e a necessidade de, cedo ou tarde, ter que ir para casa. E, tarde ou cedo, Abel 
ia para casa.
         Deu em falar pouco. Silvestre e Mariana estranharam-no. Tinham-se habituado a consider-lo pessoa 
da casa, quase famlia, e sentiam-se melindrados, ofendidos na sua confiana. Uma noite, Silvestre entrou-lhe 
no quarto, com o pretexto de lhe mostrar uma notcia do jornal. Abel estava deitado, com um livro na mo e 
um cigarro nos lbios. Leu a notcia, que para si no tinha o menor interesse, e devolveu o jornal, 
murmurando uma frase distrada. Silvestre deixou-se ficar, com os braos apoiados na barra da cama, a olh-
lo. Visto assim, o rapaz parecia mais pequeno e tinha, apesar do cigarro e da barba um pouco crescida, um ar 
de criana.
          Est a sentir-se preso?  perguntou Silvestre.
          Preso?
          Sim. O tentculo...
          Ah!...
         A exclamao saiu com um tom indefinvel, como que de ausncia. Abel soergueu o busto, olhou o 
sapateiro fixamente e acrescentou, devagar:
 No. Talvez esteja a sentir a falta de um tentculo. As conversas que temos tido fizeram-me pensar 
em questes que eu j supunha arrumadas.
 No acredito que estivessem arrumadas. Ou estariam muito mal arrumadas... Se o Abel fosse o que 
queria parecer, no lhe teria eu contado a minha vida...
          E no est contente?
 Contente? Pelo contrrio. Acho que est preso pelo aborrecimento. Fartou-se da vida, julga que 
aprendeu tudo, s v coisas que aumentam o seu aborrecimento. Julga que posso estar contente? Nem tudo  
fcil de cortar.  sempre possvel deixar um emprego que nos maa ou uma mulher que nos maa ainda mais. 
Mas o aborrecimento, como  que se h de cortar?
 J me disse tudo isso por outras palavras. Com certeza, no vai repetir...
          Se entende que estou a incomod-lo...
          No, no! Que ideia!...
         Abel levantara-se de salto e estendia o brao para Silvestre. O sapateiro, que j fazia um movimento 
para retirar-se, ficou. Abel sentou-se na borda da cama, o tronco meio voltado para Silvestre. Os dois 
olhavam-se sem sorrir, como se esperassem qualquer acontecimento importante. O rapaz pronunciou, 
lentamente:
          Sabe que sou muito seu amigo?
 Acredito  respondeu Silvestre.  Tambm eu sou muito seu amigo. Mas parece que andamos 
zangados...
          A culpa  minha.
 Talvez seja minha. O Abel precisa de algum que o ajude, e eu no sei, no sou capaz...
         Abel levantou-se, enfiou os sapatos e dirigiu-se a uma mala que estava arrumada a um canto. Abriu-a 
e, apontando para os livros que quase a enchiam, disse:
 Nos piores momentos da minha vida, a ideia de os vender nem sequer me passou pela cabea. 
Esto aqui todos os que trouxe de casa, mais os que fui comprando durante estes doze anos. J os li e j os 
reli. Aprendi com eles muita coisa. Metade do que aprendi, esqueci, e a outra metade  capaz de estar errada. 
Certo ou errado, a verdade  que s contriburam para tornar mais evidente a minha inutilidade.
 Penso que fez bem em l-los... Quantos levam a vida sem descobrir que so inteis? No meu 
entender, s pode ser verdadeiramente til quem j sentiu que era intil. Pelo menos, no corre tanto risco de 
voltar a s-lo...
 Utilidade, utilidade, s lhe ouo essa palavra. Como posso eu ser til?
 Cada um tem que descobrir por si. Como a tudo na vida, afinal. Conselhos no servem de nada. 
Bem gostaria eu de lhos dar se lhe servissem de alguma coisa...
 Tambm eu gostaria de saber o que est por detrs dessas meias palavras...
         Silvestre sorriu:
 No tenha medo. S quero dizer que aquilo que cada um de ns tiver de ser na vida, no o ser 
pelas palavras que ouve nem pelos conselhos que recebe. Teremos de receber na prpria carne a cicatriz que 
nos transforma em verdadeiros homens. Depois,  agir...
         Abel fechou a mala. Voltou-se para o sapateiro e repetiu, como se sonhasse:
 Agir... Se todos agirem como ns, ento no h verdadeiros homens...
          O meu tempo passou  respondeu Silvestre.
 Por isso lhe  to fcil censurar-me... Vai um joguinho de damas?
 


         

         XXVII

         Paulino chegara mais tarde, quase s onze horas. Beijou Ldia de raspo e foi sentar-se no sof 
predileto, chupando a cigarrilha.
         Nessa noite, pela fora das circunstncias, Ldia no estava em camisa de dormir, o que talvez 
contribusse para a irritao surda de Paulino. A prpria maneira de segurar a cigarrilha entre os dentes, o 
tamborilar dos dedos no brao do sof, tudo eram sinais de que no estava satisfeito. Sentada diante dele, num 
tamborete baixo, Ldia tentava distra-lo com as bagatelas do seu dia. H algumas noites j que notava uma 
transformao no amante. Deixara de a comer com os olhos, o que, podendo ser justificado pela larga 
convivncia, poderia tambm significar que estava perdendo interesse por ela por quaisquer outras razes. O 
sentimento permanente de insegurana de Ldia fazia-lhe temer sempre o pior. Pormenores aparentemente 
insignificantes, pequenas faltas de ateno, palavras um tudo-nada bruscas, um ar distrado uma vez por outra, 
eram outras tantas preocupaes para ela.
         Paulino no ajudava a conversa. Havia longas pausas em que nem um nem outro sabiam que dizer. 
Com mais preciso: s Ldia  que no sabia que dizer; Paulino parecia querer ficar calado. Ela espremia a 
imaginao para no deixar morrer o dilogo; ele respondia distraidamente. E a conversa,  mngua de 
assunto, morria como uma candeia  mngua de azeite. Nessa noite, o vestido de Ldia parecia ser mais um 
motivo de afastamento. Paulino lanava para o ar longas baforadas de fumo, com um sopro impaciente e 
prolongado. Desistindo de encontrar um assunto capaz de interess-lo, Ldia, um pouco ao acaso, notou:
          Parece que andas preocupado...
          Uhm...
         A resposta era imprecisa: podia significar tudo. Parecia esperar que Ldia concretizasse a suposio. 
Com o vago medo do desconhecido que se oculta nas casas s escuras e nas palavras imprudentes de que 
nunca se conhecem as consequncias, Ldia acrescentou:
 De h uns dias para c, sinto-te diferente. Contavas-me sempre as tuas preocupaes... No quero 
ser indiscreta, repara, mas talvez te fizesse bem dizeres-me...
         Paulino fitou-a com um olhar divertido. Chegou mesmo a sorrir. Ldia atemorizou-se com o olhar e o 
sorriso. J estava arrependida do que dissera. Vendo-a retrair-se, Paulino acrescentou, para no deixar a 
oportunidade que ela lhe oferecera:
          Questes de negcios...
 Muitas vezes me disseste que, quando estavas comigo, no pensavas em negcios!...
          Pois disse. Mas, agora, penso...
         O sorriso era maldoso. Os olhos tinham a fixidez implacvel de quem nota imperfeies ou mazelas. 
Ldia sentiu-se corar. Tinha o pressentimento de que ia passar-se algo desagradvel para si. Paulino, vendo-a 
silenciosa, insistiu:
 Agora penso. No quero dizer que tenha deixado de sentir-me bem ao p de ti, claro, mas h 
assuntos to complicados que nos obrigam a pensar neles a toda a hora e seja qual for a companhia.
         Por nada deste mundo Ldia desejaria conhecer estes assuntos. Pressentia que s lhe faria mal falar 
neles e, neste momento, ansiava por uma interrupo, que o telefone tocasse, por exemplo, qualquer acidente 
que fizesse acabar a conversa. Mas o telefone no tocou, nem Paulino estava disposto a deixar-se interromper:
 Vocs no conhecem os homens. Podemos gostar muito de uma mulher, mas l por isso no se 
segue que s pensemos nela.
           natural. Com as mulheres passa-se o mesmo.
         Qualquer diabinho malicioso impelira Ldia a dizer estas palavras. O mesmo diabinho lhe segredava 
outras mais ousadas e Ldia tinha de dominar-se ou domin-lo para as no dizer. Agora eram os seus olhos 
afiados que se fitavam sobre as fealdades de Paulino. Este, um tanto melindrado pela afirmao, respondeu:
          Claro! Era o que faltava, pensar-se sempre na mesma pessoa!
         A voz soava a despeito. Fitaram-se desconfiados, quase inimigos. Paulino procurava descobrir at 
onde Ldia sabia. Esta, por sua vez, tateava na impreciso das palavras que ouvira, para encontrar-lhes a 
causa. Subitamente, uma intuio perpassou-lhe no crebro:
  verdade!... Isto no vem a propsito, mas tem-me esquecido de dizer-te... A me da pequena c 
de cima pediu-me que te agradecesse o teu interesse...
         A transformao do rosto de Paulino mostrou-lhe que acertara. Sabia, agora, contra quem lutava. Ao 
mesmo tempo, sentiu um estremecimento de medo. O diabinho ocultara-se em qualquer parte e ela estava 
desamparada.
         Paulino sacudiu a cinza da cigarrilha, e mexeu-se no sof como se estivesse mal sentado. Tinha o ar 
de uma criana apanhada a comer marmelada s escondidas da me:
          Sim... A pequena  jeitosa...
          Pensas em aumentar-lhe o ordenado?
 Sim... Talvez... Eu tinha falado em trs meses... mas a famlia  pobre, foste tu que me falaste 
nisso, lembras-te?, e... a Claudinha entende-se bem com o servio...
          A Claudinha?
          Sim, a Maria Cludia!...
         Paulino absorvera-se na contemplao da cinza que amortecia o fulgor do morro. Com um sorriso 
de ironia, Ldia perguntou:
          E a estenografia? Que tal vai?
          Ah, vai muito bem! A pequena aprende com facilidade.
          Acredito, acredito...
         O diabinho voltara. Ldia estava segura de que acabaria por vencer, desde que no perdesse a 
serenidade. Devia, sobretudo, evitar melindrar Paulino, sem consentir, no entanto, que ele descobrisse os 
secretos temores que a dominavam. Estaria perdida se ele suspeitasse de quanto se sentia insegura.
 A me d-se muito comigo, sabes? Pelo que ela me contou, a pequena portou-se muito mal, aqui h 
dias...
          Portou-se mal?
         A curiosidade de Paulino era to flagrante que bastaria para convencer Ldia, se esta no estivesse j 
convencida.
 No sei em que ests a pensar...  insinuou.  Depois, fingindo que s nesse momento a ideia lhe 
ocorrera, teve uma grande exclamao:  Credo! No  nada disso! Ento, se fosse verdade, pensas que mo 
viriam contar? s bom de mais, meu querido Paulino!
         Talvez Paulino fosse bom de mais. O certo  que pareceu ficar dececionado. Balbuciou:
          Eu no estava a pensar...
 A questo  mais simples. O pai andava desconfiado por causa de ela chegar tarde a casa. Ela 
desculpava-se: tu que a demoravas com trabalhos urgentes...
         Paulino entendeu que devia preencher a pausa:
 No  bem assim... Aconteceu algumas vezes, realmente, mas...
 Isso compreende-se e no  da que vem o mal. O pai foi atrs dela e apanhou-a com o namorado!
         O diabinho exultava, dava cambalhotas, morria de riso. Paulino ficou sombrio. Mordeu a cigarrilha 
com fora e resmungou:
          So terrveis, estas meninas modernas...
 Oh, querido, ests a ser injusto! Ento, que h de fazer a pobre pequena? Esqueces-te de que ela 
tem dezanove anos!... Que h de fazer uma rapariga com dezanove anos? O prncipe encantado  sempre um 
rapaz da mesma idade, bonito e elegante, que diz palavras patetas mas encantadoras. Esqueces-te de que 
tambm j tiveste dezanove anos?
          Quando eu tinha dezanove anos...
         E mais no disse. Ficou a mastigar a cigarrilha, resmungando palavras incompreensveis. Estava 
despeitado, furioso. Durante todo este tempo, fizera o seu rapap em volta da nova datilgrafa e agora 
descobria que ela, sim, que ela lhe comia as papas na cabea. Claro que no avanara de mais, muitas 
atenes, alguns sorrisos, conversas inteligentemente conduzidas a ss no gabinete, depois das seis... No 
fizera qualquer proposta, claro... A rapariga era muito nova e tinha pais... Com o tempo, talvez... As suas 
intenes eram boas, claro... Queria ajudar a pequena e a famlia que era pobre...
          Mas isso ser verdade?
 Bem digo eu que s bom de mais. Estas coisas no se inventam. Quando acontecem, at h o 
cuidado de escond-las. E, se eu as sei,  porque a me tem toda a confiana em mim...  interrompeu-se e 
acrescentou, apreensiva:  Espero que no fiques muito aborrecido. Seria lamentvel que comeasses a 
antipatizar com a pequena. Conheo bem os teus escrpulos em questes desta natureza, mas peo-te que no 
a prejudiques!
          Est bem! Fica descansada.
         Ldia levantou-se. No convinha insistir no assunto. Lanara a perturbao no delicioso flirt de 
Paulino e acreditava que ela bastaria para acabar, de vez, com o devaneio. Preparou o caf, vigiando a 
elegncia dos seus movimentos. Ela mesma serviu Paulino. Sentou-se-lhe no colo, passou-lhe um brao pelas 
costas e deu-lhe o caf a beber, como a uma criana. O assunto Maria Cludia estava arrumado. Paulino 
bebeu o caf, sorrindo aos afagos que a amante lhe fazia na nuca. De sbito, Ldia mostrou-se muito 
interessada na cabea dele:
          Que usas tu agora no cabelo?
           um preparado novo.
          Notei pelo cheiro. Mas, espera...
         Olhou-lhe fixamente a calva e acrescentou, risonha:
          Oh, querido, tu tens mais cabelo!...
          Palavra?
          Juro-te.
          D c um espelho!
         Ldia saltou-lhe do colo e correu ao toucador.
          Aqui tens. Ora v!...
         Entortando os olhos para apanhar a imagem que o espelho refletia, Paulino murmurou:
          Sim... Parece que tens razo...
 Repara! Aqui e aqui!... No vs estes cabelos pequeninos?  cabelo a nascer!
         Paulino entregou-lhe o espelho, sorrindo:
 O preparado  bom. Bem me tinham dito. Tem vitaminas, sabes?
          Ah, sim?
         Com grande cpia de pormenores, Paulino explicou a composio do preparado e o modo de 
aplicao. Desta maneira, o sero, que comeara mal, acabou bem. No foi to longo como de costume. 
Atendendo ao estado de Ldia, Paulino saiu antes da meia-noite. Por meias palavras, um e outro lamentaram 
as abstinncias a que tal estado obrigava. Compensaram-se, mutuamente, com beijos e palavras ternas.
         Depois de ele sair, Ldia voltou ao quarto. Comeava a arrum-lo quando ouviu no andar de cima, 
sobre a sua cabea, um leve bater de saltos. O som ouvia-se com clareza. Ia e vinha, desaparecia e voltava. 
Enquanto o ouviu, Ldia ficou imvel, os punhos cerrados, a cabea ligeiramente erguida. Depois, duas 
pancadas mais fortes (a queda de uns sapatos) e o silncio.
 


         

         XXVIII

         Ao seu longo epistolrio de queixas e lamentaes, Carmen juntou mais uma carta. L longe, em 
Vigo, na sua terra, os pais ficariam estarrecidos e lacrimosos ao lerem o estendal sempre renovado das 
desditas da filha presa em mos de estrangeiro.
         Condenada ao uso de uma lngua estranha, s nas cartas podia explicar-se em termos que ela prpria 
entendia completamente. Relatou tudo o que se passara desde a ltima carta, demorando-se na doena do filho 
e dando  cena lamentvel da cozinha um tom mais compatvel com a sua dignidade. Recuperado o sangue-
frio, pensou que se portara de uma maneira indecorosa. Pr-se de joelhos diante do marido era para si a pior 
das ignomnias. Quanto ao filho... O filho esqueceria, era ainda uma criana. Mas o marido no esqueceria e 
isso era o que mais lhe custava.
         Escreveu tambm ao primo Manolo. No o fez sem hesitar. Tinha a vaga ideia de que cometia uma 
traio e reconheceu que a sua carta para ele no vinha a propsito. Afora breves missivas de parabns pelo 
seu aniversrio, boas festas pela Pscoa e pelo Natal, nada mais recebera dele. Sabia, contudo, como lhe ia 
correndo a vida. Os pais punham-na ao corrente do que acontecia no cl familiar, e o primo Manolo, com a 
sua fbrica de escovas, dava larga matria. Triunfara na vida. Pena era que se conservasse solteiro: assim, a 
fbrica, depois da sua morte, teria de contentar tantos herdeiros que pouco ficaria a cada um. Salvo se ele 
preferisse um desses herdeiros em prejuzo dos outros. Era livre de dispor dos seus bens e tudo podia 
acontecer. Todos estes factos eram longamente explanados nas cartas de Vigo. Manolo ainda estava novo, 
tinha apenas mais seis anos que Carmen, mas o Henriquinho devia ir-se fazendo lembrado. Carmen nunca 
dera importncia a estas sugestes, nem havia processo eficaz de o filho se fazer lembrar. Manolo no o 
conhecia. Vira-o muito pequeno quando viera a Lisboa com os pais de Carmen, em passeio. Carmen soubera 
(dissera-lho a me) que o primo declarara no ter gostado de Emlio. Naquela altura, casada de pouco tempo, 
no dera importncia, mas agora via bem que o primo Manolo tinha razo. Diziam os portugueses que de 
Espanha, nem bom vento, nem bom casamento.... Pois de Portugal, nem bom marido, nem.... Carmen no 
dispunha de imaginao bastante para inventar uma rima que correspondesse a um malefcio lusitano, mas 
tinha bem presentes todos os malefcios que proliferavam para c da fronteira.
         Escritas as cartas, ficou mais aliviada. As respostas no tardariam e, com elas, a consolao. Porque 
Carmen nada mais queria seno que a lamentassem. O d de Manolo a compensaria da pequena deslealdade 
que cometera para com o marido. Imaginava o primo no escritrio da fbrica, de que conservava uma 
lembrana. Um monte de cartas, encomendas e faturas sobre a secretria. A carta dela estava ao de cima. 
Manolo abria-a, lia-a com muita ateno, lia-a outra vez. Depois pousava-a diante de si, ficava uns momentos 
com a expresso de quem recorda acontecimentos agradveis, e, imediatamente, afastava todos os papis, 
puxava uma folha (com o nome da fbrica em letras maisculas) e comeava a escrever.
         Com estas recordaes, principiaram as saudades a minar o corao de Carmen. Saudades de tudo o 
que deixara, da sua cidade, da casa dos pais, do porto da fbrica, da doce fala galega que os portugueses no 
conseguiam imitar. Lembrando tudo isto, punha-se a chorar. Decerto h muito tempo j que as saudades a 
ralavam, mas, assim como vinham assim iam, empurradas pelo tempo cada vez mais pesado. Tudo se 
esfumava, a memria mal conseguia captar as imagens desvanecidas do seu passado. Mas agora tudo lhe 
aparecia com nitidez. Por isso chorava. Chorava o bem que perdera e que nunca mais reaveria. L, estaria 
com a sua gente, amiga entre amigos. Ningum, nas suas costas, a escarneceria pela sua fala, ningum lhe 
chamaria galega com o tom desprezador com que lhe chamavam aqui. Sim, seria galega na sua terra de 
galegos, onde galego no era sinnimo de moo de fretes nem de carvoeiro.
          Ah, disgraciada, disgraciada!...
         O filho mirava-a com olhos de espanto. Com uma teimosia inconsciente, resistira s tentativas da 
me para o cativar de novo, resistira s pancadas e aos bruxedos. Cada pancada, cada reza, o empurravam 
para o pai. O pai era calmo, tranquilo, a me era excessiva em tudo, no dio e no amor. Mas agora ela chorava 
e Henrique, como todas as crianas, no podia ver chorar e muito menos sua me. Chegava-se para ela, 
consolava-a como podia, sem palavras. Beijava-a, encostava o seu rosto ao rosto molhado de lgrimas e, da a 
pouco, choravam os dois. Ento, Carmen contava-lhe longas histrias da Galiza, substituindo, quase sem dar 
por isso, o portugus pelo galego.
          No percebo, me!...
         Ela caa em si, traduzia para a detestada lngua portuguesa aquelas lindas histrias que s tinham 
beleza e sabor na sua lngua natal. Depois mostrava-lhe fotografias, o retrato do av Filipe e da av Mercedes, 
uma outra onde aparecia o primo Manolo com mais familiares. Henrique j vira tudo isto, mas a me insistia. 
Mostrando uma onde se via um canto do jardim da casa dos pais, disse:
          Aqui brinquei muchas veces com o primo Manolo...
         Tornara-se uma obcecao a lembrana de Manolo. Por caminhos escondidos, o pensamento 
chegava sempre a ele, e Carmen ficava toda confusa quando descobria que durante muito tempo nele estivera 
pensando. Era uma tolice. Tanto tempo tinha passado... Estava velha, apesar dos seus trinta e trs anos. E 
estava casada, tambm. Tinha a sua casa, um marido, um filho. Ningum tem o direito, nesta situao, de ter 
semelhantes pensamentos.
         Arrumava as fotografias, mergulhava nas ocupaes domsticas, aturdia-se. Mas o pensamento 
voltava: a sua terra, os pais, Manolo depois de tudo, como se a recordao da sua figura e da sua voz tivesse 
sido afastada e por isso chegasse mais tarde.
 noite, na cama, ao lado do marido, tinha longas insnias. A saudade da vida passada tornara-se 
imperiosa, como que exigia uma ao imediata da sua parte. Enleada nos pensamentos que a levavam para 
longe, tornou-se mais calma. O seu temperamento fogoso abrandou, uma doce serenidade lhe entrou no 
corao. Emlio estranhou a transformao, mas no fez qualquer reparo. Pensou que seria uma mudana de 
ttica para captar novamente o amor do filho. Sups ter acertado, ao notar que Henrique se dividia, agora, 
entre ele e a me. Dir-se-ia que at os pretendia reconciliar. Com uma ingnua, e talvez inconsciente, 
habilidade, procurava interessar ambos nos seus assuntos. Os resultados eram desanimadores. Quer o pai quer 
a me, sempre prontos a responder-lhe quando se dirigia a cada um, fingiam-se distrados quando tentava 
generalizar a conversa. Henrique no compreendia. Amara pouco o pai, mas descobrira que podia am-lo sem 
reservas; durante algum tempo receara a me, mas agora a me chorava e ele reconhecia que nunca deixara de 
a amar. Amava ambos e via que eles se afastavam cada vez mais um do outro. Por que no falavam? Por que 
se olhavam, s vezes, como se no se conhecessem ou como se se conhecessem de mais? Porqu aqueles 
seres silenciosos, onde a voz infantil parecia andar perdida, como uma floresta imensa e sombria que 
abafava todos os ecos e donde tinham fugido todos os pssaros? Para muito longe haviam fugido as aves 
amorosas, a floresta ficara petrificada, sem a vida que s o amor gera.
         Lentos passaram os dias. O servio postal encaminhara atravs do pas e para l da fronteira as cartas 
de Carmen. Talvez pela mesma via (quem sabe se pelas mesmas mos?) as respostas comeavam o seu 
caminho. Cada hora, cada dia, as aproximava mais. Carmen nem sabia o que esperava. Compaixo? Boas 
palavras? Sim, e delas precisava. No estaria to s ao l-las, era como se em volta estivessem os seus 
verdadeiros parentes. Via-lhes os rostos compassivos que se debruavam para ela e lhe incutiam coragem. 
Nada mais devia esperar. Mas, talvez porque se lembrara de escrever a Manolo, esperava mais. Os dias 
passaram. A sua ansiedade fazia-a esquecer que a me no era muito pronta a escrever, que a sua 
correspondncia com ela tinha largos intervalos. J cuidava que estava esquecida...
         Amarrado  sua rotina de caixeiro de praa, vendo cada dia mais longe o dia da libertao, Emlio 
deixava passar o tempo. Anunciara que se iria embora e no dava um passo. Falecia-lhe a coragem. Quase a 
passar a soleira da porta para nunca mais voltar, alguma coisa o prendia. Da sua casa fugira o amor. No 
odiava a mulher, mas estava fatigado de infelicidade. Tudo tem um limite: pode suportar-se a infelicidade at 
aqui, mas no at ali. E, no entanto, no partia. A mulher deixara de fazer aquelas cenas exasperantes, tornara-
se mansa e tranquila. Nunca mais subira a voz, nunca mais se queixara da sua negra vida. Pensando nisto, 
Emlio assustava-se  hiptese de que ela pretendesse reconstruir a vida do lar. J se sentia demasiadamente 
preso para desejar tal eventualidade. Mas Carmen falava-lhe apenas quando no podia deixar de o fazer. Nada 
permitia, pois, pensar num desejo de reconciliao. Que ela conseguira atrair o filho era evidente, mas da a 
querer capt-lo a ele ia uma grande distncia que no parecia disposta a transpor. A transformao intrigava-
o: Henrique voltara ao convvio da me, por que esperava ela para recomear as cenas tempestuosas? Posta a 
pergunta e no encontrada a resposta, Emlio encolhia os ombros com indiferena e entregava-se ao tempo 
como se ele pudesse dar-lhe a coragem que lhe faltava.
         At que chegou uma carta. Emlio no estava em casa, Henrique fora a um recado. Quando a recebeu 
das mos do carteiro e reconheceu a caligrafia da me, Carmen teve um estremecimento:
          No traz mais nenhuma?
         O carteiro olhou o mao que tinha na mo e respondeu:
           s essa.
         S esta! Carmen teve vontade de chorar. Via nesse momento que estivera esperando carta de 
Manolo, no s dele, mas principalmente dele. E a carta no vinha. Com uma lentido que intrigou o carteiro, 
fechou a porta. Que loucura, a sua! No pensara! No estava nos seus cinco sentidos quando escrevera ao 
primo! Ocupada com estes pensamentos j esquecera que tinha nas mos a carta da me. Mas sentiu nos 
dedos, de sbito, o contacto do papel. Murmurou, em galego:
          Mia nai...
         Num gesto rpido, abriu o sobrescrito. Duas folhas grandes, escritas de alto a baixo com a letra 
cerrada e miudinha que to bem conhecia. O corredor estava escuro, no conseguiu ler. Correu para o quarto, 
acendeu a luz, sentou-se na borda da cama, tudo isto rapidamente, como se tivesse medo que a carta se lhe 
evaporasse das mos. Os olhos molhados de lgrimas no conseguiam distinguir as palavras. Nervosa, 
enxugou-os, assoou-se, e pde, enfim, saber o que a me lhe dizia.
         Sim, vinha tudo o que esperava. A me lamentava-a mais uma vez, mais uma vez dizia que no era 
por culpa sua, que bem a avisara... Sim, j sabia tudo isto, j lera estas mesmas palavras noutras cartas... Mas 
no diziam mais nada? No tinham outra coisa a dizer-lhe? No?... Mas... Que querem dizer? Ah, me 
querida, me querida!...
         Ali estava. Ia partir. Ia passar um tempo a casa dos pais. Um ms, talvez dois meses. Levaria 
Henrique. Eles pagavam as passagens. Seria... O que seria, no o sabia bem Carmen. As lgrimas saltaram e 
ela j no pde ler mais. Seria uma felicidade, sem dvida. Dois meses, talvez trs, longe desta casa, ao lado 
dos seus, com o filho junto de si.
         Limpou os olhos e continuou a ler. Notcias da casa, da famlia, o nascimento de um sobrinho. 
Depois, beijos e abraos. Na margem da carta, em letra mais apertada, um post scriptum. A campainha da 
porta tocou. Carmen no ouviu. Tornou a tocar. Carmen j lera aquelas linhas finais, mas nada ouvia. Ali 
estava a explicao: Manolo mandava dizer que no escrevia porque esperava que ela fosse a Vigo. A 
campainha estridulava impaciente e inquieta. Como se voltasse do fundo do tempo, Carmen ouviu-a, enfim. 
Foi abrir. Era o filho. Henrique ficou perplexo, a me chorava e ria ao mesmo tempo. Viu-se preso nos braos 
dela, sentiu-lhe os beijos e ouviu:
 Vamos ver o av Filipe e a av Mercedes. Vamos passar um tempo com eles. Vamos, vamos, meu 
filho!
         Quando Emlio chegou,  noite, Carmen mostrou-lhe a carta. Nunca ele se interessara pela 
correspondncia da mulher e era delicado bastante para no ir remexer nas cartas, s escondidas. Suspeitava 
dos queixumes, adivinhava que fazia figura de tirano naquela correspondncia, mas no queria l-la. E 
Carmen, embora no lhe desagradasse que o marido soubesse o que dele se dizia, apenas lhe mostrou o trecho 
da carta em que a me lembrava a viagem: era preciso que ele consentisse e a leitura do resto poderia lev-lo, 
por despeito, a recusar. Emlio notou a falta de uma margem que tinha sido cortada  tesoura. No perguntou 
porqu. Devolveu a carta, sem palavras.
          Ento?
         No respondeu logo. Via, ele tambm, dois meses, talvez trs, de solido. Via-se livre, s, na casa 
vazia. Podia sair quando quisesse, entrar quando quisesse, dormir no cho ou na cama. Via-se a fazer todas as 
coisas que desejava  e eram tantas que no conseguia agora lembrar-se de nenhuma. Um sorriso distendeu-
lhe os lbios. Desde esse momento comeava a sentir-se livre, caam  sua volta as cadeias que o amarravam. 
L fora esperava-o uma vida ampla, plena, onde cabiam todos os sonhos e todas as esperanas. Que no 
fossem mais que trs meses, isso que importava? Talvez depois chegassem os seus dias de coragem...
 Ento?  insistiu a mulher, pressentindo uma negativa no silncio.
          Ento?!... Acho bem.
         Apenas estas duas palavras. Pela primeira vez h muitos anos, havia trs pessoas satisfeitas naquela 
casa. Para Henrique era a perspetiva das frias, o comboio pouca-terra-pouca-terra, todo o maravilhoso de 
que as viagens se rodeiam para as crianas. Para Emlio e para Carmen, a libertao do pesadelo que os ligava 
um ao outro.
         O jantar foi tranquilo. Houve sorrisos e palavras amveis. Henrique estava contente. At os pais 
pareciam felizes. A prpria luz da cozinha parecia mais clara. Tudo era mais claro e puro.
 


         

         XXIX

         Da cena noturna em que Justina se mostrou nua pela primeira vez ao marido, nunca se falou. Caetano 
por cobardia, Justina por orgulho. Dela ficou apenas uma frieza maior. Caetano, depois de sair do jornal, ia 
passar o resto da noite e a manh noutra cama. S voltava a casa para almoar. Deitava-se e dormia toda a 
tarde. Entendiam-se, quando precisavam de entender-se, por monosslabos e frases curtas. Nunca a averso 
mtua fora to completa. Caetano evitava a mulher, como se receasse que ela lhe aparecesse, subitamente, 
despida. Justina, essa, no evitava olh-lo, mas fazia-o com desprezo, quase com insolncia. Ele sentia o peso 
daquele olhar e fervia de clera impotente. Sabia que muitos homens batem nas mulheres e que uns e outras 
acham o ato natural. Sabia que, para muitos, isso era considerado uma manifestao de virilidade, tal como 
tantos entendem que  um sintoma de virilidade o aparecimento de doenas venreas. Mas, se podia gabar-se 
dos seus males de Vnus, no podia vangloriar-se de ter alguma vez sovado a mulher. No por questo de 
princpios, embora gostasse de afirm-lo, mas por pura cobardia. Intimidava-o a serenidade de Justina, s uma 
vez quebrada e em condies que lhe faziam vergonha. Revia a cena, trazia constantemente diante dos olhos a 
figura esqulida e nua, ouvia-lhe as gargalhadas que pareciam soluos. A reao da mulher, por inesperada, 
acentuara-lhe o complexo de inferioridade que desde h muito sofria em relao a ela. Por isso a evitava. Por 
isso estava em casa o mnimo tempo possvel, por isso fugia de se deitar ao lado dela. E havia ainda outra 
razo. Sabia que quando se deitasse na cama onde a mulher estivesse, no poderia impedir-se de a possuir. 
Quando pela primeira vez teve conscincia disto, assustou-se. Quis reagir, chamou-se estpido, enumerou 
todas as razes que deviam impossibilit-lo: o corpo sem graa, a repulsa de outros tempos, o desprezo. Mas 
quantas mais acrescentava, mais furioso se lhe acendia o desejo. Para o abafar, esgotava-se fora de casa, mas 
nunca o conseguia. Vazio, oco, com as pernas moles e os olhos fundos, mal chegava a casa e sentia o cheiro 
peculiar do corpo de Justina, logo a vaga do desejo se enrolava no mais secreto do seu ser. Era como se 
tivesse suportado uma longa abstinncia e visse, pela primeira vez, depois dela, uma mulher ao alcance do 
brao. Quando se deitava, depois do almoo, o calor dos lenis atormentava-o. Uma pea de roupa da 
mulher, abandonada numa cadeira, atraa-lhe os olhos. Mentalmente, dava ao vestido vazio,  meia dobrada, o 
contorno e o movimento do corpo vivo, da perna tensa e vibrante. A imaginao arquitetava formas perfeitas 
que nem de longe correspondiam  realidade. E se Justina, nesse momento, passava no quarto, precisava de 
apelar para toda a sua capacidade de resistncia, para no saltar da cama e arrast-la. Vivia obcecado pela 
mais baixa sensualidade. Tinha sonhos erticos como um adolescente. Extenuava as suas amantes de ocasio 
e insultava-as porque elas no o acalmavam. Como uma mosca teimosa, constantemente o picava o desejo. 
Como uma borboleta a que a luz paralisa os movimentos de um lado do corpo e por isso descreve crculos 
mais e mais apertados at se queimar na chama, circulava  volta da mulher, atrado pelo seu cheiro, pelas 
suas formas toscas que o amor no moldara.
         Justina no suspeitava do efeito que a sua presena produzia no marido. Via-o nervoso, excitvel, 
mas atribua esse estado ao dobrado desprezo com que o tratava. Como quem brinca com um animal perigoso 
sabendo o perigo que corre, mas no fugindo dele por curiosidade, queria ver at onde o marido era capaz de 
aguentar. Queria medir-lhe a altura da cobardia. Abrandou o seu desprezo silencioso e passou a falar mais 
para mais oportunidades ter de o mostrar. Em todas as suas palavras, em todas as inflexes de voz, mostrava 
ao marido quanto o considerava indigno. Caetano reagia de maneira imprevisvel para ela. Transformara-se 
no tipo de amante masoquista. Os insultos, as vergastadas no seu orgulho de homem e de marido, levavam-no 
aos paroxismos do desejo. Justina brincava com o fogo sem o ver.
         Uma noite, incapaz de resistir mais tempo, Caetano, logo que saiu do jornal, correu a casa. 
Combinara um encontro, mas esqueceu-o. A mulher que o esperava no podia satisfaz-lo. Como se tivesse 
enlouquecido mas guardasse ainda na memria o local onde lhe restituiriam a razo, correu para casa. Meteu-
se num txi vagabundo e prometeu ao motorista uma boa gorjeta se o levasse depressa. Pelas ruas desertas da 
cidade, o automvel galgou em poucos minutos a distncia. A gorjeta foi generosa; mais ainda, perdulria. Ao 
entrar em casa Caetano lembrou-se, de repente, de que da ltima vez que entrara quela hora sara corrido. 
Durante um breve segundo esteve lcido. Viu o que ia fazer, temeu as consequncias. Mas ouviu o respirar 
pausado de Justina, sentiu a tepidez do quarto, palpou sobre a colcha o corpo estendido, e, como uma vaga 
que o mar levanta das profundezas, ergueu-se nele o furor sexual.
         Foi s escuras. Ao primeiro contacto, Justina reconheceu o marido. Meia imersa no sono, fez uns 
movimentos atabalhoados para defender-se. Mas ele dominou-a, esmagou-a contra o colcho. Ela ficou 
estendida, imvel, alheia, impossibilitada de reagir, como se estivesse sonhando um daqueles pesadelos em 
que a Coisa monstruosa, desconhecida e por isso horrvel, cai sobre ns. Conseguiu, por fim, soltar um brao. 
Apalpando nas trevas, acendeu o candeeiro da cabeceira. E viu o marido. O rosto dele aterrava. Os olhos 
salientes, o lbio inferior mais descado que de costume, o rosto vermelho e suado, um rito animal torcendo-
lhe a boca. Justina no gritou porque a garganta apertada de pavor no podia emitir o menor som. Sbito, a 
mscara de Caetano teve como que um estorcego que a tornou irreconhecvel. Era o rosto de um ser 
diferente, de um homem arrancado  animalidade pr-histrica, de uma besta selvagem encarnada num corpo 
humano.
         Ento, com um brilho frio no olhar, Justina cuspiu-lhe na cara. Caetano, aturdido, ainda fremente, 
ficou a olhar para ela. No compreendia bem o que se passara. Passou a mo pelo rosto e olhou-a. A saliva, 
ainda tpida, pegara-se-lhe aos dedos. Abriu-os: a saliva ligava-os em fios brilhantes que se tornavam mais e 
mais delgados, at se quebrarem. Caetano compreendeu. Compreendeu, enfim. Foi como a chicotada 
imprudente que faz erguer o tigre j domado sobre as patas traseiras, as garras estendidas, os dentes afiados. A 
mulher fechou os olhos e esperou. O marido no se movia. Justina comeou a descerrar as plpebras, a medo, 
e imediatamente sentiu que o marido a empolgava de novo. Tentou desviar-se, mas todo o corpo dele a 
dominava. Quis manter-se fria, como da primeira vez, mas da primeira vez ficara fria naturalmente, no o 
estivera por ao da vontade. Agora, s  fora de vontade o conseguia. Mas a vontade entrou de fraquejar. 
Foras poderosas, at a adormecidas, se erguiam dentro de si. Ondas rpidas e envolventes a percorriam. 
Qualquer coisa como uma luz viva perpassava e perpassava dentro da sua cabea. Soltou uma exclamao 
inarticulada. A vontade afundava-se no pego do instinto. Sobrenadou ainda um momento, agitou-se e 
desapareceu. Como louca, Justina correspondia ao amplexo do marido. O seu corpo magro quase desaparecia 
debaixo do corpo dele. Vibrava, estorcia-se, furiosa tambm agora, tambm agora subjugada pelo instinto 
cego. Houve como que um estertor simultneo e os corpos rolaram, enlaados e palpitantes.
         Depois, movidos pela mesma repugnncia, afastaram-se. Em silncio, cada qual para seu lado, 
recuperavam o flego. A respirao arquejante de Caetano abafava a da mulher. Dela, apenas uns ltimos 
estremecimentos assinalavam a presena.
         Fizera-se o vcuo no crebro de Justina. Tinha os membros doridos e moles. O cheiro forte do corpo 
do marido impregnara-lhe a pele. Gotas de suor deslizavam-lhe pelas axilas. E uma lassido profunda 
impedia-a de mover-se. Sentia ainda o peso do corpo do marido. Lentamente, estendeu o brao e apagou a 
luz. Pouco a pouco, a respirao de Caetano tornou-se mais regular. Saciado, deslizou para o sono. Justina 
ficou sozinha. Os estremecimentos cessaram, o cansao diminuiu. S o crebro continuava vazio de 
raciocnio. Pedaos de ideias comearam a erguer-se devagar. Sucediam-se uns aos outros, incompletos, sem 
continuidades, sem um fio que os ligasse entre si. Justina queria pensar no que acontecera, queria agarrar uma 
daquelas ideias fugidias que apareciam e se sumiam como feijes que a fervura levanta e logo faz 
desaparecer. Era cedo, porm. Nem ela o conseguiria to depressa, porque foi o espanto que se apossou dela 
repentinamente. To absurdo se lhe figurava o que se passara minutos antes, que admitiu que sonhara. Mas o 
seu corpo pisado, uma estranha sensao de plenitude indefinvel, localizada em certas regies do corpo, a 
desmentiam. Foi ento, s ento, que o espanto a absorveu ou ela se absorveu nele.
         Por todo o resto da noite, no dormiu. Ficou a olhar o escuro, desorientada, incapaz de raciocinar. 
Sentia vagamente que as suas relaes com o marido tinham sofrido uma alterao. Estava como se tivesse 
passado das trevas para a luz intensa, cega, de momento, para os objetos que a rodeavam, adivinhando-lhes os 
contornos, mas vendo-os como um borro indistinto. Ouviu todas as horas que o relgio bateu. Assistiu ao 
recuo da noite e  aproximao da manh. Tons azulados comearam a espalhar-se no quarto, aqui e alm. O 
vo da porta que dava para o corredor desenhou-se na penumbra com uma tonalidade opalescente. Ao mesmo 
tempo que a manh, ouviam-se no prdio rumores imprecisos. Caetano dormia, estendido de costas, uma 
perna destapada at  virilha, uma perna branca e mole como a barriga de um peixe.
         Reagindo contra o torpor que lhe prendia os membros, Justina ergueu-se. Ficou sentada, as costas 
curvadas, a cabea pendida. Todo o corpo lhe doa. Levantou-se com cuidado para no acordar o marido, 
vestiu a bata e saiu do quarto. Continuava sem poder ligar duas ideias, mas, por detrs desta impossibilidade, 
o pensamento involuntrio, aquele que se processa e desenvolve sem dependncia da vontade, principiava a 
trabalhar.
         Escassos segundos gastou Justina para chegar  casa de banho. Um momento bastou para que ela 
erguesse a cabea e fitasse o espelho. Viu-se e no se reconheceu. O rosto que tinha na sua frente no lhe 
pertencia ou estivera oculto at a. Em volta dos olhos, um crculo escuro tornava-os mais mortios. As faces 
pareciam chupadas. Os cabelos em desordem lembravam a agitao da noite. Mas este aspeto no era novo 
para si: sempre que a diabetes se agravava, o espelho mostrava-lhe aquela aparncia. O que diferia era a 
expresso. Devia estar indignada e estava calma, devia sentir-se ofendida e sentia-se como se tivesse 
perdoado uma injria.
         Sentou-se num banco da marquise. O sol entrava j pelos vidros superiores e riscava a parede de um 
filete de luz rosada que ia alargando e aclarando. No ar vivo da manh passavam gritos de andorinhas. Levada 
por um impulso irrefletido, voltou ao quarto. O marido no se mexera. Dormia de boca aberta, os dentes 
muito brancos na face enegrecida pela barba. Aproximou-se devagar e curvou-se para ele. Aquele rosto inerte 
s de longe lembrava o rosto convulsionado que vira. Lembrou-se de que lhe cuspira e teve medo, um medo 
que a fez recuar. Caetano fez um movimento. A roupa que o cobria deslizou sobre a perna que se fletia e 
deixou-lhe o sexo  mostra. Uma onda de nojo subiu do estmago de Justina. Fugiu do quarto. S ento o 
ltimo lao que lhe prendia o pensamento se desatou. Como se quisesse recuperar o tempo que perdera, o 
crebro comeou a girar rapidamente, at se fixar num pensamento nico e obsidiante: Que vou eu fazer? 
Que vou eu fazer?
         No mais desprezo, no mais indiferena: agora era dio o que sentia. Odiava o marido e odiava-se a 
si mesma. Lembrava-se de que se lhe entregara com a mesma fria com que ele a possura. Deu uns passos 
indecisos na cozinha, como se estivesse num labirinto. Por toda a parte, portas fechadas e caminhos sem 
sada. Se tivesse podido conservar-se indiferente, ser-lhe-ia permitido apresentar-se como vtima da fora 
bruta. Bem sabia que, como mulher casada, no teria o direito de recusar-se, mas a passividade seria a sua 
maior recusa. Ter-se-ia deixado possuir, no se teria entregado. E entregara-se. O marido vira que ela se 
entregara; consideraria isso uma vitria e agiria como vencedor. Imporia a lei que entendesse e rir-lhe-ia na 
cara quando ela quisesse rebelar-se. Um momento de desvario  e todo o trabalho de anos se desmoronara. 
Um momento de cegueira  e a fora mudara-se em fraqueza.
         Tinha que pensar no que devia fazer. E pensar depressa, antes que ele acordasse. Pensar, antes que 
fosse tarde de mais. Pensar, agora que o dio estava vivo e a sangrar. Cedera uma vez, no queria ceder outra. 
Mas a recordao das sensaes comeou a perturb-la. Nunca, at essa noite, subira ao mais alto cume do 
prazer. Mesmo quando vivia as relaes normais com o marido, jamais experimentara aquela aguda sensao 
que faz temer a loucura e desej-la. Nunca se sentira lanada, como naquele momento, no redemoinho do 
prazer, rotos todos os laos, ultrapassadas todas as fronteiras. O que para as demais mulheres seria a ascenso, 
era, para si, a queda.
         Um toque de campainha cortou-lhe o pensamento. Correu  porta, nas pontas dos ps. Atendeu o 
leiteiro e voltou  cozinha. O marido no acordara.
         Tornava-se, agora, clara a situao. Tinha de escolher entre o prazer e o domnio. Calando-se, 
aceitaria a derrota em troca de outros momentos como o que vivera, desde que o marido estivesse disposto a 
conceder-lhos. Falando, arriscar-se-ia a que lhe lanasse no rosto a maneira como ela retribura. Era fcil pr 
estas duas alternativas, mas difcil escolher uma delas. H pouco sentira nojo, mas, agora, marulhavam dentro 
de si, como as ondas do mar dentro de um bzio, as recordaes do xtase sexual. Falar, seria perder a 
possibilidade da repetio. Calar-se, seria sujeitar-se s condies que o marido quisesse impor. Justina 
oscilava entre os dois polos: o desejo acordado e a vontade de domnio; um exclua a outra. Qual escolher? 
Mais: at onde lhe era possvel escolher? Dominando  como poderia resistir ao desejo, depois de o ter 
conhecido? Submetendo-se  como suportaria a submisso imposta por um homem que desprezava?
         O sol daquela manh de domingo entrava pela janela como um rio de luz. Do lugar onde estava 
sentada, Justina via as pequenas nuvens brancas de contornos esfarrapados que corriam no cu limpo. Bom 
tempo. Claridade. Primavera.
         Do quarto veio um murmrio abafado. A cama estalou. Justina estremeceu, sentindo o rosto em fogo. 
A linha de pensamento que vinha desenredando quebrou-se. Ficou paralisada,  espera. Os estalidos 
continuavam. Aproximou-se da porta do quarto e espreitou: o marido estava de olhos abertos e viu-a. 
Impossvel voltar atrs. Em silncio, entrou. Em silncio, Caetano olhou-a. Justina no sabia o que ia dizer. 
Todo o raciocnio a abandonara. O marido sorriu. Ela no teve tempo para descobrir o que o sorriso queria 
significar. Quase sem dar por que falava, disse:
 Faa de conta que nada se passou esta noite. Por mim, farei o mesmo.
         O sorriso desapareceu dos lbios de Caetano. Uma ruga funda se cavou entre as sobrancelhas.
          Talvez no seja possvel  respondeu.
 Conhece muitas mulheres l fora, pode divertir-se com elas...
          E se eu quiser usar dos meus direitos de marido?
          No poderei recusar-me, mas h de cansar-se...
 Compreendo... Parece que compreendo... Por que no procedeu assim esta noite?
 Se o senhor tivesse alguma dignidade, no faria essa pergunta! J se esqueceu de que lhe cuspi na 
cara?
         O rosto de Caetano endureceu. As mos que se apoiavam na colcha cerraram-se com fora. Pareceu 
ir levantar-se, mas deixou-se ficar. Com uma voz lenta e sarcstica, respondeu:
 J me tinha esquecido, j. Lembrei-me agora. Mas tambm me lembro de que s me cuspiu uma 
vez...
         Justina compreendeu a insinuao e ficou calada.
          Ento? No responde?  perguntou o marido.
          No. Tenho vergonha, por si e por mim.
          E eu? Eu, que tenho sofrido o seu desprezo?
           digno dele.
          Quem  voc para desprezar-me?
          Nada, mas desprezo-o.
          Porqu?
 Comecei a desprez-lo logo que o conheci, e s o conheci depois de estar casada. O senhor  um 
vicioso.
         Caetano encolheu os ombros, impaciente:
          Isso so cimes.
 Cimes, eu? Deixe-me rir! S se tem cimes de quem se ama e eu no o amo. Gostei de si, talvez, 
mas durou pouco tempo. Quando a minha filha esteve doente, que importncia lhe ligou? Todo o tempo era 
pouco para as amantes!...
          Est a dizer disparates.
 Pense o que quiser. S quero que se convena de que o que se passou esta noite, no se repetir.
          Veremos...
          Que quer dizer?
 Disse-me que sou um vicioso.  possvel. Suponha que, por qualquer motivo, passei a interessar-
me por si...
 Dispenso o interesse. E, de resto, h quantos anos no sou para si uma mulher?
          Parece que tem pena...
         Justina no respondeu. O marido olhava-a com uma expresso maligna:
          Tem pena?
 No! Seria pr-me ao nvel das mulheres que voc conhece!
 Lembro-lhe que, com elas,  mais difcil. J pensou que me bastaria pux-la por um brao? Sou seu 
marido...
          Infelizmente para mim.
 Est a ser inconveniente, repare. O facto de eu ter ficado indiferente quando me cuspiu, no quer 
dizer que esteja na disposio de aturar-lhe todas as impertinncias, ouviu?
 Ouvi, mas no me mete medo. J me ameaou de que me pisaria a ps e no tremi.
          No me provoque!
          No me assusta!
          Justina!
         Discutindo, ela tinha-se aproximado. Estava  beira da cama, e olhava o marido, de cima. Num 
relance, o brao direito dele moveu-se e prendeu-a por um pulso. No a puxou, mas manteve-a segura. Justina 
sentiu um tremor em todo o corpo. Os joelhos batiam um no outro como se estivessem prestes a vergar-se. 
Caetano murmurou, com a voz rouca:
 Tens razo... Sou um vicioso. Bem sei que no gostas de mim, mas, desde que te vi na outra noite, 
fiquei doido. Ests a ouvir-me?... Fiquei doido. Se no tivesse vindo esta noite, morria!...
         Mais do que as palavras, o tom com que foram pronunciadas atordoou Justina. Tentou libertar o 
pulso, desesperada, sentindo que o marido a puxava lentamente:
          Deixe-me! Deixe-me!
         As suas dbeis foras cediam. J toda se inclinava para ele, j sentia nos ouvidos as palpitaes do 
corao. Mas deu com os olhos no retrato da filha, viu-lhe o doce e obstinado sorriso. Firmou-se na borda da 
cama e resistiu. Viu que o marido ia prend-la com a outra mo. Furtou o corpo e cravou os dentes nos dedos 
que a seguravam. Com um berro, Caetano largou-a.
         Ela correu para a cozinha. Sabia agora tudo, sabia agora o motivo... Assim, se no tivesse cedido ao 
impulso que a levara a mostrar-se nua ao marido, nada se teria passado. A Justina de hoje seria a Justina de 
ontem. Falara  e que resultara da? A conscincia certa e segura de que tudo se modificara. Se no cedera 
desta vez, fora apenas por um acaso fortuito. O retrato da filha de nada teria valido, se o dilogo no lhe 
tivesse dado foras para resistir e tambm porque s h poucas horas... Quer dizer, se ele no insistir, se 
deixar passar um dia, dois dias, se, depois desses dois dias fizer uma tentativa, no resistirei...
         Justina preparava a refeio, com o pensamento longe do que fazia. E pensava: Ele  um vicioso, 
por isso o desprezei. Continua a ser um vicioso, por isso o desprezo ainda. E, desprezando-o, entreguei-me, e 
sei que, chegada a oportunidade, me entregarei outra vez. Ser isto o casamento? Terei de concluir, ao fim de 
tudo, ao fim de todos estes anos, que posso ser to viciosa como ele? Se eu o amasse... se o amasse no falaria 
eu em vcio. Acharia tudo natural, entregar-me-ia sempre como hoje. Mas, ser possvel, no amando, sentir o 
que senti? No o amo e ia enlouquecendo de prazer. Os outros tambm vivero assim? Haver, entre eles, 
apenas o dio e o gozo? E o amor? Ento, aquilo que s o amor deveria dar, tambm o d este desejo animal? 
Ou, no fim de contas, ser o amor apenas o desejo?
          Justina! Quero levantar-me. Onde est o pijama?
         Levantar-se, j? Iria passar toda a manh junto dela? Talvez quisesse sair... Foi ao quarto, abriu o 
guarda-fato e entregou o pijama ao marido. Ele recebeu-o sem palavras. Justina nem sequer o olhou. No 
fundo do corao continuava a desprez-lo e cada vez mais, mas no tinha coragem de o encarar. Voltou  
cozinha, a tremer:  medo o que sinto. Tenho medo dele. Eu! Tenho medo dele! Se mo dissessem ontem, 
teria rido...
         De mos nas algibeiras, arrastando os sapatos, Caetano passou para a casa de banho. A mulher 
respirou: temera qualquer familiaridade e no estava preparada para receb-la.
         Caetano, na casa de banho, assobiava um fado melodioso. Ps-se diante do espelho, interrompeu o 
assobio para apalpar a cara e esfregar a barba dura. Depois, enquanto armava a mquina de barbear, retomou 
o fado. Ensaboou-se e ps de parte o assobio para barbear-se com segurana. Dava j a ltima passagem 
quando ouviu a voz da mulher, perto da porta fechada:
          O caf est pronto.
          Est bem, filha. J vou.
         Para ele, a conversa com a mulher no contara. Sabia que vencera. Mais ou menos resistncia, at 
dava a sua graa. Veria a Dona Justina como tinha de pagar com lngua de palmo todas as desconsideraes 
que lhe fizera. Apanhara-a. Como diabo no se lembrara de que a melhor forma de verg-la era, justamente, 
aquela? L se ia o desprezo, l se ia o orgulho partido em bocadinhos! Sem contar que ela gostara, a marota! 
Cuspira-lhe na cara, sim senhor, mas at isso pagaria. Havia de fazer-lhe o mesmo, uma vez, pelo menos. 
Quando ela comeasse com o ai-ai! ai-ai e a rebolar-se, toma l que j almoaste! Sempre estava para ver o 
que ela fazia. Talvez se zangasse, talvez, mas seria s depois...
         Caetano estava contente. Nem as borbulhas do pescoo rebentavam  passagem da lmina. Acalmara 
os nervos, enfim. Andara a sabujar em volta da mulher, bem o reconhecia, mas agora tinha-a na mo. Ainda 
que a antiga repugnncia voltasse, o que seria certo, no lhe recusaria a assistncia tcnica que todo o marido 
deve dar  sua esposa.
         O uso da palavra tcnica nesta frase f-lo sorrir: Assistncia tcnica! Tem piada!...
         Lavou-se com grande desperdcio de gua e sabo. Enquanto se penteava, ia pensando: No h 
dvida de que fui um grande tanso. A carta annima estava-se mesmo a ver que no dava resultado 
nenhum...
         Interrompeu-se. Abriu a janela, devagar, e espreitou para fora. No ficou surpreendido por ver Ldia: 
fora mesmo por causa dela que se interrompera. Ldia olhava para baixo e sorria. Caetano seguiu-lhe o olhar e 
viu no quintal do rs do cho direito, da casa do sapateiro, o hspede correndo atrs de uma galinha, enquanto 
Silvestre, encostado ao muro, de cigarro na boca, dava grandes palmadas nas coxas:
 Oh, Abel! Voc no  capaz de agarrar o bicho! Ai, que no temos canja para o almoo!
         Ldia deu uma risada. Abel olhou para cima e sorriu:
          Desculpe... Quer dar-me uma ajuda?
         O riso de Ldia soou mais alto:
          S servia para o atrapalhar...
 Mas no  caridoso estar a rir-se da minha triste figura!
 No estou a rir-me do senhor. Rio-me da galinha...  interrompeu-se para saudar:  Bom dia, 
senhor Silvestre! Bom dia, senhor...
 Abel...  disse o rapaz.  No digo os apelidos porque estamos muito longe para apresentaes.
         A galinha, a um canto, sacudia-se e cacarejava.
          Est a fazer pouco de si  notou o sapateiro.
          Sim? Pois vou obrig-la a fazer rir aquela senhora.
         Caetano no quis ouvir mais. Fechou a janela. Os cacarejos agudos da ave perseguida comearam 
outra vez. Sorrindo, Caetano sentou-se na borda da retrete, enquanto ordenava os pensamentos: No deu 
resultado, a carta... No deu, mas esta vai dar... Estendeu a mo para a janela, na direo de Ldia, e 
murmurou:
 Vais-mas pagar, tu tambm... Ou eu no me chame Caetano.
 


         

         XXX

         As diligncias de Amlia esbarraram na defensiva obstinada das sobrinhas. Tentou faz-las confessar 
a bem, lembrou-lhes a antiga harmonia, o perfeito entendimento que antes existira entre todas. Isaura e 
Adriana levaram o caso a rir. Demonstraram-lhe, com todas as razes possveis, que no estavam zangadas, 
que s a preocupao de as ver constantemente felizes a fizera imaginar coisas que nem por sombras existiam.
 Todas ns temos os nossos aborrecimentos, tia  dizia Adriana.
 Bem sei. At eu os tenho. Mas no julguem que me enganam. Tu ainda falas, ainda ris, a Isaura 
nem isso. Era preciso que eu fosse cega, para no ver.
         Desistiu de saber por elas, diretamente, a razo da frieza que as separava. Via que havia entre ambas 
uma espcie de pacto para a iludir e  irm. Mas, se a esta a aparncia bastava, Amlia s se daria por 
satisfeita com a realidade. Sem disfarces, passou a vigi-las. Obrigou as sobrinhas a um estado de tenso 
vizinho do pnico. A menor frase obscura dava-lhe oportunidade para insinuaes. Adriana suportava-as 
gracejando, Isaura recolhia-se ao silncio, como se receasse que das palavras mais inocentes a tia conclusse o 
que no devia.
          No dizes nada, Isaura?  perguntava Amlia.
          No tenho nada para dizer...
 Dantes, nesta casa, toda a gente se entendia. Todas falavam, todas tinham que dizer. Chegmos a 
um tal ponto que j nem a telefonia ouvimos!
          No ouve porque no quer, tia.
          Para qu, se estamos todas a pensar noutra coisa?!
         No fosse a atitude da sobrinha e talvez abandonasse a sua ideia. Mas Isaura parecia inferiorizada 
por qualquer pensamento oculto que a atormentava. Amlia resolveu abandonar Adriana e concentrou toda a 
sua vigilncia na outra. Quando ela saa, seguia-a. Voltava desiludida. Isaura no falava a ningum no 
caminho, no se desviava do percurso que a levava  loja para onde trabalhava, no escrevia cartas e no as 
recebia. Nem sequer ia j  biblioteca onde alugava os livros:
          Nunca mais leste, Isaura.
          No tenho tempo.
 Tens tanto tempo como tinhas antigamente. Trataram-te mal na biblioteca?
          Que ideia?!
         Logo que ouvira a pergunta acerca da sua atual indiferena pelos livros, Isaura corara. Baixou a 
cabea e evitou encontrar os olhos da tia. Esta notou-lhe a confuso e acreditou ter ali o fio da meada. Foi  
biblioteca a pretexto de conhecer o horrio das leituras no local. Queria ver os empregados. Saiu como 
entrara: os empregados eram dois velhotes calvos e desdentados e uma senhora nova. A sua suspeita foi ao ar 
como fumo e desvaneceu-se como ele. Sentindo que todas as portas se lhe fechavam, virou-se para a irm. 
Cndida fez-se desentendida:
          L vens tu outra vez com as tuas ideias!...
 Venho e no desisto. Bem vejo que tu serves de capa s tuas filhas. Ao p delas s toda meiguices, 
mas no me enganas. Bem te oio, de noite, suspirar...
          Penso noutras coisas. Coisas antigas...
 O tempo dos suspiros por essas coisas antigas j passou. Os desgostos que tu tens tambm eu os 
tenho. Mas arrumei-os. E tu tambm os arrumaste. O que te faz suspirar so coisas modernas, so as 
pequenas...
 Oh, mulher, tu ests doente de mania! Quantas vezes j nos zangmos ns? E no fizemos as 
pazes? Ainda no outro dia...
 Ora, a est. Ns zangamo-nos e fazemos as pazes. Elas no esto zangadas, no, mas no me 
queiras convencer...
 Eu no quero convencer-te seja do que for. Se te d muito gosto continuar a fazer essa figura 
disparatada, continua. Ests a estragar a nossa vida. Corria tudo to bem...
 No  por culpa minha se tudo corre mal. No que me diz respeito, fao o que posso para que tudo 
corra bem. Mas  assoava-se com fora para disfarar a comoo  o que eu no posso ver  as pequenas 
assim!...
 A Adriana anda bem-disposta!... Ainda ontem, quando contou o caso do chefe que tropeou na 
passadeira...
          Isso  disfarce. E a Isaura, tambm anda bem-disposta?
          So dias...
 So dias, so! E no so poucos! Vocs combinaram-se. Tu sabes o que se passa!
          Eu?!
 Sim, tu! Se no soubesses, andarias to preocupada como eu.
          Mas mesmo h bocado disseste que eu suspiro de noite!...
          Apanhei-te!
 s muito esperta. Enganas-te se julgas que eu sei de alguma coisa... De resto, tudo isto so 
minhocas que se meteram dentro da tua cabea!...
         Amlia ficou indignada. Minhocas?! Quando a bomba rebentasse, ver-se-ia quem  que tinha as 
minhocas. Mudou de ttica. Deixou de atormentar as sobrinhas com perguntas e insinuaes. Fez-se 
desinteressada e esquecida. Notou logo que a tenso abrandara. A prpria Isaura j sorria aos exageros da 
irm, que trazia sempre uma histria para contar. A atitude de Isaura mais a convenceu de que havia um 
mistrio. Fora preciso sentir-se menos premida pela suspeita e pela perseguio para mostrar melhor cara. 
Parecia querer ajud-la a esquecer. Mas Amlia no esquecia. Recuara para saltar melhor e mais longe.
         Conservava-se indiferente, ouvido aberto a todas as palavras e no reagindo a elas por mais estranhas 
que fossem. Acreditou que, pedao aqui, pedao acol, acabaria por desenredar a meada toda. Comeou a 
rebuscar no passado todos os elementos que lhe pudessem servir. Tentou lembrar-se de quando aquilo 
principiara. Tinha a memria j fraca e embotada, mas forcejou, ajudada pelo calendrio, at que veio a 
descobrir. Aquilo comeara na noite em que ouvira as sobrinhas a falar no quarto e Isaura a chorar. Fora 
um pesadelo, dissera Adriana. Adriana  que dissera, logo a histria era com Isaura. Que teriam elas dito? 
Sabia que as raparigas contam tudo umas s outras, pelo menos assim fora no seu tempo. Uma de duas: ou 
Isaura chorara por alguma coisa que Adriana lhe contara, e ento o caso era com esta, ou chorara por alguma 
coisa que ela prpria dissera e assim se explicava que Adriana tivesse querido disfarar. Mas, sendo o caso 
com Adriana, como pudera esta manter o sangue-frio?
         Estes pensamentos levaram-na a voltar a sua ateno para Adriana. Sempre lhe parecera que aquela 
alegria soava a falso, que no era mais que um disfarce. Isaura calava-se, Adriana  que disfarava. A no ser 
que o disfarce pretendesse somente ocultar Isaura. Amlia desesperava-se neste beco sem sada.
         Depois, comeou a pensar que Adriana estava quase todo o dia fora das suas vistas. No podia ir ao 
escritrio como fora  biblioteca. Talvez l estivesse a chave do mistrio. Mas, se era l que estava a 
explicao por que  que s ao fim de dois anos... A observao no tinha consistncia: as coisas alguma vez 
tm de acontecer e o no terem acontecido ontem no quer dizer que no aconteam hoje ou amanh. 
Assentou, portanto, que a histria era com Adriana e se relacionava com o escritrio. Se viesse a provar-se 
que estava enganada, tentaria por outro lado. Provisoriamente, punha Isaura de parte. S no conseguia 
perceber as lgrimas desta. Acontecimento grave deveria ter sido, para a obrigar a chorar naquela noite e a 
manter-se silenciosa e triste depois. Acontecimento grave... Amlia no via bem, ou no queria ver, o que 
poderia ter sido. Adriana era uma rapariga, uma mulher, e um acontecimento grave na vida de uma mulher e 
que faz chorar a irm dessa mulher s pode ser... Achou a ideia absurda e quis afast-la. Mas tudo agora lhe 
trazia achegas para tornar a ideia consistente. Primeiro: Adriana estava todo o dia fora de casa; segundo: fazia 
seres, l de vez em quando; terceiro: todas as noites se fechava na casa de banho... Foi quase de chofre que 
Amlia deu por que, desde aquela noite, Adriana nunca mais se fechara na casa de banho. Outrora, era sempre 
a ltima e sempre se demorava. Agora, se nem sempre era a primeira, tambm raras vezes se deixava ficar 
para o fim. E, quando tal acontecia, repetia Amlia, era por pouco tempo. Ora, toda a gente sabia que Adriana 
tinha um dirio, uma criancice a que ningum ligava importncia, e que era na casa de banho que o 
escrevia. Estaria nele a explicao de toda esta embrulhada? E como conseguir a chave para abrir a gaveta?
         Cada uma das quatro mulheres tinha uma gaveta apenas sua. Todas as outras estavam franqueadas: 
bastava pux-las. Vivendo na dependncia umas das outras, servindo-se das mesmas roupas de cama e das 
mesmas toalhas, seria absurdo fechar gavetas. Mas cada uma delas possua as suas recordaes. Amlia e 
Cndida, velhas cartas, fitas de ramos de noivado, fotografias amarelecidas, uma que outra flor seca, talvez 
um anel de cabelo. As gavetas particulares eram, assim, uma espcie de santurio onde cada uma, quando 
estava sozinha e a saudade apertava, ia rezar as suas recordaes. Cada uma das velhas poderia, olhando a 
sua, dizer, com poucas probabilidades de erro, o que continha a gaveta da outra. Mas nenhuma delas seria 
capaz de adivinhar o que continham as gavetas das duas mais novas. Na gaveta de Adriana havia, pelo menos, 
o dirio, e Amlia tinha a certeza de que ali encontraria a explicao. Antes de pensar na forma de ler o 
manuscrito, j lhe pesava a violao que teria de cometer. Pensou no que sentiria se soubesse que lhe tinham 
devassado os segredos, os pobres segredos que no seriam mais que recordaes de factos que toda a gente 
conhecia. Pensou que seria um abuso intolervel. Mas pensou, tambm, que prometera descobrir o segredo 
das sobrinhas, e no seria agora, promessa feita e a um passo de a cumprir, que recuaria. Acontecesse o que 
acontecesse, era preciso saber. As dificuldades eram grandes. Como se no bastasse a convico de que os 
segredos de cada uma eram inviolveis, que nenhuma se atreveria a pr mo em gaveta que no lhe 
pertencesse, Adriana trazia sempre as chaves consigo. Enquanto estava em casa guardava-as na carteira e era 
impossvel tir-las, abrir a gaveta e ler o que houvesse para ler sem que ningum desse conta. Esquecer-se 
Adriana das chaves era pouco provvel. Tirar-lhas, de forma que ela se convencesse de que as tinha perdido? 
Era o mais fcil, mas talvez desconfiasse e encravasse a fechadura de qualquer maneira. S havia uma 
soluo: mandar fazer uma chave igual. Para consegui-la era preciso copiar e para copiar teria de lev-la ao 
serralheiro. No haveria outro processo? Fazer um desenho, sem dvida. Mas, como?
         Amlia forou a imaginao. Tratava-se de achar uma oportunidade, no mais que uns escassos 
minutos, para desenhar as chaves. Fez vrias tentativas, mas no ltimo instante aparecia algum. Tantas 
contrariedades aumentaram-lhe a nsia de saber. A gaveta fechada fazia-a estremecer de impacincia. J 
perdera os escrpulos que at a sentira. Era necessrio saber, quaisquer que fossem as consequncias. Se 
Adriana praticara algum ato de que pudesse envergonhar-se, o melhor era saber-se antes que fosse tarde de 
mais. Tarde de mais, eis o que assustava Amlia.
         Teimou e conseguiu. As primas de Campolide vieram visit-las, para retribuio da visita em tempos 
feita por Cndida e Amlia. Era um domingo. Estiveram toda a tarde, tomaram ch, conversaram muito. 
Foram, uma vez mais, dobadas as recordaes. Eram sempre as mesmas, todas o sabiam, mas todas faziam 
cara de ouvi-las pela primeira vez. Nunca Adriana estivera to exuberante e nunca a irm fizera to grande 
esforo para parecer contente. Cndida, iludida pela alegria das filhas, esquecera tudo. S Amlia no 
esquecia. Quando lhe pareceu oportuno, levantou-se e foi ao quarto das sobrinhas. Com o corao agitado e as 
mos trmulas, abriu a carteira de Adriana e tirou as chaves. Eram cinco. Reconheceu duas, a da porta da rua 
e a da porta da escada. Das restantes, duas eram de tamanho mdio e a outra pequena. Hesitou. No sabia qual 
delas seria a da gaveta, ainda que lhe parecesse que devia ser uma das duas quase iguais. A gaveta estava a 
poucos passos. Podia experimentar, mas temeu qualquer rudo que atrasse a sobrinha. Resolveu desenhar as 
trs. No o fez sem dificuldade. O lpis escorregava-lhe dos dedos e no queria seguir exatamente o contorno 
das chaves. Fizera-lhe o bico comprido e fino para tornar o desenho mais fiel, mas as mos tremiam-lhe tanto 
que esteve quase a desistir. Da sala ao lado vinham as risadas de Adriana: era a histria da passadeira que as 
primas ainda ignoravam. Todas riram muito e o riso abafou o pequeno estalido da carteira ao fechar-se.
         Nessa noite, depois do jantar, enquanto a telefonia, que fora ligada em consequncia da boa 
disposio que restara da tarde, murmurava um Noturno de Chopin, Amlia exprimiu o seu contentamento 
por ver as sobrinhas to amveis uma para a outra.
 Ests a reconhecer que era cisma tua, ora vs?  sorriu Cndida.
          Vejo...
 


         

         XXXI

         J com a sua mesada na malinha, bem dobradas as notas no porta-moedas ensebado, a me de Ldia 
bebia uma chvena de caf. Pousara sobre a cama o tricot com que ocupava os seres. Vinha sempre duas 
vezes por ms: uma, pelo dinheiro; outra, pela amizade. Conhecedora dos hbitos de Paulino Morais, s 
aparecia em dias mpares da semana: tera, quinta ou sbado. Sabia que no era desejada, nesses ou em 
quaisquer outros, mas no podia deixar de vir. Para viver de cabea levantada precisava do subsdio 
mensal. Pois que tinha uma filha em boa situao econmica, mal pareceria que a abandonassem. E porque 
estava certa de que Ldia, por si, no daria um passo para a auxiliar, fazia-se lembrada. E tambm para que ela 
no julgasse que s o interesse a levava a aparecer, duas semanas, mais ou menos, depois de receber o 
dinheiro, ia saber do estado da filha. Das duas visitas, a mais suportvel era a primeira, porque tinha um 
objetivo real. A segunda, no obstante o afetuoso interesse manifestado, aborrecia me e filha.
         Ldia estava sentada no sof, com um livro aberto sobre os joelhos. Interrompera a leitura para servir 
o caf e no a recomeara ainda. Fitava a me sem a menor sombra de amizade no olhar. Fitava-a friamente, 
como a uma desconhecida. A me no dava pelo olhar, ou estava to habituada que no se impressionava. 
Bebia o caf em golinhos, na atitude de compostura que sempre observava em casa da filha. Rapou com a 
colher o acar depositado no fundo da chvena, nico gesto menos delicado que se permitia e que tinha 
justificao na sua gulodice.
         Ldia baixou os olhos para o livro, num movimento que parecia significar ter atingido o limite da sua 
capacidade de observao de uma pessoa desagradvel. No gostava da me. Sabia-se explorada, mas no 
estava a o motivo da inimizade. No gostava da me porque sabia que ela no a amava como filha. Vrias 
vezes pensara em afast-la. No o fazia porque temia cenas desagradveis. Pagava a sua tranquilidade por um 
preo que, embora alto considerado em si mesmo, no era excessivo para o que lhe proporcionava. Duas 
vezes por ms tinha de receber a visita da me, e habituara-se. As moscas tambm importunam e, no entanto, 
no h nada a fazer seno habituarmo-nos a elas...
         A me levantou-se e foi colocar a chvena no toucador. Voltou a sentar-se e pegou no tricot. A linha 
j estava enxovalhada e o trabalho avanava a passo de tartaruga. O progresso era to lento que Ldia ainda 
no conseguira descobrir a que destinava o trabalho. Suspeitava mesmo de que a me s pegava no tricot 
enquanto estava em sua casa.
         Tentou absorver-se na leitura, depois de ter deitado um olhar ao relgio de pulso para calcular o 
tempo que estaria ainda acompanhada. Decidira no abrir a boca seno para as despedidas. Sentia-se 
aborrecida. Paulino cara na antiga distrao, no obstante toda a boa vontade que empregava para agradar-
lhe. Beijava-o com convico, o que s fazia quando entendia necessrio. Os mesmos lbios podem beijar de 
diversas maneiras e Ldia conhecia-as todas. O beijo apaixonado, o beijo que no  apenas lbios mas tambm 
lngua e dentes, era reservado para as grandes ocasies. Nos ltimos dias fizera largo uso dele, vendo que 
Paulino se afastava ou, pelo menos, o parecia.
 Que tens tu, filha? H que tempos ests a olhar para essa pgina, e ainda no acabaste?!
         A voz era melflua e insinuante, tal como a do empregado que vai agradecer a gratificao do Natal. 
Ldia encolheu os ombros e no respondeu:
 Parece que ests preocupada!... Algum desentendimento com o senhor Morais?
         Ldia ergueu a cabea e perguntou, com ironia:
          E se fosse?
 Era uma imprudncia, filha. Os homens so muito esquisitos e, por d c aquela palha, aborrecem-
se. Nunca sabe a gente como h de lidar com eles...
          A me parece ter muita experincia...
 Vivi vinte e dois anos com o teu falecido pai: queres maior experincia?
 Se viveu vinte e dois anos com o pai e no conheceu outro homem, como  que pode falar em 
experincia?
          So todos iguais, filha. Visto um, esto vistos todos.
          Como sabe? Se s conheceu um?!
          Basta abrir os olhos e ver.
          Tem bons olhos, me.
 L isso... No  por me gabar, mas basta-me olhar para um homem para ficar a conhec-lo!
 Sabe mais do que eu, pelo que ouo. E do senhor Morais, o que pensa?
         A me pousou o tricot e foi eloquente:
 Foi a Providncia que te apareceu, filha. Um homem assim, nem que tu o trouxesses nas palminhas 
lhe pagarias tudo o que lhe deves. Basta olhar para a casa que tens! E as joias! E os vestidos! Alguma vez 
encontraste quem te tratasse desta maneira? O que eu sofri...
          J conheo os seus sofrimentos.
 Dizes isso de um modo... Parece que no acreditas. Era preciso que no fosse me para no sofrer. 
Qual  a me que no gosta de ver os filhos em boa situao?
          Sim! Qual ?  repetiu Ldia, trocista.
         A me retomou o trabalho e no respondeu. Fez duas malhas, vagarosamente, como se tivesse o 
pensamento noutro lado. Depois, tornou  conversa:
 Tu deste a entender que havia qualquer desentendimento, ahn? V l o que fazes!...
 Que preocupao a sua, me! Se h ou no desentendimento,  comigo!
          No acho bem que penses assim. Ainda se...
          Por que no acaba? Ainda se, o qu?
         A linha deu tais voltas que parecia estar cheia de ns. Pelo menos, a me curvou-se toda para o 
trabalho como se lhe tivesse aparecido o n grdio ressuscitado.
          Ento? No responde?
 Queria eu dizer... Queria eu dizer que... Ainda se tu achasses uma situao melhor!...
         Ldia fechou o livro, de estalo. Sobressaltada, a me desfez uma carreira de malhas.
 Seria preciso que eu tivesse por si muito respeito, para no a pr fora desta casa! Respeito, no 
tenho nenhum, pode ficar ciente, mas, mesmo assim, no fao o que disse, nem sei porqu!
 Credo, filha! Que disse eu, para te inflamares dessa maneira?
          Ainda mo pergunta? Ponha-se no meu lugar!
 Oh, filha, mas que exaltao a tua! Parece que ainda me censuras.  s pelo teu bem que eu digo 
isto!
          Faa favor de se calar.
          Mas...
          J lhe pedi que faa o favor de se calar!
         A me choramingou:
 Parece impossvel que me trates desta maneira. Eu, tua me!... Eu, que te criei e acarinhei.  para 
isto que uma me est guardada!...
 Se eu fosse uma filha como todas as outras filhas, e a me como todas as outras mes, teria razo 
para queixar-se.
          E os meus sacrifcios? Os meus sacrifcios?...
 Est bem paga por eles, se os fez. Est numa casa que o senhor Morais paga, est sentada numa 
cadeira que ele comprou, bebeu do caf que ele bebe, tem na mala dinheiro que ele me deu. Acha pouco?
         A me choramingou mais:
 Oh, filha, que coisas tu ests a dizer! At me sinto envergonhada!...
 Estou vendo, estou vendo. A me s se sente envergonhada quando as palavras so ditas em voz 
alta. Pensadas s, no fazem vergonha!
         Rapidamente, a me enxugou os olhos e respondeu:
 No fui eu que te obriguei a esta vida. Se a tens,  porque queres!
 Muito obrigada. Desconfio, pelo rumo que a conversa est a tomar, que esta ser a ltima vez que a 
me pe os ps nesta casa!...
          Que no  tua!
 Muito obrigada, mais uma vez. Minha ou no, quem manda nela sou eu. E se eu disser: saia 
daqui, a me sai mesmo.
          Talvez venhas um dia a precisar de mim!
 No lhe irei bater  porta, descanse! Nem que eu tenha de morrer de fome, no irei pedir-lhe um 
tosto do dinheiro que me tem levado.
          E que no  teu!
 Mas que  ganho por mim. A tem! Eu  que ganho esse dinheiro, sou eu! Ganho-o com o meu 
corpo. Para alguma coisa me havia de servir ter um corpo bonito. Para sustent-la!
          No sei o que me prende aqui, que no saio!...
 Quer que lhe diga?  o medo.  o medo de perder a galinha dos ovos de oiro. A galinha sou eu, os 
ovos esto no seu porta-moedas, o ninho  aquela cama, e o galo... Sabe quem  o galo?
          Que indecncias!
 Deu-me hoje para dizer indecncias. A verdade, s vezes, parece indecncia. Tudo est bem 
enquanto no se comeam a dizer indecncias, enquanto no se comeam a dizer verdades!
          Vou-me embora!
 Pois v. E no volte, que talvez me encontre disposta a dizer mais indecncias!
         A me embrulhou e desembrulhou o tricot, sem se decidir a levantar-se. Fez um esforo para 
contemporizar:
 Mas, filha, tu hoje no ests boa. Isso so nervos. Eu no te quis melindrar, e tu foste logo s do 
cabo. Vocs, se calhar, andam arrufados, e tu ficaste assim. Mas isso passa, vers que isso passa!...
 A me parece feita de borracha. Por mais socos que lhe deem, volta sempre  mesma posio. 
Ainda no compreendeu que quero que se retire?
 Pois sim. Amanh telefono para saber como ests. Isso passa.
          Perde o seu tempo.
          Oh, filha, tu...
          J disse o que tinha a dizer. Faa favor de sair.
         A me reuniu as suas coisas, agarrou na carteira e disps-se a retirar-se. No p em que a conversa 
ficava, no lhe restavam muitas esperanas de poder voltar. Tentou abrandar a filha pela comoo:
          Nem tu imaginas o desgosto que me deste...
 Acredito, acredito. Est a ver que se lhe acaba o rendimentozinho, no ? Tudo acaba neste 
mundo...
         Interrompeu-se ao ouvir abrir a porta da escada. Levantou-se e foi ao corredor:
 Quem ?... Ah, s tu, Paulino?! No te esperava hoje...
         Paulino entrou. Vinha de gabardina e no tirou o chapu. Ao dar com os olhos na me de Ldia, 
exclamou:
          Que est a senhora a fazer aqui?
          Eu...
          Eu, eu, nada! Saia!
         A frase saiu-lhe quase gritada. Ldia interveio:
 Mas que modos so esses, Paulino? No parece teu! Que se passa?
         Paulino olhou para ela, furioso:
 Ainda mo pergunta?  Virou-se para o lado e explodiu:  Ainda a est? No lhe disse j para 
sair?... Ou, espere... J agora fica sabendo a linda prenda de filha que tem. Sente-se!
         A me de Ldia deixou-se cair na cadeira.
 E a senhora sente-se tambm!  ordenou Paulino  amante.
 No estou costumada a que me falem nesse tom. No quero sentar-me.
          Como queira.
         Tirou o chapu e a gabardina e atirou-os para cima da cama. Depois virou-se para a me de Ldia e 
comeou:
 A senhora  testemunha da forma como eu tenho tratado a sua filha...
          Sim, senhor Morais.
         Ldia interrompeu:
          Afinal, o assunto  comigo ou com a minha me?
         Paulino fez meia volta, como se o tivessem picado. Deu dois passos para Ldia, esperando que ela 
recuasse. Ldia no recuou. Paulino estendeu-lhe uma carta que tirara da algibeira:
          Est aqui a prova de que a senhora me engana!
          O senhor est doido!
         Paulino deitou as mos  cabea:
 Doido? Doido? Ainda por cima me chama doido? Leia, leia o que a diz!
         Ldia abriu a carta e leu-a em silncio. O rosto no se lhe alterou. Quando chegou ao fim, perguntou:
          Acredita no que se diz nessa carta?
          Se acredito... Claro que acredito!
          Ento, por que espera?
         Paulino olhou para ela como se no tivesse percebido. A frieza de Ldia desnorteava-o. 
Maquinalmente, dobrou a carta e guardou-a. Ldia olhava-o a direito, nos olhos. Constrangido, virou-se para a 
outra que abria a boca, de espanto:
 Imagine que a sua filha andava a enganar-me com um vizinho, o hspede do sapateiro, um 
rapazola qualquer!...
 Oh, Ldia, parece impossvel!  exclamou a me, horrorizada.
         Ldia sentou-se no sof, traou a perna, tirou da caixa um cigarro e p-lo na boca. Movido pelo 
hbito, Paulino aproximou-lhe o isqueiro aceso.
 Obrigada.  Expeliu o fumo com fora e disse:  No sei por que esperam. O senhor declarou que 
acreditava no que essa carta diz, a me v-me acusada de estar ligada a um rapaz que, suponho, no tem eira 
nem beira. Por que esperam para se irem embora?
         Paulino aproximou-se dela, mais calmo:
          Diz-me se  verdade ou mentira.
          Nada tenho a acrescentar ao que j disse.
  verdade, est visto que  verdade! Se no fosse verdade protestarias e...
 Se quer que lhe diga o que penso, dir-lhe-ei: esta carta  um pretexto!
          Um pretexto, para qu?
          Sabe-o melhor que eu.
          Queres dizer que fui eu que a escrevi?
 H pessoas que no olham a meios para atingir os seus fins...
 Isso  uma refinada mentira!  gritou Paulino.  Eu seria incapaz de uma ao dessas!
          Talvez...
          Irra! Queres, por fora, fazer-me perder a pacincia!
         Ldia esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro e levantou-se, fremente:
 O senhor entra aqui como um selvagem, acusa-me de uma idiotice qualquer, e espera que eu fique 
indiferente?
          Ento,  mentira?
 No julgue que lhe respondo. Tem de acreditar, ou no acreditar, no que a carta diz, e no em mim. 
J disse que acreditava, no disse? Por que espera, ento?  Riu bruscamente e acrescentou:  Os homens que 
se julgam enganados, matam ou deixam a casa. Ou, ento, fingem que no sabem. Que far o senhor?
         Paulino deixou-se cair no sof, sucumbido:
          Mas diz-me s se  mentira...
 O que tinha a dizer, est dito. Espero que no leve muito tempo a resolver.
          Pes-me numa situao!...
         Ldia voltou-lhe as costas e afastou-se para a janela. A me seguiu-a e cochichou:
 Por que  que no lhe dizes que  mentira?... Ele ficava descansado...
          Deixe-me!
         A me tornou a sentar-se, olhando o homem com ar de comiserao. Paulino, derreado no sof, batia 
com os punhos cerrados na cabea, sem achar sada no labirinto em que o tinham metido. Recebera a carta 
depois do almoo e pouco lhe faltara para ter uma congesto depois de a ler. A carta no vinha assinada. No 
indicava o local dos encontros, o que o impedia de apanhar Ldia em flagrante, mas alargava-se em descries 
e pormenores e convidava-o a proceder como um homem. Depois de a ter relido (estava no seu gabinete do 
escritrio da Companhia, fechado por dentro para no ser incomodado) pensou que a carta tinha o seu lado 
bom. A frescura e a mocidade de Maria Cludia traziam-no um pouco atordoado. Constantemente inventava 
pretextos para cham-la ao gabinete, de tal forma que j dera pelas murmuraes dos empregados. Como todo 
o patro que se preza, tinha um empregado de confiana que lhe dava conhecimento de tudo o que se fazia e 
dizia na casa. Passou a implicar com os murmuradores e redobrou de atenes para Maria Cludia. A carta 
caa como sopa no mel. Uma cena violenta, dois insultos, e adeus, por aqui me vou, com novas inclinaes! 
Decerto havia obstculos: a prpria juventude de Maria Cludia, os pais... Pensara reunir os dois proveitos no 
mesmo saco: conservar Ldia que era um bom bocado de mulher e caar Claudinha que prometia vir a ser 
ainda melhor. Mas isto fora antes de receber a carta. A denncia era formal e obrigava-o a tomar uma atitude. 
O pior  que ainda no estava muito seguro de Claudinha e temia ficar sem Ldia. No lhe sobrava tempo, 
nem disposio, para procurar amantes. Mas a carta estava ali, diante dele. Ldia enganava-o com um 
pobreto que andava por quartos alugados: era o pior dos insultos, o insulto  sua virilidade. Mulher nova, 
homem velho, amante novo. Ofensa como esta, no podia suport-la. Chamou Claudinha ao gabinete e 
conversou com ela a tarde inteira. No lhe falou na carta. Apalpou o terreno com mil cuidados e no ficou 
descontente. Depois de a rapariga sair, releu a carta e resolveu tomar as providncias radicais que o caso 
exigia. Da a cena.
         Mas Ldia reagia de maneira imprevista. Punha-lhe, com a maior frieza, o dilema: pegar ou largar, 
reservando-se, ainda, o direito de proceder como entendesse no caso de ele se decidir pelo pegar. Mas por 
que no respondia ela? Por que no dizia sim ou no?
          Ldia! Por que no me dizes sim ou no?
         Ela olhou-o, sobranceira:
          Ainda a vai? Julguei que j tinha resolvido.
          Mas  um disparate... Ns ramos to amigos...
         Ldia sorriu, um sorriso de ironia e tristeza.
          Vs, como sorris? Responde ao que te pergunto, v!
          Se eu lhe responder que  verdade, que far?
          Eu... No sei... Ora essa! Deixo-te!
 Muito bem. E j se lembrou de que, se eu lhe responder que  mentira, est sujeito a receber outras 
cartas? Quanto tempo julga que poderia aguentar? Quer que eu esteja aqui, s suas ordens, at ao momento 
em que deixar de acreditar em mim?
         A me acudiu:
 Oh, senhor Morais, ento no se v logo que  mentira? Basta olhar para ela!
          Cale-se, me!
         Paulino abanou a cabea, perplexo. Ldia tinha razo. A pessoa que escrevera a carta, vendo que 
nada se havia passado, escreveria outras, talvez ainda mais pormenorizadas, mais completas. Seria talvez 
insolente, classific-lo-ia com os piores eptetos que se podem dar a um homem. Quanto tempo poderia 
aguentar? E quem lhe garantia que Claudinha estaria disposta a fazer de segunda? Num gesto rpido e 
violento, levantou-se:
          Est resolvido. Vou-me embora, e  j!
         Ldia empalideceu. Apesar de tudo o que dissera, no esperava que o amante a deixasse. Fora 
sincera, e imprudente, reconhecia-o agora. Respondeu, com uma falsa serenidade:
          Como queira.
         Paulino vestiu a gabardina e agarrou o chapu. Quis acabar com honra para a sua dignidade de 
homem. Declarou:
 Fique sabendo que cometeu a pior das aes. No lhe merecia isso. Passe muito bem.
         Dirigiu-se para a porta, mas Ldia deteve-o:
 Um momento... As coisas que lhe pertencem nesta casa, e so quase todas, esto  sua disposio. 
Pode mandar busc-las quando quiser.
 No quero nada. Pode ficar com elas. Ainda tenho dinheiro para pr casa a outra mulher. Boa 
noite.
 Boa noite, senhor Morais  disse a me de Ldia.  Eu acho...
          Cale-se, me!
         Ldia aproximou-se da porta do corredor e disse para Paulino que j estava com a mo no trinco para 
sair:
 Desejo-lhe as maiores felicidades com a sua nova amante. Tenha cuidado no o obriguem a casar 
com ela!...
         Sem responder, Paulino saiu. Ldia voltou a sentar-se no sof. Acendeu novo cigarro. Fitou a me 
com desdm e disse:
 Por que espera? Acabou-se o dinheiro. Saia! Bem lhe dizia eu que tudo acaba neste mundo...
         A me, com uma expresso de dignidade ofendida, avanou para ela. Abriu a mala, tirou o dinheiro 
do porta-moedas e p-lo em cima da cama:
          Aqui tens. Talvez te venha a fazer falta...
         Ldia nem se moveu:
 Guarde o dinheiro! J! Pela mesma forma que ganhei esse, posso ganhar mais. Saia!
         Como se no desejasse outra coisa, a me guardou o dinheiro e saiu. No ia contente consigo 
prpria. A ltima frase da filha lembrara-lhe que poderia continuar a contar com aquele auxlio se no tivesse 
sido to agressiva. Se se tivesse posto do lado dela, se se tivesse mostrado mais carinhosa... Mas muito pode o 
amor filial... Por isso, ia esperanada de que, mais cedo ou mais tarde, poderia voltar...
         A pancada da porta ao fechar-se sobressaltou Ldia. Estava s. O cigarro ardia lentamente entre os 
dedos. Estava s como trs anos antes, quando conhecera Paulino Morais. Acabara-se. Era preciso recomear. 
Recomear. Recomear...
         Devagar, duas lgrimas brilharam-lhe nos olhos. Oscilaram um momento, suspensas da plpebra 
inferior. Depois, caram. S duas lgrimas. A vida no vale mais que duas lgrimas.
 


         

         XXXII

         Homem de pouca persistncia, Anselmo depressa se cansou de custodiar a filha. Aborreciam-no, 
sobretudo, as duas esperas: a partir das seis at que a filha sasse, e enquanto ela estava com o professor de 
estenografia. No primeiro dia, tivera o gosto de ver fugir o estudante,  sua aproximao. No segundo, igual 
prazer. Mas, depois, o rapaz nunca mais aparecera e Anselmo aborrecera-se da sua funo de anjo da guarda. 
A filha, talvez por ressentimento, no dizia palavra durante o percurso. Tambm isto o incomodava. Tentava 
conversar, fazia perguntas  e recebia respostas breves que lhe tiravam a vontade de continuar. Alm de que, 
costumado como estava  realeza domstica, parecia-lhe pouco digna a misso que determinara a si mesmo. 
Mal comparado e com o devido respeito, era assim como se o Presidente da Repblica andasse pelas ruas a 
vigiar o trnsito. Anselmo s pedia um pretexto para acabar com a vigilncia: uma promessa da filha de que 
se portaria como menina respeitosa. Ou qualquer outra coisa.
         O pretexto apareceu e no foi a promessa. Claudinha, no fim do ms, entregou-lhe cerca de 750$00, 
o que significava que o patro lhe aumentara o ordenado para 800$00. Por inesperado, este aumento alegrou 
toda a famlia, e, particularmente, Anselmo. Estando, como estavam, provados os mritos de Claudinha, 
achou-se na obrigao moral de ser magnnimo. E como a sua periclitante situao econmica s lhe 
permitia ser magnnimo de corao, foi-o: anunciou  filha que ia deixar de a acompanhar. O reconhecimento 
de Claudinha foi bastante moderado. Julgando que ela no tivesse compreendido bem, repetiu a declarao. O 
reconhecimento no aumentou. Apesar da ingratido, Anselmo cumpriu a sua palavra, mas, para se certificar 
de que a filha no iria fazer mau uso da liberdade que lhe concedia, seguiu-a alguns dias, de longe. Nem a 
sombra do rapaz apareceu.
         Sossegado, Anselmo regressou ao seu ramerro dirio que tanto queria. Quando Claudinha chegava a 
casa, j ele estava instalado diante dos seus mapas de estatstica desportiva. Comeara, tambm, a elaborar um 
lbum de fotografias de jogadores, para o que comprava, todas as semanas, uma revista de aventuras para 
rapazes, revista essa que, para aumentar as vendas, inclua, em cada nmero, um hors-texte colorido com a 
efgie de um jogador de futebol. Ao comprar a revista, encontrava sempre maneira de dizer que era para um 
filho, e levava-a para casa enrolada numa folha de papel, para que os vizinhos no lhe descobrissem a 
fraqueza. Deu-se  despesa de comprar nmeros atrasados, o que lhe permitiu, de uma assentada, ver-se 
possuidor de algumas dezenas de retratos. O aumento do ordenado de Claudinha foi providencial. Roslia 
atreveu-se a protestar contra o desperdcio, mas Anselmo, regressado  sua autoridade, f-la calar-se.
         Por fim, todos estavam satisfeitos: Claudinha livre, Anselmo ocupado e Roslia como de costume. A 
mquina familiar retomara o seu curso normal, o qual s veio a ser excitado quando Roslia, num sero, 
lanou a suspeita:
 Estou c desconfiada de que h novidade com a D. Ldia...
         Pai e filha fitaram-na com pontos de interrogao nos olhos.
          Tu no sabes nada, Claudinha?  insistiu a me.
          Eu? Eu no sei nada...
          Uhm!... Talvez no queiras  dizer...
          J disse que no sei nada!
         Roslia enfiou o ovo de passajar na meia que ia coser. F-lo com lentido, como se quisesse atiar a 
curiosidade do marido e da filha, e acrescentou:
 Ainda no notaram que o senhor Morais no vem c abaixo h mais de oito dias?
         Anselmo no notara e disse-o logo. Claudinha j notara e tambm o disse. Mas acrescentou:
          O senhor Morais tem andado adoentado. Disse-mo ele...
         Algo dececionada, Roslia no achou que a doena fosse razo bastante:
          Tu  que podias saber, Claudinha...
          Saber o qu?
          Se esto zangados.  o que eu desconfio...
         Claudinha encolheu os ombros, enfastiada:
          Ora! Vou agora perguntar uma coisa dessas?!...
 E isso que tinha? Deves favores  D. Ldia,  natural que te interesses!
 Que favores devo eu  D. Ldia? Se os devo,  ao senhor Morais!
 Oh, filha  acudiu Anselmo , se no fosse a D. Ldia tu no tinhas essa colocao!...
         A rapariga no respondeu. Virou-se para a telefonia e comeou a procurar um emissor que estivesse 
transmitindo msica a seu gosto. Fixou-se num programa publicitrio. Um cantor, de voz do tipo quente, 
narrava, em msica chocha e chocho verso, as suas desditas amorosas. Talvez por sentir-se abrandada pela 
canoneta, Claudinha declarou, ao calar-se o cantor:
 Est bem. Se quiserem, posso tentar saber. De resto  acrescentou, depois de uma pausa longa , se 
eu perguntar, o senhor Morais diz-me...
         Claudinha tinha razo. Quando, no dia seguinte, chegou a casa, j sabia tudo. No a esperavam to 
cedo: pouco passava das sete e meia. Depois de beijar os pais, anunciou:
          Pronto! J sei.
         Antes de a deixar continuar, o pai quis saber por que vinha ela to cedo.
          No fui  lio  respondeu.
          Ento, vens tarde...
          Fiquei l para o senhor Morais me contar.
          E ento? E ento?  perguntou Roslia, sfrega.
         Claudinha sentou-se. Parecia um pouco nervosa. O lbio inferior tremia ligeiramente. O peito arfava, 
o que podia atribuir-se ao cansao da caminhada.
          Ento, filha? Estamos cheios de curiosidade!...
 Zangaram-se. O senhor Morais recebeu uma carta annima onde se dizia...
 O qu? O qu?  perguntaram marido e mulher, excitados pela interrupo.
          ... que a D. Ldia o enganava.
         Roslia bateu com as mos nas coxas:
          Bem me queria a mim parecer!
          O pior  o resto  continuou Claudinha.
          Que resto?
 A carta dizia que ela o enganava com o hspede do senhor Silvestre.
         Anselmo e Roslia foram s nuvens, de espanto.
 Que pouca-vergonha!  exclamou Roslia.  Parece impossvel, a D. Ldia fazer uma coisa 
dessas!...
         Anselmo contradisse:
 A mim, no me parece impossvel. Que  que se pode esperar de uma pessoa com aquela vida?  e 
mais baixo, para que a filha no ouvisse:  Isto  tudo o mesmo gado...
         Apesar da surdina, Claudinha ouviu. Pestanejou rapidamente, mas fez-se desentendida. Roslia 
murmurava ainda:
          Parece impossvel...
         Estabeleceu-se um silncio incmodo. Claudinha acrescentou depois:
 O senhor Morais mostrou-me a carta... Disse-me que no tem ideia nenhuma de quem lha mandou.
         Anselmo entendeu conveniente condenar as cartas annimas: classificou-as de infames. Mas Roslia 
saltou do lado, com a santa indignao de quem defende uma causa justa:
 Se no fossem elas, ficava muita coisa escondida! Que bonito continuar o senhor Morais a fazer a 
triste figura de enganado?!
         Caminhava-se para a deciso que o acontecimento exigia. Anselmo concordou:
 Sim, se eu estivesse na mesma situao, tambm gostaria de que me avisassem...
         Escandalizada com a hiptese, a mulher interrompeu:
          Que ideia fazes tu de mim? Ao menos, respeita a tua filha!
         Claudinha levantou-se e foi para o quarto. Roslia, ainda aborrecida, observou:
          Que conversa a tua, homem! Essas coisas no se dizem.
          Bom. Est bem. V l quando jantamos.
         A deciso foi adiada. Claudinha regressou do quarto e, da a pouco, jantava-se. Durante a refeio 
no se falou noutro assunto. Alis, Claudinha guardava o mais absoluto silncio, como se a conversa fosse 
demasiado escabrosa para intervir nela. Roslia e Anselmo apreciaram o caso de todos os lados, exceto de 
um, do tal que exigia a deciso. Um e outro sabiam-na necessria mas, tacitamente, reservaram-na para mais 
tarde. Roslia declarou que desde o primeiro dia no gostara do hspede do sapateiro e obrigou o marido a 
lembrar-se de que nessa altura notara a sua m apresentao.
 A mim, o que me faz confuso  disse Anselmo   que a D. Ldia tenha ido na conversa de um 
vagabundo que anda por quartos alugados... Que diabo podia ela esperar?
 No faz confuso nenhuma. Ainda h bocado disseste que no se pode esperar outra coisa de 
pessoas com a vida dela!...
           isso, ...
         No fim do jantar, Claudinha declarou que lhe doa a cabea e que ia deitar-se. Postos agora  
vontade, marido e mulher olharam um para o outro, menearam a cabea e abriram a boca, ao mesmo tempo, 
para falar. Fecharam-na, cada um esperando que o outro falasse. Anselmo tomou, enfim, a palavra:
          Isto  que so umas croias, hem?
          Gente sem vergonha...
 Eu, a ele, no o censuro.  homem, aproveitou... Mas ela, com tudo o que  bom em casa?!
          Bons vestidos, boas peles, boas joias...
  o que eu te digo: quem d uma cabeada, d duas, d trs... Est-lhe na massa do sangue. S 
esto bem a pensar na pouca-vergonha!
          Ainda se fosse s a pensar!...
 E logo com o hspede do sapateiro, nas barbas do senhor Morais!
           preciso no ter vergonha nenhuma!
         Tudo isto era necessrio dizer-se, porque a deciso s podia vir depois de bem definidas as culpas. 
Anselmo pegou na faca e comeou a reunir as migalhas. Como se deste trabalho dependesse a segurana dos 
alicerces do prdio, a mulher observava-o com ateno:
 Visto isso  comeou Anselmo, depois de concluir a apanha , h que tomar uma atitude...
          Pois h...
          Temos que agir.
          Tambm acho...
 A Claudinha no pode continuar a dar-se com essa mulher. Seria um mau exemplo.
          Nem eu consentia! Estava, at, para te falar nisso.
         Anselmo levantou a travessa e arrastou novas migalhas. Juntou-as s primeiras e declarou:
 E, quanto a ns, as conversas com essa desvergonhada acabaram. Nem bom dia, nem boa tarde. 
Faz-se de conta que no existe.
         Estavam de acordo. Roslia comeou a juntar os pratos sujos da refeio e Anselmo tirou o lbum da 
gaveta do aparador. O sero foi curto. As emoes fatigam. Marido e mulher recolheram ao quarto onde 
continuaram a apreciao severa do procedimento de Ldia. E a concluso foi esta: h mulheres que mereciam 
desaparecer da face da terra, h mulheres cuja existncia  uma ndoa alastrando no meio das pessoas 
honestas...
         Claudinha no dormia. E no era a alegada e verdica dor de cabea que lhe tirava o sono. Recordava 
a conversa com o patro. As coisas no se tinham passado to simplesmente como contara aos pais. No 
tivera a menor dificuldade em saber, mas o que se seguira  que no podia ser facilmente contado. Nada de 
grave se passara, nada que, vendo bem, no pudesse e no devesse ser contado. Mas era difcil. Nem tudo o 
que parece, , nem tudo o que , o parece ser. Mas entre o ser e o parecer h sempre um ponto de 
entendimento, como se ser e parecer fossem dois planos inclinados que convergem e se unem. H um declive, 
a possibilidade de escorregar nele, e, assim acontecendo, chega-se ao ponto em que, ao mesmo tempo, se 
contacta com o ser e o parecer.
         Claudinha perguntara e soubera. No logo, porque Paulino tinha muito que fazer e no lhe podia dar, 
imediatamente, as explicaes pedidas. Teve de esperar pelas seis horas. Os colegas saram, ela ficou. Paulino 
chamou-a ao gabinete e mandou-a sentar-se no maple reservado aos clientes importantes da casa. O maple era 
baixo e bem estofado. Claudinha, que nunca se resignara  recente moda das saias compridas, ficou com a 
saia subida at aos joelhos. A flacidez do estofo mantinha-a como num regao. O patro passeou duas vezes 
pelo gabinete at ir encalhar numa esquina da secretria. Tinha um fato cinzento-claro e uma gravata amarela 
que o rejuvenesciam. Acendeu uma cigarrilha  e o ar j abafado do gabinete tornou-se mais pesado. Da a 
algum tempo estaria asfixiante. Passaram longos minutos antes que Paulino falasse. O silncio, apenas 
interrompido pelo tiquetaque de um solene relgio de caixa alta, tornava-se constrangedor para Maria 
Cludia. O patro parecia estar  vontade. J a cigarrilha ia em meio, quando ele falou:
          Quer saber, ento, o que se passa?
 Reconheo, senhor Morais  fora assim mesmo que Maria Cludia respondera , reconheo que 
no tenho, talvez, o direito... Mas a minha amizade pela D. Ldia...
         Falara deste modo, como se soubesse de antemo que as razes da ausncia de Paulino s podiam 
resultar de uma zanga. Talvez estivesse sob a impresso das palavras da me, que no achara outro motivo. A 
sua resposta seria tola se, afinal, no tivesse havido desentendimento.
 E a sua amizade por mim no conta?  perguntou Paulino.  Se  apenas a amizade por ela que a 
leva a falar-me no assunto, no sei se deva...
 Fiz mal em perguntar. No tenho nada com a vida do senhor Morais. Peo que me desculpe...
         Esta manifestao de desinteresse poderia servir a Paulino de pretexto para no explicar o que se 
passara. Mas Paulino esperava as perguntas de Maria Cludia. Preparara-se, at, para responder-lhes.
 Repare que ainda no respondeu ao que lhe perguntei.  s a amizade que tem por ela que a leva a 
querer saber? No conta, porventura, a amizade que tenha por mim? No  minha amiga?
          O senhor Morais tem sido muito bom...
 Tambm sou bom para os outros empregados e, contudo, no me disponho a contar-lhes a minha 
vida particular, nem os mando sentar nesse maple...
         A rapariga no respondeu. A observao embaraara-a. Baixou a cabea ao sentir que corava. 
Paulino simulou no reparar. Puxou uma cadeira e sentou-se defronte de Claudinha. Depois, contou o que se 
passara. A carta, a discusso com Ldia, o rompimento. Omitiu as passagens que lhe eram desfavorveis e 
apresentou-se com a dignidade que a referncia a essas passagens teria fatalmente comprometido. Por 
algumas hesitaes no relato, Maria Cludia ficou a suspeitar de que a atitude mais digna no teria sido a dele. 
Mas quanto ao fundo da questo, no havia que duvidar, lida a carta que Paulino lhe mostrou:
 Estou arrependida de lhe ter perguntado, senhor Morais. Realmente, vejo que no tinha o direito...
 Tinha-o mais do que julga. Sou muito seu amigo, e entre amigos no pode haver segredos.
          Mas...
  claro que no lhe vou pedir que me conte os seus. Os homens confiam sempre mais nas mulheres 
que elas neles, e  por isso que lhe contei tudo. Tenho confiana em si, a mais completa das confianas...  
curvou-se para diante, com um sorriso:  Fica, ento, existindo um segredo entre ns. Os segredos 
aproximam, sabe?
         Por nica resposta, Maria Cludia sorriu. Fez o que todas as mulheres fazem quando no sabem que 
responder. A pessoa a quem o sorriso  dirigido pode interpret-lo como quiser:
 Gostei de v-la sorrir. Na minha idade gosta-se sempre de ver sorrir os novos. E a Claudinha  to 
nova...
         Novo sorriso de Maria Cludia. Paulino interpretou:
          E no  s nova... Tambm  bonita...
          Muito obrigada, senhor Morais.
         Desta vez o sorriso no veio isolado e as palavras de agradecimento estremeceram.
 No vale a pena corar, Claudinha. O que eu disse  a pura verdade. No conheo ningum assim 
to bonita...
         Para dizer alguma coisa, j que o sorriso no bastaria, a rapariga disse o que deveria ter calado:
          A D. Ldia era muito mais bonita do que eu!...
         Assim mesmo: era. Como se Ldia tivesse morrido, como se j no contasse para a conversa se 
no como simples termo de comparao...
 No queira comparar. Digo-lho eu, como homem... A Claudinha  diferente.  nova,  bonita, tem 
um no-sei-qu que me impressiona...
         Paulino era pessoa delicada. To delicado que disse com licena antes de estender a mo para 
retirar um cabelo que cara sobre o ombro de Claudinha. Mas a mo no seguiu o mesmo trajeto no regresso. 
Aflorou a face da rapariga, to devagar que parecia uma carcia, to lentamente que parecia no querer 
afastar-se. Claudinha ergueu-se precipitadamente. A voz de Paulino, sbito enrouquecida, ouviu-se:
          Que tem, Claudinha?
          Nada, senhor Morais. Tenho de ir-me embora. J  tarde.
          Ainda no so sete horas.
          Mas tenho de ir.
         Fez um movimento para avanar, mas Paulino barrava-lhe a passagem. Olhou para ele, trmula e 
assustada. Ele tranquilizou-a. Passou-lhe a mo pelo rosto, como o faria um av afetuoso, e murmurou:
          Tontinha! Eu no lhe fao mal. S quero o seu bem...
         Tal e qual lhe diziam os pais: S queremos o teu bem...
          Ouviu? S quero o seu bem!
          Tenho que ir, senhor Morais.
          Mas acredita no que acabei de lhe dizer?
          Acredito, sim, senhor Morais.
           minha amiga?
          Sim, senhor Morais.
          Dar-nos-emos sempre bem?
          Assim espero, senhor Morais.
          timo!
         Passou-lhe novamente a mo pelo rosto e recomendou:
 O que lhe disse fica entre ns, no  verdade?  um segredo. Se quiser, pode contar a seus pais... 
Mas, se lhes contar, no se esquea de dizer que eu s deixei aquela mulher porque ela se portou 
indignamente. Seria incapaz de deixar uma pessoa que eu estimasse, sem uma razo forte.  verdade que, de 
h algum tempo para c, no me sentia bem ao p dela. Creio que j gostava menos dela. Pensava noutra 
pessoa, numa pessoa que conheo h poucas semanas. Fazia-me mal lembrar-me de que essa pessoa estava 
to perto de mim e no podia falar-lhe. Compreende, Claudinha? Era em si que eu pensava!...
         De mos estendidas, avanou para a rapariga e segurou-a pelos ombros. Claudinha sentiu os lbios 
de Paulino afagarem-lhe a cara, procurarem-lhe a boca. Sentiu o hlito do tabaco, os beios gulosos que a 
devoravam. No teve foras para reagir. Quando ele a largou, sentou-se no maple, exausta. Depois, sem o 
olhar, murmurou:
          Deixe-me ir embora, senhor Morais...
         Paulino respirou fundo, como se se tivesse libertado bruscamente de um constrangimento que lhe 
apertasse os pulmes, e disse:
          Hei de fazer-te muito feliz, Claudinha!...
         Em seguida, abriu a porta do gabinete e chamou o contnuo. Mandou-o trazer o casaco da menina 
Claudinha. O contnuo era o seu homem de confiana, de tanta confiana que pareceu no notar a perturbao 
de Maria Cludia, assim como no pareceu espantar-se quando viu o patro ajud-la a vestir o casaco.
         Nada mais. Fora isto que Maria Cludia no contara em casa. Doa-lhe muito a cabea e o sono no 
vinha. Deitada de costas, os braos fletidos e as mos atrs da nuca, pensava. Impossvel no compreender o 
que Paulino queria. Impossvel fechar os olhos  evidncia. Estava ainda no declive do parecer, mas to 
prxima do ser como uma hora da hora seguinte. Sabia que no reagira como devia, no s durante aquela 
conversa mas tambm desde o primeiro dia, desde o momento em que, sozinha com Paulino, em casa de 
Ldia, lhe vira os olhos vorazes que a despiam. Sabia que, do rompimento, s a carta no era obra sua. Sabia 
que chegara quele ponto no pelo que fizera, mas pelo que no fizera. Sabia tudo isto. S no sabia se queria 
ocupar o lugar de Ldia. Porque toda a questo se resumia agora em querer ou no querer. Se tivesse contado 
tudo aos pais, j no dia seguinte no iria ao escritrio. Mas no quisera contar. E por que no contara? 
Vontade de resolver o caso com as suas prprias foras? As suas foras tinham-na conduzido quela situao. 
Retraimento de quem quer ser independente? E por que preo?
         Havia j alguns momentos que Maria Cludia distinguiu no andar de baixo um rudo de saltos de 
sapatos. A princpio no deu ateno, mas o rudo no cessava e acabou por lhe interromper o pensamento. 
Estava intrigada. Sbito, ouviu a porta abrir-se, o girar de uma chave na fechadura, e, aps breve silncio, 
uma pessoa que descia. Ldia saa de casa. Maria Cludia olhou o relgio luminoso da mesa de cabeceira. 
Onze menos um quarto. Que ia Ldia fazer quela hora para a rua? Mal acabara de formular a pergunta, achou 
a resposta. Sorriu friamente, mas logo descobriu quanto o sorriso era monstruoso. Veio-lhe uma repentina 
vontade de chorar. Tapou a cabea com a roupa para abafar os soluos. E ali, quase sufocada pela falta de ar e 
pelas lgrimas, tomou a firme deciso de contar tudo aos pais no dia seguinte...
 


         

         XXXIII

         Quando, ao fim de muitos passos e despesas, Emlio pde chegar a casa com toda a documentao de 
que a mulher e o filho precisavam para partir, Carmen quase saltou de alegria. Tinham-lhe parecido anos 
aqueles dias de espera. Receara qualquer contratempo que a forasse a adiar a viagem para alm do que a sua 
impacincia podia suportar. Mas agora nada havia a temer. Com uma curiosidade infantil, folheou e refolheou 
o passaporte. Leu-o de ponta a ponta. Tudo estava em ordem, faltava marcar o dia da partida e avisar os pais. 
Por sua vontade, iria j no dia seguinte, enviaria um telegrama. Mas havia que preparar as malas. Emlio 
ajudou-a, e os seres que esse trabalho ocupou foram dos mais felizes que a famlia viveu. Sem m inteno, 
Henrique lanou uma nuvem no geral contentamento, quando declarou que tinha pena de que o pai no os 
acompanhasse. Mas o empenho e a boa vontade de Carmen e Emlio em convenc-lo de que o facto no tinha 
a menor importncia, f-lo esquecer a pequena sombra. Se os pais estavam alegres, tambm ele o devia estar. 
Se os pais no choravam enquanto separavam as roupas e os objetos de uso pessoal, seria absurdo que ele 
chorasse. Ao fim de trs seres tudo ficou pronto. As malas j tinham as etiquetas de madeira com o nome de 
Carmen e o local do destino. Emlio comprou os bilhetes e disse  mulher que depois se fariam as contas, 
quando ela regressasse.  claro que havia contas a fazer, visto que os sogros se tinham comprometido a pagar 
as passagens e que Emlio tivera de pedir dinheiro emprestado para as comprar. Carmen respondeu que, logo 
que chegasse, lhe mandaria o dinheiro, para que ele no tivesse dificuldades. Marido e mulher apuraram todas 
as delicadezas, de tal maneira que as ltimas horas viveu-as Henrique na alegria de ver os pais reconciliados, 
faladores como nunca os vira antes.
         Foi no dia anterior ao da partida que Carmen soube do acontecido em casa de Ldia. A pretexto de 
lhe desejar boa viagem, Roslia passou uma boa parte da manh a contar-lhe a zanga de Paulino. Relatou os 
motivos, censurou o procedimento de Ldia e, por sua conta e risco, insinuou que talvez no fosse esta a 
primeira vez que ela abusava da boa-f do senhor Morais. Foi prdiga em louvores ao patro da filha,  sua 
delicadeza e  nobreza do seu procedimento. E no se esqueceu de acrescentar que, logo no primeiro ms, 
Claudinha tivera aumento de ordenado.
         No momento, Carmen apenas mostrou o espanto natural em quem ouvisse to deplorvel histria. 
Acompanhou Roslia na censura, secundou-a nas lamentaes acerca dos costumes imorais de certas 
mulheres e, tal como a vizinha, orgulhou-se, no seu foro ntimo, de no ser como elas. Depois de Roslia sair, 
notou que continuava a pensar no caso, o que estaria bem se no tivesse que partir no dia seguinte e se esse 
facto no devesse impedi-la de outras preocupaes. Que lhe importava que a D. Ldia, de quem, alis, no 
tinha razes de queixa (antes pelo contrrio, sempre foi muito delicada e sempre deu dez tostes ao 
Henriquinho por um simples recado), que lhe importava que ela tivesse praticado to feia ao?
         A ao, em si, no importava, mas sim as suas consequncias. Depois do que acontecera, Paulino 
no podia voltar a casa de Ldia: seria uma vergonha para ele. E, sem saber como, Carmen achou-se na 
mesma situao que Paulino, ou quase. No havia entre si e o marido nenhum escndalo pblico, mas havia 
toda a vida passada em comum, vida difcil e desagradvel, repleta de ressentimentos e inimizades, de cenas 
violentas e reconciliaes penosas. Paulino fora-se embora, decerto de uma vez para sempre. Ela ia-se embora 
tambm, mas voltaria da a trs meses. E se no voltasse? E se ficasse na sua terra, com o seu filho e a sua 
famlia?
         Quando admitiu esta possibilidade, quando pensou que poderia nunca mais regressar, sentiu uma 
vertigem. Era simples. Calar-se-ia, partiria com o filho, e, quando chegasse a Espanha, escreveria uma carta 
ao marido, dando-lhe notcia da sua deciso. E depois? Depois, recomearia a sua vida, de princpio, como se 
tivesse nascido agora. Portugal, Emlio, o casamento, teriam sido um pesadelo que durara anos e anos. E 
talvez pudesse... Seria necessrio o divrcio, evidentemente... Talvez... Mas foi aqui que Carmen se lembrou 
de que no poderia ficar sem o consentimento do marido. Partia com a sua autorizao, s com a sua 
autorizao poderia continuar.
         Estes pensamentos turvaram-lhe a alegria. Com eles ou sem eles partiria, mas a tentao de no 
regressar tornava-lhe a alegria quase dolorosa. Voltar, depois de trs meses de liberdade, no seria o pior dos 
castigos? Condenar-se para o resto da vida a sofrer a presena e as palavras, a voz e a sombra do marido, no 
seria o inferno depois de ter reconquistado o paraso? Teria de lutar constantemente para conservar o amor do 
filho. E quando o filho (a imaginao de Carmen pulava por cima dos anos), e quando o filho casasse, teria de 
viver ainda pior porque viveria sozinha com o marido. Tudo estaria resolvido se ele consentisse no divrcio. 
Mas se, por capricho ou m vontade, a obrigasse a regressar?
         Todo o dia estes pensamentos a atormentaram. At os momentos felizes da sua vida de casada, que 
os tivera, lhe tinham esquecido. Via apenas o olhar frio e irnico de Emlio, o seu silncio carregado de 
censuras, o seu ar de fracassado que no se importa de mostrar-se como tal e que faz do fracasso um cartaz 
que toda a gente pode ler.
         A noite chegou sem que ela tivesse avanado um passo nas respostas s perguntas que 
continuamente se lhe erguiam no esprito. To silenciosa se mostrou, que o marido quis saber o que a 
apoquentava. Que nada  respondeu. Estava apenas um pouco excitada por causa da proximidade da partida. 
Emlio compreendeu e no insistiu. Tambm ele se sentia excitado. Da a poucas horas estaria livre. Trs 
meses de solido, de liberdade, de vida plena...
         No dia seguinte foi a partida. Toda a vizinhana sabia e quase toda veio s janelas. Carmen despediu-
se dos vizinhos com quem estava em boas relaes e entrou para o automvel com o marido e o filho. 
Chegaram  estao pouco antes de o comboio partir. Foi apenas o tempo de arrumar a bagagem, ocupar os 
lugares e fazer as despedidas. Henrique mal teve tempo de chorar. O comboio sumiu-se na boca do tnel, 
deixando uma fumarada branca que se desfazia no ar, como um leno de despedida engolido pela distncia...
         Foi o primeiro dia de liberdade. Emlio vagueou pela cidade durante horas. Percorreu stios onde 
nunca estivera, almoou numa taberna de Alcntara, com um ar to feliz que o taberneiro cobrou-lhe o dobro 
do preo da refeio. No protestou e deu gorjeta. Voltou de automvel para a Baixa, comprou tabaco 
estrangeiro e, ao passar perto de um restaurante caro, achou estpido ter almoado numa taberna. Foi ao 
cinema, nos intervalos bebeu caf, travou conversa com um desconhecido que lhe disse, a propsito do caf, 
sofrer horrivelmente do estmago.
         Quando a fita acabou, seguiu uma mulher. Na rua, perdeu-a de vista e no se importou. Ficou parado 
no passeio, a sorrir para o monumento aos Restauradores. Pensou que com um simples pulo ficaria em cima 
da pirmide, mas no deu o pulo. Esteve mais de dez minutos a olhar o sinaleiro e a ouvir o apito. Achava 
tudo divertido, e via as pessoas e as coisas como se as estivesse vendo pela primeira vez, como se tivesse 
recuperado a vista aps muitos anos de cegueira. Um rapaz que tentava convencer os transeuntes a tirar o 
retrato dirigiu-se-lhe, e ele no recusou. Ps-se em posio e, ao sinal do fotgrafo, caminhou para a frente 
com passo firme e um sorriso nos lbios.
         Foi jantar ao restaurante caro. A comida era boa e o vinho tambm. Ficou com pouco dinheiro depois 
de todas estas despesas extraordinrias, mas no se arrependeu. No se arrependia de nada. No fizera mal de 
que devesse arrepender-se. Era livre, no to livre como as aves, que essas no tm obrigaes a cumprir, mas 
pelo menos tanto quanto podia esperar. Quando saiu do restaurante, todos os reclames luminosos do Rossio 
flamejavam. Olhou-os, um por um, como estrelas de Anunciao. L estava a mquina de costura, os dois 
relgios, o copo de vinho do Porto que se esvaziava sem que ningum o bebesse, a carruagem que no sai do 
mesmo stio, com dois cavalos, um azul e o outro branco. E estavam tambm, c em baixo, as duas fontes 
com mulheres de rabo de peixe e cornucpias to avarentas que s deitam gua. E a esttua ao imperador 
Maximiliano do Mxico, e as colunas do Teatro Nacional, e os automveis rolando no asfalto, e os gritos dos 
vendedores de jornais, e o ar puro da liberdade.
         Voltou a casa tarde, um pouco cansado. Os escassos candeeiros iluminavam, sem convico, a rua. 
Todas as janelas estavam fechadas e sem luz. A sua, tambm.
         Ao abrir a porta, sentiu a estranha impresso do silncio. Andou de quarto em quarto, deixando atrs 
de si as lmpadas acesas e as portas abertas, como uma criana. No tinha medo, naturalmente, mas a 
imobilidade das coisas, a ausncia das vozes familiares, um ambiente indefinvel de expectativa, produziam-
lhe uma sensao de mal-estar. Sentou-se na cama de que seria o nico ocupante durante aqueles trs meses, e 
acendeu um cigarro. Estaria sozinho durante os meses de maio, junho, julho e, talvez, parte de agosto. Era o 
melhor tempo para gozar a liberdade. Sol, calor, ar livre. Iria  praia todos os domingos, estender-se-ia ao sol 
como um lagarto que acaba de acordar do sono de inverno. Veria o cu azul, sem nuvens. Daria largos 
passeios pelo campo. As rvores de Sintra, o Castelo dos Mouros, as praias do litoral prximo. Tudo isto 
sozinho. Tudo isto e o mais que viesse a fazer e que no podia agora imaginar, porque perdera o hbito da 
imaginao. Estava como a ave que, vendo a porta da gaiola aberta, hesita em dar o salto que a lanar fora 
das grades.
         O silncio da casa rodeava-o como uma mo fechada. A realizao dos projetos, quaisquer que eles 
fossem, exigia dinheiro. Tinha de trabalhar muito e isso roubar-lhe-ia tempo. Mas trabalharia com mais 
vontade e se nalguma coisa tivesse que limitar-se seria na alimentao. Arrependia-se do jantar caro e do 
tabaco estrangeiro. Fora o primeiro dia, era natural que se excedesse. Outros, no seu lugar, teriam feito pior.
         Levantou-se e foi apagar as luzes. Voltou a sentar-se. Estava perplexo, como algum a quem tivesse 
sado a sorte grande e no soubesse o que fazer ao dinheiro. Descobriu que tendo desejado tanto a liberdade, 
no sabia agora como goz-la completamente. Os projetos de h pouco pareciam-lhe mesquinhos e frvolos. 
Afinal, queria fazer sozinho o que j fizera com a famlia. Afinal, iria percorrer os mesmos lugares, sentar-se 
sob as mesmas rvores, deitar-se sobre a mesma areia. No podia ser. Tinha de fazer alguma coisa de mais 
importncia, alguma coisa que pudesse lembrar depois do regresso da mulher e do filho. E que podia ser? 
Orgias? Pndegas? Aventuras com mulheres? Tivera tudo isso nos anos de solteiro e no sentia vontade de 
recomear. Sabia que esses excessos deixam sempre um travo amargo de arrependimento e desgosto. Repeti-
los seria sujar a sua libertao. Mas, alm de passeios e de luxria, nada mais via com que ocupar os trs 
meses que tinha diante de si. Queria algo mais elevado e digno, e no sabia o qu.
         Acendeu novo cigarro. Despiu-se e deitou-se. Na cama apenas estava uma almofada: era como se 
estivesse vivo, ou solteiro, ou divorciado. E pensou: Que vou eu fazer amanh? Tenho que ir  loja. De 
manh dou uma volta. Preciso de umas boas encomendas. E  tarde? Vou ao cinema? Ir ao cinema  perder 
tempo: no h a filme que preste. Se no vou ao cinema, onde irei? Passear, claro. Passear a qualquer parte. 
Mas, onde? Lisboa  uma cidade onde s pode viver quem tiver muito dinheiro. Quem o no tiver tem que 
trabalhar para ocupar o tempo e ganhar para comer. O meu dinheiro no  muito... E  noite? Que vou eu 
fazer  noite? Outra vez cinema... Bonito! Querem ver que vou passar os dias metido num cinema, como se 
no houvesse mais nada que ver e fazer?! E o dinheiro? No  por estar sozinho que posso deixar de comer e 
de pagar a renda da casa. Estou livre, no h dvida, mas para que serve a liberdade, se no tenho os meios de 
beneficiar dela? Se continuo a pensar desta maneira, acabo por desejar que eles voltem...
         Sentou-se na cama, enervado: Ambicionei tanto este dia... Gozei-o completamente at chegar a 
casa, mas foi s entrar e vieram-me logo estes pensamentos idiotas. Ter-me-ia transformado ao ponto de me 
parecer com as mulheres a quem os maridos batem, e que, apesar disso, no podem passar sem eles? Seria 
estpido. Seria absurdo. Seria cmico levar tantos anos a desejar a liberdade e, logo ao fim do primeiro dia, 
sentir vontade de correr atrs de quem ma impedia. Aspirou uma fumaa e murmurou:
  o hbito, claro. Tambm o tabaco faz mal  sade e no o largo. No entanto, podia deixar de 
fumar se o mdico me dissesse: O tabaco mata-o. O homem  um animal de hbitos, evidentemente. Esta 
indeciso  consequncia do hbito. Ainda no me habituei  liberdade...
         Tranquilizado por esta concluso, tornou a deitar-se. Atirou a ponta do cigarro para o cinzeiro. No 
acertou. A ponta rolou sobre o mrmore da mesa de cabeceira e caiu no cho. Para provar a si mesmo que 
estava livre, no se levantou para a apanhar. O cigarro ardeu lentamente, queimando a madeira do soalho. O 
fumo subia devagar, o morro escondia-se sob a cinza. Emlio puxou a roupa para o pescoo. Apagou a luz. A 
casa tornou-se mais silenciosa.  o hbito... o hbito da liberdade... Um homem esfomeado morrer se lhe 
derem muita comida de uma s vez.  preciso habitu-lo...  preciso habituar-lhe o estmago...  preciso... O 
sono chegou de golpe.
         J a manh ia alta quando acordou. Esfregou demoradamente os olhos e sentiu fome. Ia abrir a boca 
para chamar, mas, de repente, lembrou-se de que a mulher partira, de que estava sozinho. De um salto, saiu da 
cama. Descalo, correu a casa toda. Ningum. Estava s, como desejara. E no pensou, como ao deitar-se, que 
no sabia de que modo gozar a liberdade. Pensou apenas que estava livre. E riu. Riu alto. Lavou-se, fez a 
barba, vestiu-se, pegou na mala e saiu para a rua, tudo isto como se estivesse sonhando.
         A manh estava clara, o cu limpo, o sol quente. Os prdios eram feios e feias as pessoas que 
passavam. Os prdios estavam amarrados ao cho e as pessoas tinham um ar de condenadas. Emlio riu outra 
vez. Era livre. Com dinheiro ou sem dinheiro, era livre. Ainda que nada mais pudesse fazer que repetir os 
passos j dados e ver o que vira, era livre.
         Empurrou o chapu para trs como se o incomodasse a sombra. E seguiu rua fora, com um brilho 
novo no olhar e um pssaro a cantar no corao.
 


         

         XXXIV

         Chegara, enfim, o dia em que se desvendariam os segredos. Depois de tecer prodgios de diplomacia, 
Amlia convenceu a irm a acompanhar Isaura  loja das camisas. Que o dia estava bonito, que lhe faria bem 
o ar livre e o sol, que era um crime ficar metida entre quatro paredes, enquanto, l fora, a primavera parecia 
ter endoidecido de alegria. Nos elogios  primavera, atingiu o lirismo. To eloquente foi que a irm e a 
sobrinha troaram-na um pouco. Perguntaram-lhe se no queria sair tambm, j que estava to inspirada. 
Desculpou-se com o jantar e empurrou-as para a porta. Com receio de que alguma delas voltasse atrs, 
seguiu-as da janela com a vista. Cndida era muito esquecida, quase sempre deixava ficar qualquer coisa.
         Estava, agora, sozinha em casa: a irm e a sobrinha demorar-se-iam umas boas duas horas, e Adriana 
chegaria mais tarde. Foi buscar as chaves que tinha escondido e voltou ao quarto das sobrinhas. A cmoda 
tinha trs gavetas pequenas: a do meio era a que pertencia a Adriana.
         Ao aproximar-se, Amlia sentiu uma vergonha sbita. Ia praticar uma ao censurvel, bem o sabia. 
Ainda que essa ao lhe permitisse saber o que to cuidadosamente as sobrinhas escondiam, como poderia, 
caso fosse obrigada a falar, dizer que violara a gaveta? Conhecida a violao, todas ficariam a temer novas 
devassas, e ela, Amlia, reconhecia que todas a detestariam por isso. Saber naturalmente, por acaso ou de 
qualquer maneira mais digna, no afetaria a sua autoridade moral, mas usar uma chave falsa, agir de m-f 
afastando as pessoas que a poderiam impedir, era o cmulo da indignidade.
         Com as chaves na mo, Amlia debatia-se entre o desejo de saber e a conscincia da indignidade do 
gesto. E quem lhe garantia que no iria descobrir algo que mais valia dever ficar ignorado? Isaura andava 
bem-disposta, Adriana continuava alegre, Cndida tinha, como sempre, uma confiana total nas filhas, fossem 
quais fossem os seus pensamentos. A vida das quatro parecia querer entrar nos antigos trilhos, calma, 
tranquila, serena. A violao dos segredos de Adriana no iria tornar impossvel a tranquilidade? 
Desvendados os segredos, no se chegaria ao irremedivel? No se voltariam todas contra si? E, ainda que 
fossem grandes as culpas da sobrinha, chegariam as suas boas intenes para desculpar o atentado contra o 
direito que assiste a cada um de querer s para si os seus segredos?
         Todos estes escrpulos j tinham assaltado Amlia e tinham sido repelidos. Mas, agora que bastava 
um pequeno movimento para abrir a gaveta, voltavam mais fortes que antes, com a ltima e desesperada 
energia do que vai morrer. Olhou as chaves que mantinha na palma da mo aberta. Enquanto pensava notou, 
inconscientemente, que a chave mais pequena no podia servir. O orifcio da fechadura era demasiado largo 
para ela.
         Os escrpulos continuavam a atropelar-se, cada qual querendo chegar mais depressa e ser mais 
convincente que os outros, e, contudo, vinham j sem fora e sem esperana. Amlia pegou numa das chaves 
maiores e introduziu-a na fechadura. O tinido do metal, o ranger da chave na caixa, fizeram desaparecer os 
escrpulos. A chave no servia. Sem se lembrar de que ainda lhe faltava experimentar uma, obstinou-se com 
aquela. Assustou-se ao sentir que ela se encravava. Comearam a aparecer-lhe na testa pequenas gotas de 
suor. Puxou a chave com fora, aos saces, j presa de um pnico irracional. Com um puxo mais violento 
conseguiu tir-la. Era, sem dvida, a outra. Mas Amlia, depois do esforo, estava to fraca, to cansada, que 
precisou de sentar-se na beira da cama das sobrinhas. As pernas tremiam-lhe. Ao cabo de alguns minutos, 
levantou-se, mais calma. Meteu a outra chave. Devagar, girou-a. O corao comeou a bater com mais fora, 
em palpitaes to fortes que a atordoavam. A chave servia. Agora, era impossvel recuar.
         A primeira coisa que sentiu, ao abrir a gaveta, foi um intenso perfume de sabonete de alfazema. 
Antes de retirar os objetos que a enchiam, procurou fixar as respetivas posies.  frente, estavam dois lenos 
com monograma bordado que reconheceu imediatamente: haviam pertencido ao cunhado, ao pai de Adriana. 
No lado esquerdo, um mao de fotografias antigas, atadas com um elstico. No lado direito, uma caixa preta, 
sem fecho, com guarnies de prata. Dentro, havia algumas contas de um colar, um alfinete de peito a que 
faltavam duas pedras, um boto de flor de laranjeira (lembrana do casamento de alguma rapariga conhecida) 
e pouco mais. Ao fundo, uma caixa maior, fechada. Desprezou as fotografias: eram demasiado antigas para 
poderem interess-la. Com cuidado, para no alterar a posio dos diferentes objetos, retirou a caixa maior. 
Abriu-a com a chave mais pequena e viu o que procurava: o dirio. E mais ainda: um mao de cartas atadas 
com uma fita verde, j desbotada. No desfez o lao; conhecia aquelas cartas, todas de 1941 e 1942. Restos de 
um namoro falhado de Adriana, o seu primeiro e nico namoro. Achou disparatado conservarem-se ainda 
aquelas cartas, dez anos passados sobre o rompimento.
         Amlia pensou tudo isto enquanto tirava o dirio da caixa. Exteriormente, no podia encontrar-se 
nada mais banal e prosaico. Era um vulgar caderno de apontamentos, como os que usam os estudantes. 
Obedientemente, Adriana escrevera na capa, com a sua mais bela letra, alm do nome completo na linha a 
esse fim destinada, a palavra dirio em maisculas enfeitadas com um arzinho gtico, ao mesmo tempo pueril 
e aplicado. Devia ter mordido a lngua enquanto as desenhara, como algum que empregasse todo o seu saber 
caligrfico. A primeira pgina tinha a data de 10 de janeiro de 1950, mais de dois anos antes.
         Amlia comeou a ler, mas logo notou que nada de interessante ali havia. Saltou dezenas de pginas, 
todas elas escritas na mesma letra vertical e angulosa, e foi parar ao ltimo dia em que a sobrinha escrevera. 
s primeiras linhas, sentiu que tinha achado. Adriana falava de um homem. No indicava o nome, empregava 
a palavra ele para design-lo. Era um colega, isso compreendia-se bem, mas nada deixava suspeitar da falta 
grave que Amlia esperava. Leu as pginas anteriores. Queixas de indiferena, assomos de revolta contra a 
fraqueza de amar uma pessoa que se conclua no ser digna, tudo entremeado com pequenos acontecimentos 
da vida domstica, apreciaes sobre msica ouvida, enfim, nada de positivo, nada que justificasse as 
suspeitas. At que chegou ao ponto em que Adriana falava da visita que a me e a tia haviam feito em 23 de 
maro s primas de Campolide. Amlia leu atentamente: o dia aborrecido... o lenol bordado... a confisso da 
fealdade... o orgulho... a comparao com Beethoven, que tambm era feio e no foi amado... Se eu vivesse 
no tempo dele era capaz de lhe beijar os ps, e aposto que nenhuma mulher bonita o faria. (Pobre Adriana! 
Ela teria amado Beethoven, ter-lhe-ia beijado os ps, como se ele fosse um deus!...) O livro de Isaura... o rosto 
de Isaura, contente e dolorido... a dor que causava prazer ou o prazer que causava dor...
         Amlia leu e releu. Tinha o pressentimento vago de que estava ali a explicao do mistrio. J no 
pensava na existncia de uma falta grave. Adriana gostava de um homem, sem dvida, mas esse homem no a 
amava... Como h de ele querer fazer-me cimes, se no sabe que gosto dele? Ainda que Adriana, naquela 
noite, tivesse falado do seu amor  irm, no poderia dizer mais do que ali estava escrito. E ainda que, 
temendo uma indiscrio, no escrevesse no dirio tudo o que se passava, no diria que ele no a amava! 
Por menos sincera que fosse ao escrever, no ocultaria a verdade toda. Ocultando-a, para nada lhe serviria o 
dirio. E um dirio  um desabafo. Ora, o nico desabafo ali existente era a mgoa de um amor no 
correspondido e, ainda por cima, ignorado. Onde estava, ento, o motivo da frieza, do afastamento das duas 
irms?
         Amlia continuou a ler, recuando no tempo. Sempre as mesmas queixas, os aborrecimentos 
profissionais, a histria de uma soma errada, msica, nomes de msicos, as rabugices das velhotas, a sua 
rabugice quando da questo do ordenado... Corou ao ler as apreciaes da sobrinha a seu respeito: Tia 
Amlia est hoje mais rabugenta... Mas logo a seguir comoveu-se. Gosto da tia. Gosto da me. Gosto da 
Isaura. E, outra vez, Beethoven, a mscara de Beethoven, o deus de Adriana... E, sempre constante e intil, 
constantemente intil, ele... Mais pginas para trs: dias, semanas, meses. Os queixumes desapareciam. 
Agora, era o amor que nascia e duvidava de si mesmo, cedo de mais para duvidar dele. Para trs da pgina 
em que ele aparecia pela primeira vez, apenas banalidades.
         Com o caderno aberto sobre os joelhos, Amlia sentia-se lograda e, ao mesmo tempo, satisfeita. 
Nada havia, pois, de mal. Um amor escondido, dobrado sobre si mesmo, falhado como o amor que o mao de 
cartas atadas com a fita verde recordava. Sendo assim, onde estava o segredo? Onde estava a razo das 
lgrimas de Isaura e do disfarce de Adriana?
         Folheou o caderno at encontrar, de novo, a pgina do dia 23 de maro: Isaura tinha os olhos 
vermelhos... parecia que tinha chorado... nervosa... o livro... o prazer-dor ou a dor-prazer...
         Estaria aqui a explicao? Guardou o caderno dentro da caixa. Fechou-a. Fechou a gaveta. Dali nada 
mais poderia tirar. Adriana, afinal, no tinha segredos. Mas havia um segredo. Onde?
         Todos os caminhos estavam tapados. O livro... Qual fora o ltimo livro que Isaura lera? A memria 
de Amlia recusou-se, fechou tambm todas as portas. Depois abriu-as e, de rompante, apareceram nomes de 
autores e ttulos de romances. Nenhum era o que interessava. A memria mantinha uma porta fechada, uma 
porta de que no se encontrava a chave. Amlia recordava tudo. O pequeno livro embrulhado, sobre a mesa da 
telefonia. Isaura dissera o que era e quem era o autor. Depois (lembrava-se bem) tinham ouvido a Dana dos 
Mortos, de Honegger. Lembrava-se da msica burlesca em casa dos vizinhos e da discusso com a irm.
         Mas... talvez Adriana tivesse escrito no dirio! Tornou a abrir a gaveta, procurou e achou o dia. L 
estavam Honegger e ele. Nada mais.
         Fechada novamente a gaveta, olhou as chaves na palma da mo. Sentia-se envergonhada. Cometera, 
ela sim, uma falta grave. Conhecia o que no era para saber-se: o amor frustrado de Adriana.
         Saiu do quarto, atravessou a cozinha, abriu a janela da marquise. O sol continuava alto e luminoso. 
Luminoso o cu, luminoso o rio. Longe, os montes da Outra Banda, azulados pela distncia. Um n de tristeza 
lhe apertou a garganta. Assim era a vida, a sua vida, triste e apagada. Tambm ela tinha agora um segredo 
para guardar e calar. Apertou as chaves com fora. Defronte, havia uns prdios mais baixos. Sobre o telhado 
de um deles, ao sol, preguiavam dois gatos. Com mo firme e decidida, lanou, uma aps outra, as chaves.
         Sob aquele tiroteio inesperado, os gatos fugiram. As chaves rolaram pelo telhado e caram no 
algeroz. Acabara-se. E foi s neste instante que Amlia pensou que ainda lhe restava uma probabilidade: abrir 
a gaveta de Isaura. Mas no: seria intil. Isaura no tinha dirios, e ainda que os tivesse... Sentiu-se 
subitamente cansada. Voltou  cozinha, sentou-se num banco e chorou. Estava vencida. Jogara e perdera. E 
ainda bem que perdera. No sabia, no queria saber. Mesmo que se lembrasse do ttulo do romance, no iria 
busc-lo  biblioteca para o ler. Faria tudo para no se lembrar, e se a porta fechada da memria se abrisse, 
tornaria a fech-la com todas as chaves que pudesse encontrar, menos com as falsas que atirara fora... Chaves 
falsas... segredos violados... No! Envergonhada, estava-o de mais para repetir o ato.
         Enxugou os olhos e levantou-se. Tinha que preparar a refeio. Isaura e a me no tardariam e 
ficariam surpreendidas com o atraso. Foi  casa de jantar buscar um utenslio de que precisava. Sobre a 
telefonia estava o exemplar do Rdio-Nacional da semana. Lembrou-se de que j h muito tempo no ouviam 
msica com ouvidos de ouvir. Pegou no jornal, abriu-o e procurou o programa do dia. Notcias, palestras, 
msica... de repente, os olhos fixaram-se-lhe numa linha, como que fascinados. Leu e releu trs palavras. Trs 
palavras s: um mundo. Devagar, pousou o jornal. Os olhos continuaram a fixar um ponto perdido no espao. 
Parecia esperar uma revelao. E a revelao chegou.
         Rapidamente, tirou o avental, calou os sapatos, vestiu o casaco de sair. Abriu a sua gaveta 
particular, tirou uma pequena joia, um alfinete de ouro, antigo, que representava uma flor de lis. Num pedao 
de papel escreveu: Precisei de sair. Faam o jantar. No se assustem, que no  nada grave. Amlia.
         Quando regressou, j perto da noite, to cansada que mal podia arrastar as pernas, trazia um 
embrulho que foi guardar no seu quarto. Recusou-se a explicar a razo por que sara de casa.
          Mas tu vens to cansada!...  notou Cndida.
          Pois venho.
          Houve alguma novidade?
           segredo, por enquanto.
         Sentada numa cadeira, olhou a irm, sorrindo. Sorrindo, olhou Isaura e Adriana. E era to doce o 
olhar, to afetuoso o sorriso, que as sobrinhas se comoveram. Repetiram as perguntas, mas ela, em silncio, 
acenava a cabea negativamente, com o mesmo olhar e o mesmo sorriso.
         Jantaram. Depois, foi o sero. Pequenos trabalhos, longos minutos. Um inseto da madeira roendo 
algures. A telefonia silenciosa.
         Perto das dez horas, Amlia levantou-se.
          J te vais deitar?  perguntou a irm.
         Sem responder, ligou a telefonia. A casa encheu-se de sons, uns sons de rgo que nasciam e fluam 
como uma torrente inesgotvel. Cndida e as filhas levantaram a cabea, surpreendidas. Algo na expresso de 
Amlia as intrigou. O mesmo sorriso, o mesmo olhar. Depois, como uma catedral que desaba, o rgo calou-
se, aps um final de uma eloquncia barroca. Silncio de segundos. O locutor anunciou o nmero seguinte.
 A Nona! Oh, que bom, tia!  exclamou Adriana, batendo as palmas como uma criana.
         Todas se acomodaram melhor nas cadeiras. Amlia saiu da sala e voltou da a momentos, quando j 
comeara o primeiro andamento. Trazia o embrulho que pousou em cima da mesa. A irm olhou-a 
interrogativamente. Tirou da parede um dos retratos que a decoravam. Devagar, como se cumprisse um rito, 
desembrulhou o que trouxera. A msica, um pouco esquecida, prosseguia. O estalar do papel incomodava. 
Mais um movimento, o papel que escorrega para o cho  e apareceu a mscara de Beethoven.
         Dir-se-ia um final de ato. Mas o pano no caiu. Amlia olhou Adriana e explicou, enquanto 
pendurava a mscara na parede:
 Ouvi-te dizer, em tempos, que gostavas de ter a mscara dele... Quis fazer-te uma surpresa!...
          Oh, minha querida tia!
          Mas... mas o dinheiro?  perguntou Cndida.
          Isso no importa  respondeu a irm.   segredo.
         A esta palavra, Adriana e Isaura olharam a tia furtivamente. Mas nos olhos dela no havia j 
suspeitas. Havia apenas uma imensa ternura, uma ternura que transparecia atravs de algo que se assemelharia 
a lgrimas, se tia Amlia fosse pessoa para chorar...
 


         

         XXXV

          O Abel demora-se. Queres ir jantar?
          No. Espera-se mais um bocado.
         Mariana suspirou:
          Pode ser que ele no venha. Dois  espera de um...
 Se no viesse jantar, teria avisado. Se no quiseres esperar, come tu. O meu apetite no  grande.
          Nem o meu...
         Ouvindo abrir a porta, os dois tiveram um sobressalto. Quando Abel apareceu:
          Ento?  perguntou Silvestre.
          Nada.
          No conseguiu nada?
         O rapaz puxou um banco e sentou-se:
 Fui ao escritrio. Disse ao contnuo que era um cliente e que queria falar com o administrador 
Morais. Mandaram-me entrar para uma sala e, da a pouco, chegou ele. Assim que eu disse ao que ia, tocou a 
campainha, e quando o contnuo apareceu mandou-o acompanhar-me  porta. Ainda quis falar, explicar-me, 
mas ele virou-me as costas e saiu. No corredor, cruzei-me com a pequena do segundo andar: olhou-me com ar 
de desprezo. Enfim, fui posto na rua.
         Silvestre deu um soco na mesa:
          Esse tipo  um canalha!
 Foi o que ele me chamou h bocado quando lhe telefonei para casa. Chamou-me canalha e 
desligou.
          E agora?  perguntou Mariana.
 Agora? Se ele no fosse um velho, dava-lhe duas bofetadas. Assim, nem isso posso fazer...
         Silvestre levantou-se e percorreu a cozinha em passos agitados:
 Esta vida... Esta vida  um monturo! Porcaria, porcaria e nada mais! No h, ento, remdio?
          Receio bem que no. Farei apenas aquilo que devo...
         Silvestre estacou:
          O que deve? No percebo...
  simples. No posso continuar aqui. Toda a gente na vizinhana sabe o que aconteceu. Parecer o 
cmulo do descaramento a minha permanncia. Alm disso,  natural que ela no se sinta bem sabendo-me 
aqui e sabendo o que os vizinhos dizem.
          O qu? Quer-se ir embora?
         Abel sorriu, um sorriso um pouco cansado:
 Se quero ir-me embora? No, no quero, mas devo. J arranjei quarto. Amanh farei a mudana... 
No olhem para mim dessa maneira, por favor!...
         Mariana chorava. Silvestre avanou para ele, ps-lhe as mos sobre os ombros, quis falar e no 
conseguiu.
          Ento... ento...  disse o rapaz.
         Silvestre forou um sorriso:
 Se eu fosse mulher tambm chorava. Mas como no sou... como no sou...
         Virou-se bruscamente para a parede, como se no quisesse que Abel lhe visse o rosto. O rapaz 
levantou-se e f-lo voltar-se:
          Ento? Vamos chorar todos? Seria uma vergonha...
 Tenho tanta pena de que se v embora!  soluou Mariana.  J estvamos habituados. Era como 
se fizesse parte da famlia!...
         Abel ouvia-a, comovido. Olhou um e outro e perguntou, devagar:
          Sinceramente, acham que devo ficar?
         Silvestre hesitou um segundo, e respondeu:
          No.
 Oh, Silvestre  exclamou a mulher  por que no dizes que sim? Talvez ele ficasse!...
 s tonta. O Abel tem razo. Vai-nos custar muito, mas que havemos de fazer?
         Mariana enxugou os olhos e assoou-se com fora. Tentou sorrir:
 Mas venha c de vez em quando fazer-nos uma visita, sim, senhor Abel?
          S se me prometer uma coisa...
          O qu? prometo tudo!...
 Que pe de parte, de uma vez para sempre, o senhor Abel, e passa a tratar-me por Abel, sem a 
senhoria. Est combinado?
          Est combinado.
         Sentiam-se, ao mesmo tempo, felizes e tristes. Felizes por se amarem, tristes por se separarem. Foi o 
ltimo jantar em comum. Outros haveria, por certo, mais tarde, quando tudo se acalmasse e Abel pudesse 
voltar, mas seriam diferentes. J no seria a reunio de trs pessoas que vivem debaixo do mesmo teto, que 
dividem as alegrias e as tristezas entre si, como o po e o vinho. A sua nica compensao estava no amor, 
no o amor obrigatrio do parentesco, tantas vezes um fardo imposto pelas convenes, mas o amor 
espontneo que de si mesmo se alimenta.
         Findo o jantar, enquanto Mariana lavava a loia, Abel foi arrumar as suas malas com Silvestre. 
Depressa o trabalho se concluiu. O rapaz estendeu-se em cima da cama, com um suspiro.
          Aborrecido?  perguntou o sapateiro.
 No  caso para menos. J basta para nos atormentar o mal que fazemos conscientemente... Como 
v, o simples facto de existirmos pode ser um mal.
          Ou um bem.
 Neste caso, no foi. Se eu no tivesse vindo morar para a sua casa, talvez isto no tivesse sucedido.
 Talvez... Mas, se a pessoa que escreveu a carta, estava decidida a escrev-la, arranjaria maneira de 
fazer a denncia. O Abel serviu to bem, para o efeito, como qualquer outro.
          Tem razo. Mas logo aconteceu comigo!...
 Consigo, que tem tido o maior cuidado, que corta todos os tentculos!...
          No brinque.
 No estou a brincar. Cortar tentculos no basta. O Abel vai-se embora amanh. Desaparece, 
cortou o tentculo. Mas o tentculo ficar aqui, na minha amizade por si, na transformao da vida da D. 
Ldia.
  o que eu lhe dizia h pouco. O simples facto de existirmos pode ser um mal.
          Para mim foi um bem. Conheci-o e fiquei seu amigo.
          E que ganhou com isso?
          A amizade. Acha pouco?
          No, decerto...
         Silvestre no respondeu. Puxou a cadeira para junto da cama e sentou-se. Tirou da algibeira do colete 
a ona e as mortalhas e fez um cigarro. Olhou Abel atravs da nuvem de fumo que se ergueu e murmurou, 
como que a brincar:
          O seu mal, Abel,  no amar.
          Sou seu amigo e a amizade  uma forma do amor.
          De acordo...
         Seguiu-se outro silncio, durante o qual Silvestre no deixou de fitar o rapaz.
          Em que est a pensar?  perguntou este.
          Nas nossas velhas discusses.
          No vejo que relao...
 Tudo se relaciona... Quando lhe disse que o seu mal era no amar, sups que me referia ao amor 
por uma mulher?
 Foi o que pensei. Efetivamente, gostei de muitas, mas no amei nenhuma. Estou seco.
         Silvestre sorriu:
 Aos vinte e oito anos? Deixe-me rir! Espere pela minha idade!
          Seja. Afinal, referia-se ou no ao amor por uma mulher?
          No.
          Ento?
 A outra espcie de amor. Nunca lhe aconteceu, ao passar na rua, sentir um desejo sbito de abraar 
as pessoas que o cercam?
 Se eu quisesse ser gracioso, diria que s me apetece abraar as mulheres, e no  sempre, nem a 
todas... Mas, espere... No se zangue. Nunca me aconteceu isso, palavra de honra.
          A  que est o amor em que eu falava.
         Abel ergueu-se sobre os cotovelos e fitou o sapateiro, curiosamente:
          Dava um timo apstolo, sabe?
 No creio em Deus, se  a que quer chegar. Talvez me julgue piegas...
         O rapaz protestou:
          De modo algum!
 Talvez esteja a pensar que isto so efeitos da velhice. Se assim , sempre fui velho. Sempre assim 
pensei e senti. E se nalguma coisa hoje acredito,  no amor, neste amor.
 ...  belo ouvir-lhe dizer isso. Mas  uma utopia. E uma contradio tambm. Pois no disse que a 
vida  um monturo e uma porcaria?
 No me desdigo. A vida  um monturo e uma porcaria porque uns tantos assim a quiseram. Esses 
tiveram, e tm, continuadores.
         Abel sentou-se na cama. A conversa comeava a interess-lo:
          Tambm desejaria abraar esses?
 No levo a pieguice a esse ponto. Como poderia eu amar os responsveis pelo desamor entre os 
homens?
         A frase, to carregada de sentido, acordou uma reminiscncia em Abel:
          Pas de libert pour les ennemis de la libert...
          No compreendo. Parece francs, mas no percebo...
  uma frase de Saint-Just, um dos homens da Revoluo Francesa. Quer dizer, mais ou menos, que 
no deve haver liberdade para os inimigos da liberdade. Aplicando-a  nossa conversa, pode dizer-se que 
devemos odiar os inimigos do amor.
          Tinha razo esse...
          Saint-Just.
          Isso. No est de acordo comigo?
          Quanto  frase ou quanto ao resto?
          Ambas as coisas.
         Abel pareceu recolher-se no pensamento. Depois, respondeu:
 Quanto  frase, estou. Mas, quanto ao resto... Nunca encontrei ningum a quem pudesse amar com 
esse amor. E olhe que conheci muita gente. So todos piores uns que outros. Talvez tenha encontrado uma 
exceo na sua pessoa. No pelo que tem estado a dizer-me, mas pelo que conheo de si e da sua vida. 
Compreendo que possa amar desse modo, eu no posso. Levei muitos pontaps, sofri demasiado. No farei 
como o outro, que dava a face esquerda a quem lhe esbofeteava a direita...
         Silvestre interrompeu, com veemncia:
          Nem eu o faria. Cortaria, sim, a mo que me agredisse.
 Se todos procedessem dessa maneira, no haveria no mundo quem tivesse as duas mos. Quem  
batido, se no bateu ainda, bater um dia.  uma questo de oportunidade.
 A essa maneira de pensar d-se o nome de pessimismo, e quem assim pensa ajuda os que querem o 
desamor entre os homens.
 Desculpe se o magoo, mas tudo isso  uma utopia. A vida  uma luta de feras, a todas as horas e 
em todos os lugares.  o salve-se quem puder, e nada mais. O amor  o prego dos fracos, o dio  a arma 
dos fortes. dio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de po ou de terra, ou ao 
mesmo poo de petrleo. O amor s serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem 
com as fraquezas dos fracos. A existncia dos fracos  vantajosa como recreio, serve de vlvula de escape.
         Silvestre no pareceu ter apreciado a comparao. Ficou a olhar muito srio para Abel. Depois sorriu 
bruscamente e perguntou:
 O Abel pertence ao nmero dos fortes ou ao nmero dos fracos?
         O rapaz sentiu-se apanhado em falso:
          Eu?... Essa pergunta  desleal!...
 Eu ajudo. Se pertence ao grupo dos fortes, por que no faz como eles? Se est com os fracos, por 
que no faz como eu?
 No sorria com esse arzinho de triunfador. No  leal, repito.
          Mas, responda!
 No sei responder. Talvez haja uma espcie intermdia. De um lado, os fortes; do outro, os fracos; 
e, ao meio, eu e... o resto.
         Silvestre deixou de sorrir. Olhou fixamente o outro e respondeu, lentamente, contando pelos dedos as 
afirmaes que fazia:
 Ento, responderei por si. O Abel no sabe o que quer, no sabe para onde vai, no sabe o que tem.
          Em suma: no sei nada!
 No graceje. O que estou a dizer-lhe  muito importante. Quando, em tempos, lhe disse que tinha 
de descobrir por si...
          A utilidade, j sei  interrompeu Abel, impaciente.
 Quando lho disse, estava longe de supor que se iria embora to depressa. Tambm lhe disse que 
no poderia aconselh-lo. Repito tudo isso. Mas o Abel vai-se embora amanh, talvez nunca mais nos 
voltemos a ver... Pensei que, se no posso aconselh-lo, posso pelo menos dizer-lhe que a vida sem o amor, a 
vida assim como a descreveu h pouco, no  vida,  um monturo, um cano de esgoto!
         Abel ergueu-se, impulsivo:
           tudo isso, sim senhor! E que lhe havemos de fazer?
 Transform-la!  respondeu Silvestre, levantando-se tambm.
          Como? Amando-nos uns aos outros?
         O sorriso de Abel desvaneceu-se perante a expresso grave de Silvestre:
 Sim, mas com um amor lcido e ativo, um amor que vena o dio!
          Mas o homem...
 Oua, Abel! Quando ouvir falar no homem, lembre-se dos homens. O Homem, com H grande, 
como s vezes leio nos jornais,  uma mentira, uma mentira que serve de capa a todas as vilanias. Toda a 
gente quer salvar o Homem, ningum quer saber dos homens.
         Abel encolheu os ombros, num gesto de desalento. Reconhecia a verdade das ltimas palavras de 
Silvestre, ele prprio j o pensara muitas vezes, mas no tinha aquela f. Perguntou:
          E que podemos ns fazer? Eu? O senhor?
          Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.
          E que faz o senhor para isso?
 Conserto-lhes os sapatos, j que nada mais posso fazer agora. O Abel  novo,  inteligente, tem 
uma cabea sobre os ombros... Abra os olhos e veja, e se depois disto ainda no tiver compreendido, feche-se 
em casa e no saia, at que o mundo lhe desabe em cima!
         Silvestre elevara a voz. Os seus lbios tremiam de comoo mal reprimida. Os dois homens ficaram 
um diante do outro, olhos nos olhos. Corria entre eles um fluido de compreenso, um permutar silencioso de 
pensamentos mais eloquentes que todas as palavras. Abel murmurou com um sorriso contrafeito:
 H de concordar que o que est a dizer  um tanto subversivo...
 Acredita que seja? No me parece. Se isto  subversivo, tudo  subversivo, at a respirao. Sinto e 
penso assim como respiro, com a mesma naturalidade, a mesma necessidade. Se os homens se odiarem, nada 
poder fazer-se. Todos seremos vtimas dos dios. Todos nos mataremos nas guerras que no desejamos e de 
que no temos responsabilidade. Ho de pr-nos diante dos olhos uma bandeira, ho de encher-nos os ouvidos 
com palavras. E para qu, afinal? Para criar a semente de uma nova guerra, para criar novos dios, para criar 
novas bandeiras e novas palavras.  para isto que vivemos? Para fazer filhos e lan-los na fornalha? Para 
construir cidades e arras-las? Para desejar a paz e ter a guerra?
 E o amor resolver tudo isso?  perguntou Abel, sorrindo com tristeza, onde havia uma ponta de 
ironia.
 No sei.  a nica coisa que ainda no se experimentou...
          E iremos a tempo?
 Talvez. Se os que sofrem se convencessem de que  esta a verdade, talvez fssemos a tempo...  
Interrompeu-se, como se uma preocupao lhe assaltasse o esprito:  Mas no esquea, Abel!... Amar com 
um amor lcido e ativo! Que a atividade no faa esquecer a lucidez, que a atividade no leve a cometer 
vilanias como as cometem os que querem o desamor entre os homens! Ativo, sim, mas lcido! E lcido acima 
de tudo!
         Como uma mola que se quebra depois de uma tenso excessiva, o entusiasmo acalmou. Silvestre 
sorriu:
 Falou o sapateiro. Se outra pessoa me ouvisse, diria: Fala bem de mais para sapateiro. Ser um 
doutor disfarado?
         Por sua vez, Abel riu e perguntou:
          Ser um doutor disfarado?
          No. Sou apenas um homem que pensa.
         Abel deu alguns passos no quarto, silencioso. Sentou-se na mala onde guardava os livros e olhou o 
sapateiro. Silvestre parecia embaraado, enquanto remexia na ona do tabaco.
          Um homem que pensa...  murmurou o rapaz.
         O sapateiro ergueu os olhos, com uma expresso interrogativa.
 Todos ns pensamos  continuou Abel.  Mas acontece que pensamos mal a maior parte das vezes. 
Ou ento h um abismo entre o que pensamos e o que fazemos... ou fizemos...
          No compreendo onde quer chegar  observou Silvestre.
  fcil. Quando me contou a sua vida, tive a perceo clara da minha inutilidade e sofri por isso. 
Sinto-me neste momento um pouco compensado. Afinal, o meu amigo caiu numa atitude to negativa como a 
minha ou talvez ainda mais. Presentemente no  mais til que eu...
          Creio que no me compreendeu, Abel.
 Compreendi, sim. Aquilo que pensa hoje serve apenas para se convencer a si prprio de que  
melhor que os outros...
          No me julgo superior a ningum!
          Julga. Tenho a certeza de que julga.
          Dou-lhe a minha palavra!
 Seja. Acredito. Nem isso, de resto, importa. O que importa  que enquanto o meu amigo pde agir 
nunca pensou desse modo, a sua crena era diferente. Hoje que a idade e as circunstncias o obrigam ao 
silncio, procura enganar-se com esse amor quase evanglico. Ai do homem que tem de substituir os atos 
pelas palavras! Acabar por ouvir apenas a sua voz!... A palavra agir na sua boca, meu amigo,  apenas 
uma recordao, uma palavra vazia!...
          Com um pouco mais, o Abel dir que no sou sincero!
 De modo nenhum. Mas perdeu o contacto com a vida, desenraizou-se, julga estar no combate, 
quando a verdade  que tem na mo apenas a sombra de uma espada e que  sua volta nada h alm de 
sombras...
          Desde quando pensa assim a meu respeito?
 Desde h cinco minutos. Depois do que viveu, veio cair no amor!
         Silvestre no respondeu. Com as mos trmulas enrolou um cigarro e acendeu-o. Piscou os olhos 
quando o fumo os atingiu e ficou  espera.
 Chamou-me pessimista  prosseguiu Abel  e acusou-me de ajudar, com o meu pessimismo, 
aqueles que querem o desamor entre os homens. No lhe negarei razo. Mas note que a sua atitude, 
meramente passiva como , no os ajuda menos, at porque, quase sempre, esses a quem se refere usam a 
linguagem do amor. As mesmas palavras, as suas e as deles, anunciam ou escondem objetivos diferentes. 
Direi mesmo que as suas servem somente os objetivos deles, porque no acredito que o meu amigo tenha hoje 
qualquer objetivo concretizvel. Contenta-se em dizer: amo os homens  e isso lhe basta, esquecendo que o 
seu passado exige alguma coisa mais que uma simples afirmao. Diga-me, por favor, que interessa ao mundo 
essa frase, ainda que seja proferida por milhes de homens, se faltam a esses milhes de homens todos os 
meios necessrios para fazer dela mais que o resultado de um impulso emocional?
 O Abel fala de maneira que quase no o entendo... Esquece que eu disse: amor lcido e ativo?
 Ainda outra frase. Onde est a sua atividade? Onde est a atividade daqueles que pensam como o 
senhor e que no tm a velhice como desculpa da inatividade? Quem so eles?
          Chegou a sua vez de dar-me conselhos...
 No tenho essa pretenso. Conselhos de nada servem, no foi o que disse? Uma coisa me parece 
verdadeira: o grande ideal, a grande esperana, de que me falou, no sero mais que palavras se pretendermos 
concretiz-los recorrendo ao amor!
         Silvestre afastou-se para um canto do quarto. De l, perguntou bruscamente:
          Que vai fazer?
         O rapaz no respondeu logo. No silncio que seguiu as palavras de Silvestre ouviu, vindo no sabia 
donde, um canto de vozes numerosas.
 No sei  respondeu.  Atualmente sou um intil, aceito a sua acusao, mas prefiro esta 
inutilidade temporria  suposta utilidade da sua atitude.
          Invertem-se os papis. Agora  o Abel que me censura...
 No o censuro. O que disse acerca do amor  belo, mas no me pode servir.
 Esqueci-me de que h entre ns quarenta anos de diferena... No me poderia entender...
 Tambm o Silvestre de h quarenta anos no o entenderia a si, meu amigo.
          Quer dizer que  a idade que me faz pensar assim?
 Talvez  sorriu Abel.  A idade pode muito. Traz a experincia mas traz, tambm, o cansao...
 Ouvindo-o falar, ningum diria que at hoje nada fez seno viver para si...
  certo. Mas para qu censurar-me? Talvez a minha aprendizagem tenha de ser mais lenta, talvez 
eu tenha de receber muitas mais cicatrizes at me tornar num verdadeiro homem... Por enquanto sou aquele a 
quem chamaram intil e se calou porque sabia que assim era. Mas no o serei sempre...
          Que pensa fazer, Abel?
         O rapaz ergueu-se devagar e caminhou para Silvestre. A dois passos, respondeu:
 Uma coisa muito simples: viver. Saio de sua casa mais seguro do que quando nela entrei. No 
porque me sirva o caminho que me apontou, mas sim porque me fez pensar na necessidade de encontrar o 
meu. Ser uma questo de tempo...
          O seu caminho ser sempre o pessimismo.
 No duvido. Apenas desejo que esse pessimismo me desvie das iluses fceis e embaladoras, como 
o amor...
         Silvestre agarrou-o pelos ombros e sacudiu-o:
 Abel! Tudo o que no for construdo sobre o amor gerar o dio!
Tem razo, meu amigo. Mas talvez tenha de ser assim durante muito tempo... O dia em que ser 
possvel construir sobre o amor no chegou ainda...
         
 



